Tudo Posso, Mas Nem Tudo Me Convém: A Liberdade que Assusta, o Limite que Liberta e o Sentido que se Constrói na Escolha
- Dr° Adilson Reichert

- 22 de jun.
- 16 min de leitura
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Uma Jornada pela Fronteira entre o Desejo e o Dever, o Possível e o Pertinente, a Vontade e o Vazio
Há uma cena que se repete em meu consultório com uma frequência que já não me causa espanto, apenas uma tristeza serena. Um jovem de vinte e poucos anos, inteligente, saudável, com recursos financeiros e uma família que o apoia, senta-se à minha frente e diz: "Doutor, eu posso fazer qualquer coisa. Literalmente qualquer coisa. Posso cursar qualquer faculdade, viajar para qualquer país, começar qualquer negócio, namorar qualquer pessoa. O mundo é uma vitrine infinita de possibilidades. E eu não consigo escolher nada. Tudo me parece igualmente vazio. O que há de errado comigo?"
Nada de errado, respondo. Você está sofrendo da doença mais característica do nosso tempo: a paralisia da liberdade. Você pode tudo – e, por poder tudo, não quer nada. Ou quer tudo – e, por querer tudo, não escolhe nada. Ou, mais precisamente, você descobriu, como tantos antes de você, que o coração humano é um campo de batalha onde três forças se enfrentam: o que é possível, o que é conveniente, o que é desejável – e, no centro, uma pergunta que não cala: o que, afinal, vale a pena?
"Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém", escreveu o apóstolo Paulo, há dois mil anos. A frase ecoa através dos séculos porque toca uma ferida que não cicatriza: a consciência de que a liberdade, por si só, não é suficiente para a felicidade. É preciso saber escolher. E saber escolher exige critérios – e critérios exigem uma estrutura de valores, que, por sua vez, exige uma cosmovisão, que, por sua vez, exige uma resposta à pergunta pelo sentido da vida.
Este artigo é uma travessia por esse labirinto. Com a bússola da neuropsicanálise, da Terapia Cognitivo-Comportamental e da Educação Social, exploraremos:
Por que podemos tudo, mas nem tudo devemos fazer? Quem dita as regras e onde elas estão escritas?
Por que tudo que me convém muitas vezes não me interessa – e tudo que me interessa muitas vezes não é conveniente?
Como essa dicotomia entre desejo e rejeição, motivação e apatia, se forma na psique e se manifesta na vida cotidiana?
Qual é o sentido da vida? Por que vivemos, por que existimos, de onde viemos e para onde vamos?
E, acima de tudo: como sair da paralisia da liberdade e construir uma vida que faça sentido – não apesar das limitações, mas por meio delas?
Dialogaremos com pensadores de todas as épocas: Sócrates e Platão (a vida examinada), Aristóteles (a felicidade como atividade da alma conforme a virtude), Sêneca e Epicteto (o estoicismo e o controle do que depende de nós), Santo Agostinho (a inquietação do coração), Kierkegaard (o salto da fé e a angústia da escolha), Nietzsche (a vontade de potência e o além do bem e do mal), Sartre (a liberdade como condenação), Camus (o absurdo e a revolta), Frankl (a vontade de sentido), Fromm (a fuga da liberdade), Bauman (a modernidade líquida), Han (a sociedade do cansaço), Freud (o mal-estar na civilização) e Jung (a individuação como integração).
Ao final, compreenderemos que a pergunta "o que devo fazer?" não tem uma resposta única e imutável – e que essa ausência de resposta, longe de ser uma maldição, é a própria condição da liberdade humana. A regra não está escrita em pedra; está escrita no confronto entre o que somos, o que queremos e o que o mundo nos oferece. E a vida, nesse confronto, não é um problema a ser resolvido, mas um mistério a ser vivido.
Parte I: A Arquitetura do Limite – Por Que Nem Tudo Devemos Fazer?
1.1 A Ilusão da Onipotência: A Liberdade que Enriquece e a Liberdade que Escraviza
A frase "tudo posso" é, ao mesmo tempo, a maior verdade e a maior mentira sobre a condição humana. É verdade no sentido de que, dentro dos limites das leis da física e da biologia, uma pessoa adulta, saudável e com recursos pode, de fato, realizar uma gama imensa de ações. Pode viajar, estudar, trabalhar, amar, criar, destruir. Pode ser herói ou vilão. Pode construir uma vida ou arruiná-la em poucos segundos.
Mas é mentira no sentido de que nenhuma ação é neutra. Toda ação tem consequências. Toda escolha é também uma renúncia. Todo "sim" a uma possibilidade é um "não" a todas as outras. E é precisamente essa consciência da finitude – do tempo, da energia, da atenção, da capacidade de suportar as consequências – que transforma o "posso" em "devo".
A psicanálise, desde Freud, nos ensina que o princípio do prazer (buscar o que nos dá satisfação imediata) é constantemente confrontado pelo princípio da realidade (reconhecer os limites do mundo e as consequências dos atos). A criança pequena age como se pudesse tudo – e, aos poucos, descobre que não pode. O adulto saudável internalizou essa descoberta, não como uma perda, mas como uma libertação: saber que não se pode tudo é saber que não se precisa de tudo.
O neurocientista Antonio Damásio mostrou que a capacidade de antecipar consequências – e de associá-las a emoções (os chamados marcadores somáticos) – é essencial para a tomada de decisão. Pacientes com lesões no córtex pré-frontal ventromedial perdem essa capacidade e, embora mantenham a inteligência abstrata, tornam-se incapazes de escolher. Eles podem fazer qualquer coisa, mas não conseguem sentir o que deveriam fazer.
1.2 Onde Estão Escritas as Regras? A Experiência como Texto Vivo
Se não há um manual universal que nos diga o que fazer, onde aprendemos o que "convém"? A resposta é múltipla:
Na cultura: as tradições, os costumes, as leis, as expectativas sociais – tudo isso forma um tecido normativo que, muitas vezes sem que percebamos, orienta nossas escolhas.
Na família: os valores que nos foram transmitidos, explícita ou implicitamente, pelos pais e cuidadores.
Na experiência pessoal: o que funcionou e o que deu errado; o que trouxe satisfação duradoura e o que deixou apenas vazio.
Na neurobiologia: a dor e o prazer, a ativação dopaminérgica e a resposta ao estresse – tudo isso "escreve" regras no nível pré-verbal, regras que se tornam preferências e aversões.
Aristóteles chamou esse processo de aquisição da virtude (areté): a prática repetida de ações justas, corajosas, prudentes e temperantes forma o caráter, e o caráter, por sua vez, torna as ações virtuosas mais naturais. A regra não é imposta de fora; é construída de dentro, pela repetição e pela reflexão.
Kierkegaard foi mais radical: a regra não está em lugar nenhum, e é exatamente essa ausência que nos coloca diante da angústia da escolha. Para ele, a fé é o "salto" que nos permite escolher uma vida que não pode ser justificada por nenhuma razão externa – apenas pela própria escolha. Não há garantias. Não há manuais. Há apenas a coragem de decidir.
1.3 O que é "Convém"? Uma Tentativa de Definição
O que chamamos de "conveniência" não é mero utilitarismo – o que é mais vantajoso no curto prazo. É uma categoria mais complexa, que envolve:
Coerência com os valores: aquilo que está alinhado com o que consideramos importante.
Sustentabilidade: o que pode ser mantido no longo prazo, sem esgotar nossas forças ou nossos recursos.
Integridade: o que não nos obriga a mentir para nós mesmos ou para os outros.
Crescimento: o que nos desafia a nos tornar mais do que somos, mas de forma não destrutiva.
Conexão: o que nos aproxima dos outros, em vez de nos isolar.
O que "convém" é, portanto, o que promove a vida – a nossa e a dos outros – de forma integrada e durável. É o que o filósofo Hans Jonas chamou de princípio responsabilidade: agir de modo que as consequências de nossos atos não comprometam a continuidade da vida no planeta.
Parte II: A Dicotomia do Desejo – Por Que Quero o que Não Posso e Posso o que Não Quero?
2.1 A Estrutura do Desejo: O Objeto Proibido e a Fruta do Éden
A psicanálise freudiana oferece uma chave poderosa para entender por que o que é proibido ou inacessível frequentemente se torna mais desejável. O complexo de Édipo – o desejo pela mãe e o medo do pai – mostra que o objeto proibido é, por definição, o mais atraente. O interdito não é apenas um obstáculo; é um estimulador do desejo.
Jacques Lacan aprofundou essa intuição: o desejo não é uma relação com um objeto, mas uma relação com a falta. Desejamos o que não temos, e nunca desejamos plenamente o que temos. Por isso, tudo que queremos – enquanto não o temos – parece a solução para todos os nossos problemas. Quando o obtemos, a falta se desloca para outro objeto. O desejo é, por definição, insaciável.
É por isso que o jovem do início do artigo, que pode fazer qualquer coisa, não quer fazer nada. A falta, para ele, não está nos objetos – está na capacidade de desejar. Quando tudo é possível, nada é desejável. O excesso de opções aniquila o desejo, porque o desejo precisa de um obstáculo para se inflamar.
2.2 A Neurobiologia do Querer e do Gostar: A Dopamina e a Separação
A neurociência contemporânea confirmou, com precisão cirúrgica, o insight lacaniano. O neurocientista Kent Berridge distinguiu entre dois sistemas:
O sistema do "querer" (desejo, motivação, antecipação), mediado pela dopamina.
O sistema do "gostar" (prazer, satisfação, consumação), mediado por opioides endógenos.
O problema é que os dois sistemas podem atuar de forma independente. Podemos querer algo intensamente, mas, ao obtê-lo, não gostar dele – sentir apenas um vazio ou, pior, uma sensação de anticlímax. É o que acontece com a pessoa que sonha com uma promoção, mas, ao consegui-la, descobre que o trabalho se tornou mais estressante e menos significativo.
A indústria do consumo explora essa dissociação: nos faz querer o que não precisamos, e nos faz querer mais do que podemos ter. Mas a neurociência também mostra que a satisfação duradoura não vem da posse, mas da atividade – do engajamento em processos criativos, relacionais e significativos. O que convém, nesse sentido, não é o que a dopamina promete, mas o que a experiência real confirma.
2.3 A Mente que se Divide: O Conflito entre o Desejo e o Dever
Freud descreveu o aparelho psíquico como um campo de batalha entre o Id (pulsões, desejos imediatos), o Superego (regras internalizadas, censura moral) e o Ego (mediador, tentando conciliar as exigências internas e externas). O conflito entre "quero" e "devo" é a dinâmica básica da psique.
Mas essa dinâmica mudou na modernidade. O Superego tornou-se menos uma voz parental coercitiva e mais uma voz social difusa – as expectativas de sucesso, beleza, produtividade, felicidade, que a mídia e as redes sociais nos impõem. O resultado não é uma escolha autêntica, mas uma ansiedade de performance – a sensação de que, qualquer que seja nossa escolha, ela não será suficiente.
Byung-Chul Han descreveu a sociedade contemporânea como uma sociedade do desempenho, onde o imperativo não é mais "obedeça", mas "seja você mesmo – e seja excelente". O resultado é a depressão e o burnout: a pessoa se cobra mais do que qualquer chefe cobraria, mas não tem critérios internos para saber se o que está fazendo vale a pena.
Parte III: A Motivação em Crise – Por Que Tudo que me Convém não me Interessa?
3.1 O Paradoxo da Motivação Extrínseca vs. Intrínseca
Edward Deci e Richard Ryan, criadores da Teoria da Autodeterminação, mostraram que a motivação humana não é monolítica. Distinguem:
Motivação extrínseca: fazer algo por recompensa externa (dinheiro, status, aprovação, evitar punição).
Motivação intrínseca: fazer algo porque a atividade em si é interessante, significativa ou prazerosa.
Quando a motivação extrínseca se torna dominante, a pessoa faz o que é "conveniente" (no sentido de lucrativo, aceitável, socialmente valorizado) – mas perde o interesse. Ela se torna um funcionário de sua própria vida: faz o que precisa ser feito, mas sem paixão, sem envolvimento, sem sentido.
O jovem do início – que pode tudo e não quer nada – está, na verdade, preso em um labirinto de motivações extrínsecas. Ele pensa: "Posso fazer isso. Mas por que faria?" A resposta não está nas opções, mas na ausência de um "porquê" interno. Ele não tem uma bússola, apenas um mapa com todas as rotas possíveis.
3.2 O Sentido como Necessidade Biológica: Viktor Frankl e a Vontade de Sentido
Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e fundador da logoterapia, argumentou que a necessidade de sentido é tão fundamental quanto a fome ou o desejo sexual. A vontade de sentido é a motivação primária do ser humano. Quando ela é frustrada, a pessoa experimenta o que Frankl chamou de vazio existencial – um sentimento de tédio, apatia e falta de direção.
Frankl escreveu: "A vida não é uma tarefa a ser cumprida? Se assim é, a pergunta pelo sentido da vida não pode ser respondida em geral, mas apenas por cada pessoa, em cada situação concreta." O sentido não é dado de antemão; é descoberto na resposta que damos às demandas concretas da vida.
O que "convém", nessa perspectiva, não é o que nos é imposto pela sociedade, mas o que responde à pergunta que a vida nos faz naquele momento. E a pergunta muda a cada dia, a cada relação, a cada circunstância.
3.3 A Rejeição como Defesa: Quando o Medo do Fracasso Paralisia o Desejo
Por vezes, a falta de interesse não é uma ausência de desejo, mas uma defesa contra o desejo. Desejar é expor-se à possibilidade de frustração. Querer algo é arriscar não o obter. A pessoa que se recusa a desejar – que diz "não me interessa" a tudo que é possível – pode estar, na verdade, protegendo-se da decepção.
Søren Kierkegaard chamou essa atitude de desespero da finitude: a pessoa se agarra ao que é concreto, seguro, limitado, para não ter que enfrentar o infinito das possibilidades. Ela prefere não escolher a errar na escolha. Mas, como Kierkegaard também mostrou, não escolher é uma escolha – e, frequentemente, a pior.
Parte IV: A Pergunta pelo Sentido – Por Que Vivemos, Por Que Existimos?
4.1 As Respostas Tradicionais: Religião, Filosofia e Ciência
A pergunta pelo sentido da vida é tão antiga quanto a consciência humana. A humanidade respondeu a ela de três maneiras principais:
Religião: o sentido é dado por Deus (ou pelos deuses). A vida tem um propósito transcendente: servir a Deus, cumprir Seus mandamentos, alcançar a salvação. A regra está escrita nas escrituras; o que "convém" é o que está de acordo com a vontade divina.
Filosofia: o sentido é construído pela razão. Desde Sócrates ("a vida não examinada não vale a pena ser vivida") até os existencialistas ("a existência precede a essência"), a filosofia nos convida a inventar nosso próprio sentido, a partir da reflexão e da escolha.
Ciência: o sentido é uma ilusão adaptativa. Do ponto de vista biológico, vivemos porque nossos genes encontraram uma maneira de se replicar. Do ponto de vista cosmológico, somos um acidente feliz (ou infeliz) em um universo indiferente. A ciência não responde ao "por quê", apenas ao "como".
O problema é que nenhuma dessas respostas, isoladamente, satisfaz plenamente. A religião oferece certeza, mas exige fé. A filosofia oferece autonomia, mas exige esforço. A ciência oferece verdade, mas não oferece consolo.
4.2 O Absurdo e a Revolta: Albert Camus e a Vida sem Deus
Albert Camus descreveu a condição humana como absurda: o desejo humano por sentido e a indiferença do universo são incompatíveis. Não há resposta definitiva. Não há sentido preestabelecido. Somos como Sísifo, condenado a rolar uma pedra montanha acima, vê-la cair, e rolar de novo.
Mas Camus concluiu: "É preciso imaginar Sísifo feliz." Por quê? Porque a consciência da absurdidade nos liberta da ilusão de que há um sentido pronto. Podemos, então, criar nosso próprio sentido – não apesar do absurdo, mas por meio dele. A revolta contra o absurdo – a recusa a se curvar ao niilismo – é, para Camus, o ato mais nobre.
4.3 A Autotranscendência: Viktor Frankl e o Sentido como Tarefa
Frankl ofereceu uma resposta prática: o sentido não está em alguma fórmula universal, mas na tarefa concreta que a vida nos coloca. Ele identificou três vias para encontrar sentido:
Realizar uma obra (criar algo, contribuir para algo).
Vivenciar um encontro (amar alguém, conectar-se com algo maior).
Sofrer com dignidade (transformar uma dor inevitável em uma oportunidade de crescimento).
A resposta à pergunta "por que vivemos?" é, para Frankl: para responder à pergunta que a vida nos faz. E a pergunta é sempre específica: o que você pode fazer hoje, nesta situação, que seja significativo?
4.4 A Individuação: Carl Jung e a Jornada de Tornar-se Quem se é
Carl Jung ofereceu outra perspectiva: o sentido da vida é o processo de individuação – a integração consciente de todas as partes da psique, incluindo a sombra, a persona, a anima/animus, e o Self (o centro da totalidade). A vida é uma jornada de autodescoberta, onde o objetivo não é a perfeição, mas a totalidade.
Jung escreveu: "Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta." O sentido não está nas respostas externas (o que fazer, o que ter), mas na relação com o próprio interior. E essa relação nunca termina; é uma vida inteira de diálogo.
Parte V: A Síntese Prática – Como Escolher o que Convém, Desejar o que Importa e Viver com Sentido
5.1 O Exercício da Pergunta: "O Que a Vida Me Pede Hoje?"
A primeira ferramenta prática é substituir a pergunta abstrata ("qual é o sentido da vida?") pela pergunta concreta ("o que a vida me pede hoje?").
Essa pergunta, inspirada em Frankl, tem o poder de nos ancorar no presente e na ação. Ela nos obriga a considerar:
O que está ao meu alcance?
O que é urgente?
O que está dentro dos meus valores?
Quem depende de mim?
Que oportunidade única este momento me oferece?
5.2 O Diálogo entre Desejo e Conveniência: O Método dos Três Círculos
Uma técnica que utilizo na clínica é o diagrama dos três círculos:
Círculo do que posso – minhas habilidades, recursos, oportunidades.
Círculo do que quero – meus desejos, paixões, aspirações.
Círculo do que convém – o que é eticamente sustentável, alinhado com meus valores, benéfico para mim e para os outros.
A interseção dos três círculos é o lugar da escolha sábia. Passar a vida apenas no círculo do que posso (mas sem querer ou sem convir) é eficiência sem significado. Apenas no círculo do que quero (mas sem poder ou sem convir) é fantasia sem realização. Apenas no círculo do que convém (mas sem poder ou sem querer) é moralismo sem vida. A harmonia está na interseção.
5.3 A Prática do Discernimento: A Pausa como Ferramenta
A decisão consciente exige uma pausa – um momento de silêncio entre o impulso e a ação. É nessa pausa que o córtex pré-frontal pode processar informações, e a amígdala, aquietar-se. É nessa pausa que podemos fazer as perguntas:
Por que estou querendo isso?
De onde vem esse desejo?
É meu ou me foi imposto?
O que essa escolha fará comigo daqui a cinco anos?
O que ela fará com aqueles que amo?
A pausa é a ferramenta fundamental da sabedoria prática (phronesis, de Aristóteles). Ela nos permite distinguir entre o impulso e a escolha, entre a reação e a ação.
5.4 A Aceitação dos Limites: A Liberdade que Liberta
Por fim, e talvez mais importante: aceitar que não podemos tudo – e que essa impossibilidade é, paradoxalmente, libertadora. A onipotência é uma prisão porque exige que sejamos tudo. A finitude é libertadora porque nos permite ser algo – e ser algo é ser autêntico.
Sêneca escreveu: "Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que elas são difíceis." E também: "A vida não é curta; somos nós que a tornamos curta, desperdiçando-a em coisas que não importam."
Aceitar os limites é aceitar a própria humanidade – a capacidade de errar, de aprender, de recomeçar. É aceitar que o sentido da vida não está em escapar dos limites, mas em encontrar significado dentro deles.
Conclusão: O Sentido que se Constrói na Escolha
A resposta à pergunta "tudo posso, mas nem tudo me convém?" não está em nenhum manual, nenhuma lei, nenhuma religião ou filosofia que possa ser simplesmente aplicada. A resposta está na própria escolha. É na ação concreta, no confronto com a realidade, no diálogo com os outros e na reflexão sobre os resultados que vamos construindo, dia após dia, um critério, uma direção, um sentido.
O sentido da vida não é um ponto de chegada; é uma direção de viagem. Não é um tesouro enterrado esperando para ser descoberto; é um caminho que se constrói à medida que se caminha.
E, nesse caminho, a regra não está escrita em lugar nenhum – e está escrita em todos os lugares: nas consequências de nossos atos, na dor que causamos e na alegria que proporcionamos, na coerência entre o que dizemos e o que fazemos, na herança que deixamos para quem virá depois de nós.
Kierkegaard resumiu isso com sua elegância característica: "A vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas deve ser vivida olhando para frente." Não teremos certeza. Não teremos garantias. Mas teremos a liberdade de escolher – e a responsabilidade de responder pelas escolhas que fizermos.
E isso, apesar de tudo, é o que torna a vida digna de ser vivida.
Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert
Ao longo de décadas de clínica, testemunhei o sofrimento que a liberdade sem critérios produz. Pacientes paralisados pela infinidade de opções, buscando desesperadamente um "dever" que os livrasse do fardo de escolher. E, também, testemunhei a alegria serena daqueles que, após muito penar, encontraram seu próprio caminho – não o caminho "certo", mas o caminho deles.
O que todos eles tinham em comum? A coragem de enfrentar a pergunta sem resposta. A disposição de olhar para o abismo – e de, em vez de recuar, construir uma ponte. A humildade de reconhecer que não há um manual, mas a confiança de que, na caminhada, a rota se desenha.
Como Neuropsicanalista, sei que a angústia da escolha tem raízes profundas no sistema límbico e na história de apego. A insegurança na escolha reflete, muitas vezes, uma insegurança mais básica: a de que não somos dignos de escolher bem, de que vamos errar, de que vamos ser julgados. A psicoterapia trabalha para restaurar a confiança em si mesmo – a confiança de que, mesmo errando, a vida continua e o aprendizado permanece.
Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, ofereço ferramentas para desmontar as crenças disfuncionais que aprisionam: "preciso ter certeza", "preciso fazer a escolha perfeita", "se eu errar, serei um fracasso". Essas crenças são o solo fértil da paralisia. A TCC ensina que a incerteza é o habitat natural da vida – e que podemos aprender a conviver com ela.
Como Educador Social, sonho com um mundo onde as crianças aprendam, desde cedo, a arte da escolha. Onde a escola não apenas ofereça informações, mas desafios – situações reais em que a criança precise decidir, errar, corrigir e decidir de novo. Onde a vida seja entendida como uma obra em construção, não como um produto acabado.
Na NeuroPsiOnline, acreditamos que a mudança é possível. Não a mudança que elimina as perguntas, mas a que nos ensina a vivê-las. Não a mudança que nos dá respostas prontas, mas a que nos capacita a construir as nossas próprias.
Se você se sente paralisado pela liberdade, se a pergunta pelo sentido pesa sobre seus ombros, se a dicotomia entre querer e poder o atormenta – saiba que não precisa fazer essa jornada sozinho.
A psicoterapia é o espaço onde a pergunta pode ser feita sem medo. Onde a escolha pode ser ensaiada sem julgamento. Onde a vida, com toda sua incerteza, pode ser abraçada.
Um abraço,
Dr. Adilson Reichert
Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social
NeuroPsiOnline. Onde a mudança acontece.
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Referências
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A validade em si mesmo, é a liberdade do que nunca esteve preso!