Sándor Ferenczi: O Apóstolo Proibido do Trauma, a Elasticidade do Cuidado e a Clínica da Honestidade Radical
- Dr° Adilson Reichert

- 28 de mai.
- 14 min de leitura
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Uma Jornada pelo Subterrâneo da Psicanálise: O Que a Ortodoxia Tentou Enterrar, Mas o Sofrimento Humano Insiste em Desenterrar
Há corpos teóricos que envelhecem como vinho: aprimoram-se na adega do tempo. Há outros que são enterrados vivos por heresia, apenas para ressurgirem séculos depois como fantasmas que assombram a ortodoxia com sua verdade incômoda. Sándor Ferenczi (1873–1933) pertence a esta segunda espécie. Ele foi o mais querido dos discípulos de Freud, o irmão mais criativo, o experimentador audacioso que ousou amar seus pacientes demasiado — ou, como ele próprio diria, que ousou escutá-los com uma honestidade que a teoria não podia suportar.
Quando Freud leu o rascunho de Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança, a apresentação que Ferenczi faria no Congresso de Wiesbaden em 1932, sentiu-se traído. Ali, Ferenczi afirmava sem rodeios: a histeria e a fragmentação psíquica não nascem de fantasias incestuosas recalcadas, mas de violências reais cometidas por adultos contra crianças — e, pior, da mentira sistemática com que o adulto encobre o abuso, forçando a criança a duvidar da sua própria percepção da realidade. Para Ferenczi, o trauma não é apenas um evento; é a confusão entre a linguagem da ternura (a criança) e a linguagem da paixão (o agressor). E o preço dessa confusão é a cisão da alma.
Este artigo é uma travessia pela obra incendiária de Sándor Ferenczi — o psicanalista que pagou com o ostracismo o preço de ter razão. Veremos como seus conceitos de identificação com o agressor, elasticidade da técnica, tato psicológico, análise mútua e neocatarse anteciparam em décadas as descobertas da neuropsicanálise, da terapia cognitivo-comportamental focada no trauma e da educação social. Veremos como Ferenczi, ao insistir que a cura passa pela validação honesta do sofrimento real do paciente, construiu a ponte que faltava entre a psicanálise clássica e as psicoterapias relacionais contemporâneas.
E, sobretudo, perguntaremos: como aplicar hoje a clínica ferencziana — com sua elasticidade, sua humildade, sua recusa em mentir para o paciente em nome de uma falsa neutralidade — no tratamento da depressão, da ansiedade, dos transtornos de personalidade e dos traumas de abuso que silenciosamente corroem a saúde mental contemporânea?
Parte I: O Contexto — O Homem que Amava Demais os Pacientes
1.1 O Discípulo Predileto que se Tornou Herege
Ferenczi conheceu Freud em 1908. Encantou-o imediatamente. Durante anos, foi o confidente, o companheiro de viagens, o membro do "Comitê Secreto" que protegia os segredos do movimento psicanalítico. Mas, diferentemente de outros discípulos que se contentavam em aplicar o dogma, Ferenczi tinha um compromisso mais profundo com a realidade clínica do que com a ortodoxia.
Sua viragem começou quando atendeu Elisabeth Severn (caso "R.N.") e Clara Thompson — pacientes cujos relatos de abuso sexual infantil eram tão vívidos, tão consistentes e tão corroborados por informações familiares que Ferenczi não pôde fazer o que Freud fizera: recuar e reinterpretar como fantasia. Ele acreditou nelas. E essa crença — esse ato de confiança no sofrimento real do paciente — foi seu pecado original diante do panteão vienense.
Em seu Diário Clínico (publicado postumamente em 1985), Ferenczi registra com amargura: "Os pacientes não se curam com interpretações. Curam-se quando encontram, pela primeira vez, um objeto que não mente para eles."
1.2 A Ruptura com Freud: A Política do Silêncio
A relação se deteriorou irremediavelmente após o Congresso de Wiesbaden (1932). Freud escreveu a Ferenczi uma carta famosa, onde acusava o discípulo de ter recuído às "técnicas selvagens" dos primórdios da psicanálise, quando se confundia afeto com técnica. Nas entrelinhas, a acusação era mais grave: Ferenczi estava a "beijar" os pacientes — metáfora para uma intimidade que a ortodoxia julgava perigosa e anti-terapêutica.
Ferenczi respondeu com dignidade: não se tratava de beijar, mas de validar. Tratava-se de reconhecer que o paciente traumatizado precisa, antes de qualquer interpretação, de um testemunho — alguém que diga: "O que aconteceu com você foi real, não foi sua culpa, e eu não vou desmentir a sua dor."
Freud não aceitou. O divã onde outrora dividiam confidências tornou-se um campo de batalha teórico disfarçado de afeto. Ferenczi morreu em 1933, possivelmente de anemia perniciosa, mas os biógrafos especulam que o ostracismo acelerou seu declínio. A psicanálise oficial enterrou suas ideias por décadas.
Parte II: O Núcleo Teórico — Os Conceitos que Anteciparam o Futuro
2.1 A "Confusão de Línguas": O Trauma como Desmentido
O conceito central de Ferenczi, apresentado em seu derradeiro trabalho (1932), é tão simples quanto devastador. Cito de memória, com a liberdade de quem o reencenou na clínica: "Quando uma criança busca ternura e encontra paixão sexual, duas linguagens se chocam. A criança não entende. Para não perder o amor do adulto, ela se identifica com o agressor — introjeta a culpa e a mentira dele."
Este é o mecanismo original da cisão traumática:
A linguagem da ternura → a criança busca afeto, cuidado, proteção.
A linguagem da paixão → o adulto impõe desejo, controle, violência.
A confusão → a criança não consegue nomear o que aconteceu, porque o adulto insiste: "Isso é amor. Você gostou. Você pediu."
A identificação com o agressor → a criança internaliza a voz do adulto que a culpa e mente. Uma parte de si torna-se o algoz.
Ferenczi descreveu este processo como a introjeção da culpa do adulto pela criança. O resultado é uma personalidade cindida: um self que ainda busca ternura, e outro que a agride com a voz do agressor internalizado.
2.2 Identificação com o Agressor: O Mecanismo de Sobrevivência que se Torna Prisão
Diferentemente do que Anna Freud chamaria de "identificação com o agressor" (como defesa contra uma ameaça externa iminente), Ferenczi descreveu uma estrutura muito mais profunda e duradoura. Trata-se de uma regressão traumática onde o ego se fragmenta para não ser aniquilado. Como escreveu no Diário Clínico:
"A personalidade despedaça-se. Uma parte mantém a ternura e a capacidade de sofrer; a outra torna-se onisciente, onipotente, cruel — exatamente como o agressor."
Este "guru interno" — a parte que se identifica com o algoz — sussurra ao paciente, adulto, frases como: "Você mereceu. Você está exagerando. Se você não fosse tão sensível, nada disso teria acontecido."
O paciente que ouve essa voz não está louco. Está fiel. Fiel ao seu próprio mecanismo de sobrevivência. E é esta fidelidade que a psicoterapia precisa, antes de tudo, honrar — para depois, gentilmente, desmontar.
2.3 A Orfandade Epistemológica: Quando a Realidade é Desmentida
Ferenczi introduziu um conceito esquecido pela psicanálise posterior: o desmentido (Verneinung no sentido de negação da realidade, não no sentido freudiano de mecanismo de defesa). O adulto abusivo não apenas agride; ele mente sobre a agressão. Ele diz: "Isso não aconteceu. Você está imaginando coisas. Você é doente por pensar assim."
A criança, que depende do adulto para sua própria definição do real, internaliza essa mentira. Ela não pode acreditar em seus próprios sentidos, porque o adulto, que deveria ser a garantia da verdade do mundo, a desautoriza.
Ferenczi chamou isso de "desmentido do trauma" — e mostrou que o dano mais profundo não está na violência em si, mas na impossibilidade de testemunhar a violência. O paciente cresce com uma sensação vaga de que algo terrível aconteceu, mas não tem permissão para saber o quê. O sintoma é o substituto da memória banida.
Parte III: A Técnica Ferencziana — O Que o Divã Pode Aprender com o Herege
3.1 Elasticidade da Técnica: A Recusa da Neutralidade Fria
Ferenczi percebeu que o paciente traumatizado não suporta a neutralidade clássica. Para quem foi desmentido durante anos, o silêncio do analista ecoa o silêncio do agressor. A "abstinência" freudiana, quando aplicada de forma rígida, reproduz a indiferença parental.
Por isso, Ferenczi propôs a elasticidade: o analista deve ceder às pressões do paciente quando isso serve à verdade do tratamento, mas sem se perder na contratransferência. "Ceder" não significa satisfazer os desejos do paciente, mas reconhecer sua realidade psíquica com uma resposta autêntica.
Aplicação contemporânea: na TCC focada no trauma, a elasticidade ferencziana se traduz na capacidade de alternar entre psicoeducação (que estrutura), validação emocional (que acolhe) e exposição gradual (que desafia). O terapeuta não é um robô que aplica um protocolo; é um ser humano que sente o momento certo de apertar e o momento certo de afrouxar.
3.2 Tato Psicológico: A Inteligência da Relação
"Tato" — palavra que Ferenczi usou como nenhum outro psicanalista. Tato é a capacidade de dizer a verdade sem ferir, de interpretar sem invadir, de silenciar sem abandonar. É a sensibilidade clínica que nenhum manual pode ensinar.
Ferenczi escreveu: "O médico que não tem tato não deve praticar a psicanálise. Ele fará mais mal do que bem." O tato é o antídoto contra a arrogância interpretativa. É o que permite ao analista reconhecer: "Agora não é o momento de interpretar o complexo de Édipo. Agora é o momento de dizer: 'Eu acredito em você.'"
Na neuropsicanálise contemporânea, o tato ferencziano pode ser correlacionado à regulação emocional intersubjetiva: a capacidade do terapeuta de modular sua própria ativação autonômica (frequência cardíaca, tônus vagal) para servir de "contenção externa" ao paciente desregulado.
3.3 Técnica Ativa: Quando Esperar Não Basta
Nos casos de estagnação crônica, Ferenczi introduziu uma intervenção controversa: a técnica ativa. Em vez de esperar que o material emergisse espontaneamente na associação livre, ele dava tarefas ao paciente. Exemplos:
Proibir certas condutas (masturbação, rituais neuróticos) para que a frustração trouxesse o conflito à tona.
Repetir ativamente situações fóbicas (precursora da exposição cognitivo-comportamental).
Assumir posturas corporais que evocassem afetos recalcados.
A técnica ativa foi duramente criticada por Freud como "manipulação selvagem". Mas, lida hoje, percebe-se que Ferenczi antecipou a noção de experimento comportamental da TCC. Ele sabia que a associação livre não funciona quando o paciente está tão dissociado que não consegue acessar o próprio mundo interno. Às vezes, é preciso agir para que o recalque se mova.
3.4 Análise Mútua: O Escândalo da Horizontalidade
O experimento mais radical de Ferenczi, realizado em 1932 com Elisabeth Severn, foi a análise mútua. Cansado do impasse, ele propôs que a paciente também o analisasse — que lhe dissesse o que via de inconsciente em seu comportamento. Ferenczi acreditava que o analista não é um "sujeito suposto saber", mas um ser humano falível cujas próprias neuroses afetam o tratamento.
Hoje, sabemos que Ferenczi levou esta técnica longe demais — a ponto de confundir papéis e limites. Ele mesmo reconheceu, em registros privados, que a análise mútua foi "um recurso usado na falta de coisa melhor" e que não deveria ser adotada como método regular.
No entanto, o princípio da análise mútua — a ideia de que o terapeuta deve ser honesto sobre seus próprios limites e disposto a receber feedback sincero do paciente — foi resgatado pelas psicoterapias relacionais contemporâneas. Não se trata de inverter o setting, mas de abandonar a falsa assimetria onde o terapeuta é um oráculo que tudo sabe.
3.5 Neocatarse e Princípio do Relaxamento: A Cura pela Validação
Nos últimos anos de vida, Ferenczi desenvolveu o que chamou de neocatarse ou princípio do relaxamento. Em contraste com a técnica ativa (que aumentava a tensão), a neocatarse relaxava o paciente para que as memórias traumáticas pudessem emergir com menos defesas.
A inovação de Ferenczi foi perceber que o paciente traumatizado não precisa de mais excitação — ele já está hiperexcitado. Ele precisa de um ambiente que lhe permita regredir sem ser punido, para que possa, finalmente, chorar a dor que nunca pode chorar.
Hoje, a neocatarse ferencziana dialoga diretamente com as terapias sensório-motoras e somatic experiencing de Peter Levine. O trauma está no corpo — e a cura exige que o corpo, em segurança, possa descarregar a ativação congelada.
Parte IV: Ferenczi Diálogo com a Neuropsicanálise, a TCC e a Educação Social
4.1 Neuropsicanálise: O Cérebro Cindido e a Elasticidade Neural
Antonio Damásio, Mark Solms e os neuropsicanalistas contemporâneos demonstraram que o trauma crônico altera a arquitetura funcional do cérebro:
Hiperatividade da amígdala → resposta exagerada ao medo.
Hipoatividade do córtex pré-frontal dorsolateral → déficit na regulação emocional e na flexibilidade cognitiva.
Fragmentação da rede de modo padrão → perda da narrativa autobiográfica coerente.
O que Ferenczi descreveu como cisão do self e identificação com o agressor corresponde, no nível neural, a uma dissociação entre subsistemas de memória — a memória implícita (corporal, emocional) que guarda o trauma, e a memória explícita (narrativa) que foi desmentida e não pode ser acessada.
A elasticidade ferencziana tem, portanto, um correlato neurobiológico: a capacidade do cérebro de alternar entre modos de processamento (alertado vs. relaxado, analítico vs. emocional) sem entrar em colapso. A psicoterapia bem-sucedida restaura essa elasticidade.
4.2 TCC e Terapia do Esquema: O Reconhecimento Tardio de um Ancestral
A Terapia Cognitivo-Comportamental, sobretudo em suas terceiras ondas (Terapia do Esquema, Terapia focada no trauma), redescobriu Ferenczi sem saber:
Esquema de desconfiança/abuso → corresponde à introjeção da mentira do agressor.
Esquema de privação emocional → corresponde à fome de ternura não satisfeita.
Modo "pai punitivo" → corresponde à identificação com o agressor internalizado.
Os experimentos comportamentais da TCC, que testam crenças disfuncionais na prática, são herdeiros da técnica ativa ferencziana. E o conceito de validação empática como pré-condição para a reestruturação cognitiva é uma aplicação direta do tato psicológico.
O que a TCC pode aprender explicitamente com Ferenczi, hoje, é a importância de nomear o desmentido. Antes de reestruturar a crença "Eu mereço ser maltratado", é preciso dizer ao paciente: "Alguém te fez acreditar nisso. Mas isso é uma mentira que você internalizou. Não é a verdade sobre você."
4.3 Educação Social: A Escola como Espaço de Não-Desmentido
Como Educador Social, vejo em Ferenczi um aliado indispensável. A criança que sofre abuso em casa, mas é desmentida ou ignorada na escola, aprende que nenhum adulto é confiável. A educação que apenas disciplina, mas não escuta, que apenas avalia, mas não acolhe, reproduz o trauma.
Ferenczi nos ensina que o adulto (pai, professor, terapeuta) tem um poder imenso sobre a formação da realidade psíquica da criança. Um professor que diz "Você está mentindo" diante de um relato de sofrimento está repetindo o gesto do agressor. Um professor que diz "Eu acredito em você. Vamos descobrir juntos o que fazer" está exercendo a função terapêutica que Ferenczi chamou de hospitalidade psíquica.
Projetos de educação socioemocional, mediação de conflitos e escolas como "comunidades de cuidado" são, ainda que inconscientemente, aplicações do legado ferencziano.
Parte V: O Manejo Clínico Ferencziano Hoje — Protocolo Integrativo
Com base na obra de Ferenczi e em minha prática como Neuropsicanalista e Terapeuta Cognitivo-Comportamental, proponho um protocolo de manejo para pacientes com história de trauma relacional e identificação com o agressor.
Fase 1: Validação Incondicional da Experiência
Objetivo: interromper o ciclo de desmentido.
Intervenção: "O que aconteceu com você foi real. Não foi sua culpa. Você não está louco por se sentir assim."
Base ferencziana: neocatarse e tato.
Fase 2: Psicoeducação sobre a Identificação com o Agressor
Objetivo: externalizar o "guru interno".
Intervenção: nomear a voz crítica como uma introjeção, não como a verdade. "Essa voz que te diz que você merece sofrer não é sua. É a voz de quem te machucou, que você aprendeu a imitar para sobreviver."
Base ferencziana: desmentido e confusão de línguas.
Fase 3: Experimentos Comportamentais com Elasticidade
Objetivo: testar novas respostas aos velhos gatilhos.
Intervenção: alternar entre exposição (para enfrentar o medo) e regressão relaxada (para acessar o afeto congelado). Usar o "tato" para saber quando empurrar e quando acolher.
Base ferencziana: técnica ativa e princípio do relaxamento.
Fase 4: Diálogo sobre a Contratransferência (Análise Mútua Limitada)
Objetivo: reparar repetições inconscientes.
Intervenção: quando o paciente disser "você está sendo frio como meu pai", o terapeuta pode responder honestamente: "Você tem razão, eu estava distraído. Me desculpe. Vamos retomar." Não se trata de confissão exagerada, mas de honestidade relacional.
Base ferencziana: análise mútua.
Fase 5: Construção de uma Nova Narrativa de Ternura
Objetivo: integrar a memória traumática sem dissociação.
Intervenção: ajudar o paciente a contar sua história com começo, meio e fim, incluindo a validação de sua dor e o reconhecimento de sua resiliência.
Base ferencziana: neocatarse como testemunho.
Conclusão: O Legado que a Psicanálise Oficial Enterrou, Mas a Dor Humana Insiste em Desenterrar
Sándor Ferenczi foi, em vida, um apóstolo proibido. Morreu isolado, incompreendido, acusado de ter perdido o norte científico. Mas a história da psicopatologia lhe deu razão. O trauma real, a violência intrafamiliar, o abuso infantil — tudo o que a Viena dos anos 1930 queria varrer para debaixo do tapete das "fantasias edípicas" — é hoje o centro da clínica contemporânea.
Ferenczi nos legou três lições que nenhum terapeuta sério pode ignorar:
O paciente tem razão sobre sua própria dor. Antes de qualquer interpretação, é preciso acreditar nele. O desmentido é a ferida original; a validação é o início da cicatrização.
A técnica é elástica, não rígida. O terapeuta que se esconde atrás de um protocolo está a serviço de sua própria segurança, não da cura do paciente. O tato psicológico é mais importante do que a ortodoxia.
A honestidade relacional é terapêutica. O paciente traumatizado já foi enganado. Se o terapeuta mente sobre seus próprios limites, finge neutralidade quando está afetado, ou esconde sua contratransferência sob um manto de técnica, ele repete o trauma. A cura passa pela verdade — uma verdade dita com tato, mas dita.
Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert
Ao longo de mais de duas décadas de clínica, atendi centenas de pessoas que carregavam dentro de si um algoz silencioso. "Você não presta." "Você merece ser abandonado." "Se você contar, ninguém vai acreditar." Essas frases não eram delas — mas elas as repetiam como se fossem suas. Eram a voz do agressor, introjetada, transformada em identidade.
Foi lendo Ferenczi, já tarde na minha formação, que entendi o que minha intuição clínica me dizia: não adianta reestruturar a crença "sou um fracasso" sem antes nomear a mentira que a gerou. A TCC me deu as ferramentas para intervir; a neuropsicanálise, a base para compreender o cérebro em sofrimento; mas foi Ferenczi quem me deu a coragem de testemunhar.
Testemunhar não é se tornar amigo do paciente, confundir papéis ou abandonar o setting. Testemunhar é dizer, com a autoridade de quem estudou e de quem sente: "O que aconteceu com você foi real. Você não está louco. E eu estou aqui para ajudar você a se lembrar — e a se libertar."
Como Educador Social, vejo o ferenczianismo nas escolas onde os professores aprendem a escutar sem desmentir, nos abrigos onde as crianças abusadas encontram um adulto que finalmente acredita nelas, nas políticas públicas que reconhecem o trauma como questão de saúde coletiva.
Como Neuropsicanalista, vejo Ferenczi nos exames de neuroimagem que mostram a amígdala hiperativada de quem foi desmentido — e a gradual normalização dessa ativação quando o paciente encontra, pela primeira vez, um terapeuta que não foge da sua dor.
Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, aplico Ferenczi todos os dias quando, antes de ensinar uma técnica de regulação emocional, eu me sento e digo: "Me conte o que aconteceu. Eu vou acreditar."
Se você se reconhece nessa descrição — se carrega uma voz interna que o acusa, se sente que algo em você foi partido e nunca teve permissão para chorar, se a palavra "trauma" ressoa como um eco de algo que você não consegue nomear — saiba que não precisa continuar carregando esse peso sozinho.
A psicoterapia biopsicossocial que praticamos na NeuroPsiOnline é profundamente ferencziana. Não porque veneramos um autor, mas porque reconhecemos que a cura começa onde o desmentido termina. E o desmentido termina quando alguém finalmente diz: "Eu acredito em você. O que aconteceu foi real. E você merece viver sem essa culpa que nunca foi sua."
Agende uma conversa. Não para receber uma fórmula mágica, mas para encontrar um espaço onde a verdade — mesmo a mais dolorosa — pode ser dita sem medo de ser desmentida.
Um abraço,
Dr. Adilson Reichert
Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social.
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Referências
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