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A Prisão de Vidro: Neurose Obsessiva, a Dúvida que Consome e a Vida que se Adia

há 6 dias
16 min de leitura

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Uma Jornada Psico-filosófica pelo Labirinto da Certeza Impossível, pelo Ritual que Aprisiona e pela Liberdade que se Esconde no Caos


Há uma cena que se repete em todos os consultórios do mundo. Um paciente chega, senta-se, e diz: "Doutor, eu não consigo parar de pensar. Minha cabeça é uma máquina que não desliga. Eu reviso cada decisão mil vezes. Eu volto para checar se fechei a porta, se desliguei o gás, se disse a palavra errada. Eu sei que é irracional. Eu sei que é exagero. Mas não consigo parar. E o pior: enquanto eu estou preso nesses rituais, a vida passa. Eu não vivo; eu apenas... existo."


Essa cena, que se repete há mais de um século nos divãs e consultórios, descreve uma das formas mais dolorosas e mais fascinantes do sofrimento humano: a neurose obsessiva. Não é uma simples "mania" ou um "jeito de ser". É uma estrutura psíquica — uma forma de habitar o mundo que transforma a dúvida em tirana, o pensamento em prisão e o tempo em carrasco.


Este artigo é uma travessia por esse labirinto. Com a bússola da psicanálise (Freud, Lacan), da filosofia (Descartes, Kierkegaard), da neurociência (o circuito cortico-estriado-talâmico-cortical) e da psicologia clínica (TCC, ACT), exploraremos:

  • O que é a neurose obsessiva — sua estrutura, seus sintomas, sua lógica interna.

  • O comportamento do obsessivo em relação aos outros — a dúvida sobre o desejo do outro, a ambivalência entre amor e ódio, o controle pela mente.

  • O comportamento do obsessivo em relação à própria vida — a procrastinação, a ruminação, o sacrifício do presente em nome de um futuro que nunca chega.

  • As raízes da neurose obsessiva — o que Freud descobriu, o que Lacan aprofundou, o que a neurociência confirma.

  • As curiosidades — o Homem dos Ratos, a relação com a religião, a filosofia como sintoma.

  • Os caminhos de saída — como a terapia pode ajudar a quebrar o ciclo.


Parte I: O Que é a Neurose Obsessiva? A Estrutura da Dúvida


1.1 A Descoberta de Freud: O Nome e a Coisa


Sigmund Freud, no final do século XIX, descreveu uma síndrome que ele chamou de neurose obsessiva (Zwangsneurose) — também traduzida como "neurose compulsiva". Os pacientes que chegavam ao seu consultório apresentavam um quadro peculiar: eram atormentados por pensamentos intrusivos (obsessões) e compelidos a realizar rituais (compulsões) que visavam neutralizar a angústia gerada por esses pensamentos.


Freud percebeu que a neurose obsessiva não era uma simples "doença do pensamento"; era uma estrutura clínica — uma forma específica de organização psíquica, tão distinta da histeria quanto a histeria o era da psicose. Ele a descreveu como uma "linguagem privada" — um sistema de significados que só fazia sentido para o próprio sujeito.


No caso mais famoso de sua obra — o "Homem dos Ratos" (Rat Man) —, Freud analisou um jovem que era atormentado por uma obsessão: a fantasia de que seus pais seriam submetidos a um suplício envolvendo ratos. O que Freud descobriu é que por trás dessa fantasia aparentemente absurda havia uma rede de significados inconscientes — culpa, ambivalência, desejo de morte, amor. A obsessão era, na verdade, uma formação de compromisso: expressava, de forma disfarçada, o que não podia ser dito diretamente.


1.2 A Topografia da Dúvida: Lacan e o Obsessivo


Jacques Lacan, o mais influente psicanalista francês depois de Freud, radicalizou a compreensão da neurose obsessiva. Para ele, o obsessivo é aquele que se pergunta incessantemente: "O que o Outro quer de mim?" — mas nunca encontra uma resposta satisfatória.


Essa pergunta — Che vuoi? — é a pergunta fundamental do obsessivo. Ele passa a vida tentando decifrar o desejo do outro, mas o outro é opaco, inescrutável. E, quanto mais tenta decifrar, mais se enreda em dúvidas. O obsessivo é o escravo da dúvida — não porque não saiba, mas porque nunca pode ter certeza.

Lacan distinguiu a neurose obsessiva da histeria de forma precisa:

  • O histérico pergunta: "O que sou eu para o Outro?" — e sua angústia está ligada ao desejo do outro.

  • O obsessivo pergunta: "O que o Outro quer de mim?" — e sua angústia está ligada ao desejo do outro como ameaça.


O obsessivo, para Lacan, é aquele que transforma o desejo em demanda — ele quer que o outro lhe diga exatamente o que fazer, para não ter que assumir a responsabilidade de seu próprio desejo. E, como o outro nunca responde de forma satisfatória, ele se refugia na dúvida — que é, paradoxalmente, sua forma de gozo.


1.3 A Neurose Obsessiva na Neurociência: O Circuito que se Trava


A neurociência contemporânea mapeou o que acontece no cérebro do obsessivo. O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) — a versão clínica mais grave da neurose obsessiva — está associado a uma hiperatividade do circuito cortico-estriado-talâmico-cortical (CSTC). Esse circuito, que conecta o córtex pré-frontal (planejamento), o estriado (hábitos), o tálamo (revezamento sensorial) e o córtex cingulado (detecção de erros), fica preso em um loop.


O resultado é que o cérebro do obsessivo não consegue "desligar" o alarme. Ele detecta erros onde não há erros, perigo onde não há perigo, sujeira onde não há sujeira. A amígdala — o centro do medo — permanece hiperativa. E o córtex pré-frontal — a sede da razão — não consegue inibir o circuito. É como se o freio estivesse quebrado.


A neurociência também mostra que o obsessivo tem dificuldade de inibir respostas automáticas — ele não consegue "deixar passar". Cada pensamento, cada impulso, cada imagem exige uma resposta. E, como nenhuma resposta é suficiente, o ciclo se perpetua.


Parte II: O Comportamento em Relação aos Outros — A Tirania da Dúvida


2.1 A Ambivalência Fundamental: Amor e Ódio no Mesmo Coração


Freud observou que a neurose obsessiva é marcada por uma ambivalência radical: o obsessivo ama e odeia a mesma pessoa, no mesmo momento, com a mesma intensidade. Essa ambivalência — que Freud associou à fase anal do desenvolvimento psicossexual — é a raiz de muitos dos sintomas obsessivos.


O obsessivo que ama sua mãe é atormentado por pensamentos de que ela vai morrer. O obsessivo que ama sua esposa é torturado pela fantasia de que ela o trai. O obsessivo que ama seu filho é consumido pelo medo de que algo terrível aconteça com ele. O ódio — que não pode ser reconhecido — retorna como obsessão.


Melanie Klein aprofundou essa compreensão ao descrever a posição depressiva — o momento em que a criança percebe que ama e odeia a mesma pessoa. O obsessivo, para Klein, está preso em uma tentativa de reparação que nunca se completa: ele tenta, através de rituais e pensamentos, desfazer o dano que seu ódio (fantasiado) causou. Mas o dano é fantasiado — e, portanto, irreparável.


2.2 A Dúvida sobre o Desejo do Outro: O Obsessivo e o Espelho


O obsessivo vive em um estado de vigilância constante em relação ao desejo do outro. Ele não sabe o que o outro quer — e, por não saber, tenta controlar o outro. Ele quer que o outro lhe diga o que fazer, o que sentir, o que desejar. E, quando o outro não responde, ele se frustra — e a frustração alimenta a dúvida, que alimenta a obsessão.


Lacan descreveu o obsessivo como aquele que transforma o outro em um espelho — ele quer que o outro lhe devolva uma imagem de si mesmo. Mas o espelho é opaco. O outro não é um espelho; é um abismo. E o obsessivo, diante do abismo, recua — e se refugia na dúvida.

O comportamento do obsessivo em relação aos outros é, portanto, marcado por:

  • Controle: ele quer controlar o desejo do outro, para não ter que lidar com a incerteza.

  • Submissão: ele se submete ao desejo do outro, para não ter que assumir o próprio desejo.

  • Distanciamento: ele se afasta do outro, para não ser invadido por um desejo que não compreende.

  • Ritualização: ele transforma a relação em um ritual — um conjunto de regras que devem ser seguidas para que a angústia não o domine.


2.3 A Curiosidade do "Obsessivo e a Religião"


Freud, em Atos Obsessivos e Práticas Religiosas (1907), fez uma comparação ousada: a neurose obsessiva é uma "religião privada" — e a religião é uma "neurose obsessiva universal".


Freud observou que os rituais religiosos — as rezas, as purificações, os sacrifícios — compartilham com os rituais obsessivos a mesma estrutura: a tentativa de neutralizar a culpa e a angústia através da repetição de atos simbólicos. O fiel que reza cinco vezes por dia, que se purifica antes de entrar no templo, que faz oferendas para aplacar a ira divina — não é tão diferente do obsessivo que lava as mãos cinco vezes, que verifica a porta três vezes, que faz rituais para aplacar a ira de um superego tirânico.


A diferença, para Freud, é que a religião é coletiva e sancionada pela cultura, enquanto a neurose obsessiva é privada e vivida como sintoma. Mas a estrutura psíquica subjacente é a mesma: a busca de certeza, a tentativa de controlar o incontrolável, a submissão a uma lei internalizada.


2.4 A Curiosidade do "Homem dos Ratos"


O caso do Homem dos Ratos (Rat Man) é um dos mais fascinantes da história da psicanálise. Freud descreveu um jovem advogado que era atormentado por uma obsessão: a fantasia de que seu pai e sua amada seriam submetidos a um suplício envolvendo ratos.

O que Freud descobriu é que essa fantasia — aparentemente absurda — era uma formação de compromisso que condensava múltiplos significados:

  • Culpa por ter desejado a morte do pai (que já havia morrido).

  • Amor pelo pai (que retornava como preocupação).

  • Ódio pelo pai (que retornava como fantasia sádica).

  • Desejo pela amada (que retornava como medo de perdê-la).


A análise do Homem dos Ratos revelou que a neurose obsessiva é uma tentativa de resolver um conflito inconsciente — um conflito entre o amor e o ódio, entre o desejo e a proibição, entre o eu e o superego. E que essa tentativa, por mais dolorosa que seja, é também uma forma de gozo — um gozo que se esconde atrás da dor.


Parte III: O Comportamento em Relação à Própria Vida — A Vida Adiada


3.1 A Procrastinação como Sintoma: O Presente Sacrificado


O obsessivo é o mestre da procrastinação. Não porque seja preguiçoso — pelo contrário, ele é frequentemente hiperativo —, mas porque nunca está pronto. Ele precisa revisar mais uma vez, verificar mais uma vez, pensar mais uma vez. E, enquanto pensa, o tempo passa. A vida escorre entre os dedos.


Sêneca, em Sobre a Brevidade da Vida, escreveu: "Não é que tenhamos pouco tempo, mas que perdemos muito." O obsessivo é a personificação dessa sentença. Ele perde o presente preocupando-se com o futuro — e o futuro, quando chega, já não é futuro; é um novo presente que ele também perde.


A procrastinação obsessiva não é uma escolha; é um sintoma. É a expressão de uma dúvida radical sobre a própria capacidade de agir, de decidir, de estar à altura. O obsessivo duvida de si mesmo — e a dúvida é o seu cárcere.


3.2 A Ruminação: O Pensamento que se Torna Prisão


O obsessivo não apenas pensa; ele rumina. A ruminação é um pensamento circular, que retorna sempre ao mesmo ponto, sem nunca chegar a lugar nenhum. É como um disco arranhado — a mesma nota, repetida infinitamente.

A ruminação obsessiva é marcada por:

  • Pensamentos intrusivos: imagens, palavras, impulsos que surgem sem aviso e não podem ser controlados.

  • Dúvida persistente: "E se eu tiver feito algo errado? E se eu não tiver percebido? E se..."

  • Necessidade de certeza: a busca de uma garantia que nunca chega.

  • Autocrítica implacável: a voz interna que condena cada pensamento, cada ação, cada desejo.


Kierkegaard descreveu a angústia como a vertigem da liberdade — o reconhecimento de que somos responsáveis por nossas escolhas e de que nenhuma garantia externa nos salvará. O obsessivo é aquele que não suporta a vertigem — e, para não cair, se agarra à dúvida, que é a sua forma de não escolher.


3.3 O Ritual como Tentativa de Salvação


O ritual obsessivo — a compulsão — é uma tentativa desesperada de salvação. O obsessivo acredita que, se realizar o ritual, a angústia desaparecerá. Se lavar as mãos, ficará limpo. Se verificar a porta, estará seguro. Se rezar, será perdoado.


Mas o ritual nunca é suficiente. Ele alivia a angústia por um momento — e, em seguida, ela retorna, mais forte. O obsessivo é como Sísifo — condenado a rolar a pedra montanha acima, vê-la cair, e rolar de novo. Camus imaginou Sísifo feliz; o obsessivo não pode nem imaginar a felicidade.


O ritual é, portanto, uma solução que não resolve. Ele é a expressão da ambivalência — o desejo de fazer e o desejo de não fazer, o amor e o ódio, a vida e a morte. E, como toda solução ambivalente, ele é autodestrutivo.


3.4 A Curiosidade do "Obsessivo e o Tempo"


O obsessivo tem uma relação peculiar com o tempo. Ele vive no futuro — mas um futuro que nunca chega. Ele planeja, organiza, prevê — mas não vive. O presente é sempre provisório, incompleto, insuficiente.


Santo Agostinho, em suas Confissões, escreveu: "O que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicar, não sei." O obsessivo sabe o que é o tempo — mas não sabe habitá-lo. Ele é um estrangeiro no presente, um turista no agora.


A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) chama isso de "dominância do passado e do futuro conceituais" — a tendência a viver em uma realidade mental que não é o aqui e agora. O obsessivo é o prisioneiro do tempo — não porque o tempo o aprisione, mas porque ele não consegue soltar.


Parte IV: As Raízes da Neurose Obsessiva — O Que a Psicanálise e a Neurociência Revelam


4.1 A Fase Anal e o Controle: Freud e a Origem da Ambivalência


Freud associou a neurose obsessiva à fase anal do desenvolvimento psicossexual — o período em que a criança aprende a controlar os esfíncteres e, com isso, experimenta pela primeira vez o poder de controlar algo (o próprio corpo) e a obrigação de corresponder às expectativas dos pais (o treinamento de higiene).


O obsessivo, para Freud, é aquele que ficou preso nessa fase — que não conseguiu resolver o conflito entre o desejo de controlar e a necessidade de se submeter. Ele quer controlar — mas tem medo de controlar. Ele quer se submeter — mas se ressente da submissão. E, entre o controle e a submissão, ele se refugia na dúvida.


4.2 O Superego Tirânico: A Voz que Condena


Freud descreveu o superego como a instância psíquica que internaliza as proibições parentais. Na neurose obsessiva, o superego é particularmente severo — uma voz que condena cada pensamento, cada desejo, cada ação. O obsessivo vive sob o terror de um superego que nunca se satisfaz.


Lacan radicalizou essa compreensão ao afirmar que o superego do obsessivo é mais cruel que o de qualquer outro sujeito. Ele não apenas proíbe; ele exige — e exige o impossível. O obsessivo é aquele que nunca está à altura de seu próprio ideal — e que, por isso, se pune incessantemente.


4.3 A Neurociência do Controle: O Córtex Pré-Frontal Hiperativo


A neurociência contemporânea confirma a intuição psicanalítica: o cérebro do obsessivo é hiperativo em regiões associadas ao controle e à detecção de erros. O córtex pré-frontal dorsolateral — a sede do planejamento e da inibição — está hiperativado. O córtex cingulado anterior — a sede da detecção de conflitos — está hiperativado. E o estriado — a sede dos hábitos — está preso em um loop.


O resultado é um cérebro que não consegue parar de verificar. Ele detecta erros onde não há erros, perigo onde não há perigo, sujeira onde não há sujeira. É como um alarme que não desliga — e que consome toda a energia do organismo.


4.4 A Curiosidade da "Dúvida de Descartes"


René Descartes, o pai da filosofia moderna, começou sua jornada filosófica com uma dúvida radical: ele duvidou de tudo — dos sentidos, do mundo, de Deus — para encontrar uma certeza indubitável. E encontrou: Cogito, ergo sum ("Penso, logo existo").


O obsessivo é um Descartes que não chegou ao Cogito. Ele duvida de tudo — mas não encontra a certeza. Ele pensa — mas não encontra o "eu". Ele busca — mas não encontra o fundamento. A neurose obsessiva é, em certo sentido, uma filosofia que se tornou sintoma — uma dúvida que se tornou prisão.


Kierkegaard escreveu: "A dúvida é o começo da sabedoria." O obsessivo duvida — mas sua dúvida não o leva à sabedoria; leva-o ao desespero. A diferença entre o filósofo e o obsessivo não está na dúvida — está na relação com a dúvida. O filósofo habita a dúvida; o obsessivo é habitado por ela.


Parte V: O Tratamento — Como Sair da Prisão de Vidro


5.1 A Psicanálise: Decifrar o Sintoma


A psicanálise, desde Freud, propõe que o sintoma obsessivo é uma mensagem cifrada — uma linguagem que expressa, de forma disfarçada, um conflito inconsciente. O tratamento analítico visa decifrar essa mensagem — trazer à consciência o que está recalcado, elaborar a ambivalência, integrar o ódio e o amor.


O analista, nessa perspectiva, não é um instrutor que ensina o paciente a "pensar positivo"; é um tradutor que ajuda o paciente a compreender a linguagem de seu próprio inconsciente.


5.2 A TCC: Exposição e Prevenção de Resposta


A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) desenvolveu protocolos altamente eficazes para o tratamento do TOC e da neurose obsessiva. O principal é a Exposição e Prevenção de Resposta (EPR) : o paciente é exposto ao estímulo que gera a obsessão (tocar em uma maçaneta, por exemplo) e é instruído a não realizar a compulsão (não lavar as mãos). Com o tempo, o cérebro aprende que a angústia diminui sozinha — sem necessidade do ritual.


A TCC também trabalha a reestruturação cognitiva: ajudar o paciente a questionar as crenças disfuncionais que alimentam a obsessão ("se eu não verificar, algo terrível vai acontecer"). A pergunta central é: "Qual a probabilidade real de isso acontecer? Que evidências você tem?"


5.3 A ACT: Aceitação e Compromisso


A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) propõe uma abordagem diferente: em vez de lutar contra os pensamentos obsessivos, o paciente aprende a aceitá-los — a deixá-los ir e vir, sem se identificar com eles. A metáfora é a do "ônibus": os pensamentos são passageiros que sobem e descem; o paciente é o motorista, que escolhe para onde dirigir.


A ACT ensina que a luta contra os pensamentos obsessivos os fortalece — e que a aceitação os enfraquece. O objetivo não é eliminar a obsessão; é mudar a relação com ela.


5.4 A Neurociência da Mudança: Neuroplasticidade e Esperança


A neurociência contemporânea mostra que o cérebro do obsessivo pode mudar. A neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de se reorganizar — permite que novos circuitos sejam formados e que os antigos sejam enfraquecidos. A medicação (ISRS) pode ajudar a regular os neurotransmissores; a psicoterapia pode ajudar a reestruturar os circuitos; a meditação pode ajudar a regular a amígdala.


A mudança não é rápida. Não é fácil. Mas é possível. E a esperança — como escreveu Viktor Frankl — é o que nos permite suportar o insuportável.

Conclusão: A Liberdade que se Esconde no Caos


A neurose obsessiva é uma prisão de vidro — uma prisão que o próprio obsessivo construiu, mas da qual não consegue sair. Ele vê o mundo lá fora — a vida que passa, as pessoas que vivem, o tempo que escorre — mas não consegue atravessar o vidro. Ele está preso em seus pensamentos, seus rituais, suas dúvidas.


Mas a prisão de vidro tem uma característica peculiar: ela é transparente. O obsessivo vê a liberdade — ele sabe que ela existe —, mas não sabe como alcançá-la. E é precisamente essa consciência que o torna capaz de mudar. O obsessivo não é um alienado; é um prisioneiro consciente — e a consciência é o primeiro passo para a libertação.


Como escreveu Sartre: "O homem está condenado a ser livre." O obsessivo é aquele que recusa essa condenação — que tenta, através da dúvida e do ritual, escapar da liberdade. Mas a liberdade não é uma maldição; é uma possibilidade. E, quando o obsessivo finalmente a abraça — quando aceita a incerteza, quando tolera a dúvida, quando se permite viver —, ele descobre que a prisão de vidro tinha uma porta. E que a porta sempre esteve aberta.


Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert


Ao longo de décadas de clínica, testemunhei o sofrimento daqueles que são prisioneiros de seus próprios pensamentos. Pacientes que passam horas verificando a porta, que não conseguem sair de casa sem revisar o gás, que são atormentados por imagens que não pediram. Eles chegam exaustos, humilhados, convencidos de que são "loucos" ou "fracos". E eu lhes digo: vocês não são loucos. Vocês não são fracos. Vocês são prisioneiros de uma estrutura — uma estrutura que pode ser compreendida e transformada.


O que todos esses pacientes aprenderam — e o que a psicanálise, a TCC e a neurociência nos ensinam — é que a neurose obsessiva não é uma sentença. Ela é uma forma de sofrimento — e, como todo sofrimento, pode ser elaborada. A dúvida pode se tornar curiosidade; o ritual, arte; a obsessão, criatividade. O obsessivo é aquele que pensa demais — e o mundo precisa de pessoas que pensam. O desafio não é parar de pensar; é aprender a habitar o pensamento sem ser dominado por ele.


Como Neuropsicanalista, sei que a neurose obsessiva tem raízes profundas no inconsciente — na ambivalência, no superego tirânico, na dúvida sobre o desejo do outro. Mas sei também que o inconsciente pode ser conhecido, e que o conhecido, uma vez nomeado, pode ser transformado.


Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, ofereço ferramentas para que meus pacientes possam questionar as crenças que alimentam a obsessão — "se eu não verificar, algo terrível vai acontecer", "se eu não pensar nisso, sou uma pessoa má", "se eu não tiver certeza, não posso agir". Essas crenças podem ser desmontadas, e novas crenças — mais realistas e mais libertadoras — podem ser construídas.


Como Educador Social, sonho com um mundo onde as pessoas aprendam, desde cedo, que a dúvida não é uma fraqueza — é uma porta para a sabedoria. Onde a escola ensine não apenas a ter certezas, mas a habitar a incerteza. Onde a vida seja vivida — não adiada.


Na NeuroPsiOnline, acreditamos que a mudança é possível. Não a mudança que elimina a dúvida (isso seria ilusório), mas a que nos ensina a conviver com ela — sem que ela nos domine.


Se você sente que sua mente é uma prisão — que os pensamentos não param, que a dúvida consome, que a vida passa enquanto você verifica —, saiba que não precisa carregar esse peso sozinho.


A psicoterapia é o espaço onde a dúvida pode ser nomeada, onde o ritual pode ser compreendido, onde a liberdade pode, finalmente, ser alcançada.

Um abraço,


Dr. Adilson Reichert

Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social


NeuroPsiOnline. Onde a mudança acontece.


(CTA – Call to Action)

Você sente que sua mente não para? Que os pensamentos se repetem como um disco arranhado? Que a dúvida consome suas decisões e os rituais consomem seu tempo? Que a vida está passando enquanto você verifica, revisa, pensa mais uma vez?


A neurose obsessiva não é uma sentença. É uma prisão que pode ser aberta.


Na NeuroPsiOnline, oferecemos uma abordagem integrativa que une a profundidade da psicanálise, a precisão da Terapia Cognitivo-Comportamental e a sabedoria da Terapia de Aceitação e Compromisso para ajudá-lo a:

  • Compreender a estrutura da neurose obsessiva — sem julgamento, sem culpa.

  • Identificar os padrões de dúvida e ritual que o mantêm prisioneiro.

  • Desenvolver ferramentas para lidar com a angústia sem recorrer à compulsão.

  • Reconstruir uma vida onde a dúvida não seja tirana, mas apenas... humana.

  • Psicoterapia integrada para adultos (neuropsicanálise + TCC + ACT)

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Referências

CAMUS, A. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2017.

DESCARTES, R. Meditações sobre Filosofia Primeira. Campinas: Editora da Unicamp, 2004.

FRANKL, V. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.

FREUD, S. "Atos Obsessivos e Práticas Religiosas" (1907). In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, S. "Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva" (1909). In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, S. "Inibições, Sintomas e Ansiedade" (1926). In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

KLEIN, M. Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

KIERKEGAARD, S. O Conceito de Angústia. Petrópolis: Vozes, 2010.

LACAN, J. O Seminário, Livro 5: As Formações do Inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

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SÊNECA. Sobre a Brevidade da Vida. São Paulo: Editora 34, 2014.

SARTRE, J-P. O Ser e o Nada. Petrópolis: Vozes, 1997.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 2002.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). Porto Alegre: Artmed, 2023.

HAYES, S. C. & SMITH, S. Get Out of Your Mind and Into Your Life. Oakland: New Harbinger, 2005.

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