O Tripé da Alma: Teoria, Análise e Supervisão na Formação do Psicanalista
- Dr° Adilson Reichert

- há 9 horas
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Uma Jornada pelos Pilares que Transformam o Estudante em Analista e a Técnica em Arte
Há uma cena que se repete nos corredores das instituições psicanalíticas há mais de um século. Um candidato, cheio de teoria e entusiasmo, senta-se diante de seu primeiro paciente. Sabe os conceitos, conhece os autores, domina a bibliografia. Mas, no instante em que o outro começa a falar, algo se desmorona. As palavras que ecoavam nos livros silenciam. A técnica se desfaz. O que resta é um encontro — cru, incerto, desconcertante — entre duas subjetividades. E o candidato percebe, naquele instante, que a psicanálise não se aprende nos livros. Ela se torna no corpo, na escuta, na presença.
O que separa o estudioso da psicanálise do psicanalista clínico não é o acúmulo de conhecimento — é a transmissão de uma experiência. Uma experiência que, como bem sabia Freud, não pode ser ensinada, apenas vivida. E é para isso que existe o tripé da formação psicanalítica: três pilares que, entrelaçados, sustentam a possibilidade de que alguém se torne, não um técnico da alma, mas um testemunha do sofrimento alheio.
Este artigo é uma travessia por esses três pilares. Com a bússola da psicanálise freudiana, lacaniana e winnicottiana, exploraremos:
A teoria — o edifício conceitual que dá forma à escuta, mas que nunca se confunde com ela.
A análise pessoal — a experiência fundadora que transforma o saber em ser, e a técnica em presença.
A supervisão — o espaço onde a clínica se encontra com a reflexão, e o analista em formação aprende a sustentar o que não sabe.
Dialogaremos com Sigmund Freud (o criador do tripé), Jacques Lacan (a formação como travessia da fantasia), Donald Winnicott (a capacidade de estar só e a presença do analista), Sándor Ferenczi (a análise mútua e a elasticidade), e as críticas contemporâneas ao modelo tradicional.
Ao final, compreenderemos que a formação psicanalítica não é um currículo a ser cumprido, mas uma transformação — uma transformação que exige tempo, coragem e, acima de tudo, a disposição de se deixar tocar pelo que não se sabe.
Parte I: A Gênese do Tripé — Por que a Psicanálise Não se Aprende Sozinho
1.1 O Contexto Histórico: A Luta Contra os "Psicanalistas Selvagens"
A primeira menção de Freud ao tripé da formação psicanalítica data de 1919, quando publicou o ensaio "Sobre o ensino da psicanálise nas universidades". Mas foi somente entre 1925 e 1933 que o obedecimento a este tripé foi oficialmente considerado a condição fundamental para a formação de quem quisesse praticar a psicanálise.
O contexto era de expansão desordenada. A psicanálise, que desfrutava de imensa fama, atraía os mais variados tipos de pessoas, muitas das quais não tinham a preparação necessária para tal. Era necessário barrar o caminho dos chamados "psicanalistas selvagens" — gíria que na época fazia referência aos maus psicanalistas, espécies de "charlatões" que praticavam a psicanálise sem a devida formação.
Para colocar ordem em tamanha bagunça, passou a ser exigido que os psicanalistas em formação passassem por:
Uma análise pessoal com outro psicanalista reconhecido.
Uma supervisão de seus primeiros atendimentos.
Um estudo teórico contínuo ao longo de todo o percurso.
O tripé, portanto, nasce como uma exigência ética — uma tentativa de proteger o paciente e a própria psicanálise daqueles que a praticavam sem a devida preparação.
1.2 A Estrutura do Tripé: Público e Privado
O tripé básico da formação psicanalítica implica em duas áreas privadas — análise e supervisão — e uma área pública — os seminários teóricos e clínicos. Como observa um estudo sobre o tema, é justamente a área pública que tem uma função interpretante das transferências privadas, que seriam as responsáveis pelas doenças institucionais.
O tripé não é, portanto, uma simples lista de requisitos. É uma arquitetura — uma estrutura que reconhece que a formação do analista não pode ser apenas intelectual (teoria), nem apenas pessoal (análise), nem apenas técnica (supervisão). Ela precisa ser tudo isso ao mesmo tempo, em um movimento contínuo que transforma o estudante em analista.
Parte II: O Primeiro Pilar — A Teoria como Fundamento e como Limite
2.1 A Teoria como Mapa, não como Território
A parte teórica da formação é aquela em que o candidato começa a desenvolver seus conhecimentos no universo da psicanálise. Mas o que significa "estudar teoria" em psicanálise?
Não se trata de memorizar conceitos ou decorar autores. Trata-se de aprender a pensar a partir de uma tradição — de internalizar um modo de escuta, uma sensibilidade para o inconsciente, uma capacidade de sustentar a incerteza. A teoria psicanalítica não é um manual de instruções; é um mapa que orienta a travessia, mas que nunca se confunde com o território.
A literatura especializada é clara: "O psicanalista escuta também: as contradições; os silêncios; as repetições; os esquecimentos; as resistências; as formas de vínculo; os sentidos presentes nos sintomas". Essa escuta exige conhecimento teórico, mas também experiência pessoal e acompanhamento clínico.
2.2 O Estudo Teórico como Trabalho Contínuo
Para Lacan, o ensino teórico é um aspecto igualmente importante no qual o analista, no que ele ensina, faz uma outra travessia da teoria — não mais a travessia da fantasia que ele fez em sua análise, da qual adveio sua posição de analista. Lacan sustentou que existe uma estrutura interna da formação do analista, cuja base é a análise pessoal relacionada com o ensino teórico e a supervisão.
Para Lacan, a clínica tem a ver com o real que escapole o tempo todo, e a teoria é a tentativa de simbolização desse real. E se a travessia da fantasia tem um fim, a análise tem fim, a travessia da teoria é um trabalho interminável. É uma vida dedicada à psicanálise.
2.3 A Teoria como Proteção e como Risco
A teoria protege o analista em formação do real da clínica. Ela oferece um arcabouço que permite nomear, situar, compreender. Mas a teoria também pode se tornar uma defesa — um escudo contra o desconhecido que o paciente traz.
O estudo teórico, como pilar do tripé, precisa ser vivo — não um conjunto de dogmas, mas um campo de perguntas. Como escreve um analista, "a supervisão funciona quando a teoria não vem antes como uma proteção ao real da clínica, mas quando ela ajuda". A teoria é o solo onde a escuta se enraíza, mas a escuta é o que faz o solo florescer.
Parte III: O Segundo Pilar — A Análise Pessoal como Fundação do Ser
3.1 A Análise Didática: O Coração do Tripé
A análise pessoal — também chamada de análise didática — é o pilar mais íntimo e, para muitos, o mais transformador da formação psicanalítica. Trata-se de um processo terapêutico profundo no qual o candidato a psicanalista se submete à análise com outro psicanalista, geralmente vinculado à instituição formadora.
Freud falava da análise dos sonhos do analista para que este "conhecesse" seu inconsciente e, assim, soubesse, por experiência própria, do objeto da psicanálise. A análise pessoal funcionaria como garantia de que o futuro analista não seria um charlatão ou um "psicanalista selvagem".
3.2 A Análise como Travessia da Fantasia
Lacan deu um passo além: a análise pessoal é a travessia da fantasia — o processo pelo qual o sujeito se desprende das identificações imaginárias e assume sua posição de desejante. Não se trata apenas de "conhecer o inconsciente", mas de transformar a própria posição subjetiva.
O analista, para Lacan, não é aquele que sabe; é aquele que suporta não saber. E essa capacidade de suportar a própria falta só pode ser conquistada na análise. É por isso que Freud insistia que a análise pessoal é condição necessária para a prática clínica.
3.3 A Análise como Espaço de Singularidade
A análise pessoal não é um procedimento padronizado; é uma experiência singular que cada candidato vive à sua maneira. Ela envolve associação livre, interpretação de sonhos, transferência e contratransferência — mas tudo isso ocorre em um encontro único, irrepetível, entre duas subjetividades.
Como observa a literatura, as análises didáticas são análises individuais que têm o objetivo de fazer análise pessoal em conjunto com ensinamento de técnicas da aplicação clínica. São 10 sessões, 40 sessões ou 100 sessões (em algumas formações, conforme ementa do curso da própria instituição) onde, além de se analisar, o candidato aprende como conduzir um atendimento.
3.4 A Análise como Antídoto contra a Arrogância
A análise pessoal tem uma função fundamental: desmontar a arrogância do saber. O estudante que chega cheio de teoria, de conceitos, de respostas prontas, encontra na análise o limite de seu saber. Descobre que o inconsciente não se deixa capturar pelos conceitos. Que a escuta não se aprende nos livros. Que a presença do analista não é uma técnica, mas uma posição — uma posição que só pode ser conquistada através da experiência.
Parte IV: O Terceiro Pilar — A Supervisão como Espaço de Reflexão
4.1 O que é a Supervisão?
A supervisão clínica é o terceiro pilar do tripé. É o espaço onde o analista em formação apresenta seus atendimentos a um supervisor mais experiente, que o ajuda a refletir sobre o que está acontecendo na clínica.
A prática da supervisão em psicanálise integra o chamado tripé da formação clínica, juntamente com a análise pessoal e o estudo teórico. São sessões onde o supervisionando ganha experiência e perde o medo do atendimento clínico. Funciona como uma mentoria: o supervisionando faz o atendimento e, depois, nos encontros com o supervisor, discute o caso, recebe orientações e aprofunda seus conhecimentos.
4.2 A Função da Supervisão: Remeter à Própria Análise
A supervisão pode ter a função de remeter o supervisionando com suas dificuldades à sua própria análise. Ou ainda, de apresentar ao supervisionando uma função específica. Ela é o campo privilegiado de apropriação e digestão da metapsicologia em conjunto com o espaço da análise.
O supervisor é aquele que convoca o supervisionando a escrever uma história sobre o caso que ouviu. É por meio dessa convocação que o não saber do supervisionando se revela — e se transforma em pergunta.
4.3 Supervisão e Teoria: Uma Relação Complexa
A supervisão funciona quando a teoria não vem antes como uma proteção ao real da clínica, mas quando ela ajuda. O supervisor não é um "saber" que se impõe; é um interlocutor que ajuda o supervisionando a pensar.
Lacan via a supervisão como um elemento que está sempre apontando para um dos aspectos do tripé — ou análise ou ensino — aquele aspecto que está falhando, servindo de ponte entre a teoria e a análise. Em outras palavras: a supervisão revela onde a teoria não está sustentando a escuta, ou onde a análise pessoal ainda não elaborou algo que agora emerge na clínica.
4.4 A Supervisão como Exercício da Transmissão
A supervisão é, em última instância, um exercício de transmissão — não de conteúdos, mas de uma atitude. O supervisor não ensina o que fazer; ensina a perguntar. Não oferece respostas; oferece um espaço onde as perguntas podem ser formuladas.
Como escreve um analista, a supervisão funciona quando o supervisor convoca o supervisionando a escrever uma história sobre o caso que ouviu. E é nessa escrita — nessa tentativa de dar forma ao que foi ouvido — que o supervisionando se torna, ele mesmo, um analista.
Parte V: A Integração dos Pilares — Quando o Tripé se Torna Corpo
5.1 O Tripé como Totalidade
O tripé não é uma lista de requisitos a serem cumpridos separadamente. É um sistema — um sistema onde cada pilar se sustenta nos outros, e onde a falha de um compromete todos os outros.
A teoria sem análise pessoal é vazia — um discurso sem carne, uma técnica sem presença. A análise sem teoria é cega — uma experiência sem linguagem, um sofrimento sem forma. A supervisão sem análise e teoria é superficial — um conselho sem profundidade, uma orientação sem fundamento.
5.2 A Formação como Processo Contínuo
A formação psicanalítica não termina com o diploma. Ela é um processo contínuo — uma vida inteira de estudo, de análise (que pode ser retomada), de supervisão (que pode ser buscada a qualquer momento).
Lacan insistiu que seu ensino visava produzir efeitos de formação e situou a formação do analista como algo a ser refeito continuamente e, portanto, pontual e inacabado. O analista não é alguém que "chegou"; é alguém que está sempre se formando.
5.3 A Formação como Transformação Subjetiva
O que distingue a formação psicanalítica de outras formações profissionais é que ela não se limita a adquirir competências. Ela exige uma transformação subjetiva — uma mudança na própria posição de sujeito.
O candidato que entra na formação não é o mesmo que sai. A análise pessoal, a supervisão e o estudo teórico — cada um à sua maneira — o desmontam e o reconstroem. E, nesse processo, o que emerge não é um técnico da alma, mas um testemunha — alguém que pode suportar o sofrimento do outro porque já enfrentou o seu próprio.
Parte VI: As Críticas ao Tripé — O Modelo em Questão
6.1 A Crítica à Obrigatoriedade da Análise Didática
Nem todos concordam com o modelo tradicional do tripé. Alguns críticos apontam que a obrigatoriedade da análise didática pode gerar problemas: o candidato pode se sentir compelido a concordar com interpretações que não fazem sentido para ele, por razões institucionais.
Freud, embora incentivador da análise pessoal, era contra a imposição de uma análise didática obrigatória. A crítica é que a análise pessoal, quando se torna um requisito burocrático, pode perder sua potência transformadora e se transformar em um ritual vazio.
6.2 A Crítica à Homogeneização
Outra crítica ao tripé é que ele pode homogeneizar a formação, impedindo a emergência de singularidades. As instituições formadoras, ao imporem um modelo único de análise, teoria e supervisão, podem produzir analistas que são cópias uns dos outros, em vez de sujeitos únicos.
Como observa um crítico, o tripé tradicional pode gerar uma alienação institucional — o candidato se submete à instituição em vez de se tornar um analista.
6.3 A Crítica ao Modelo Eitingon
O chamado Modelo Eitingon de formação, que institucionalizou o tripé na IPA, tem sido criticado por sua burocratização. A formação se torna uma série de requisitos a serem cumpridos — horas de análise, número de supervisões, carga horária de teoria — em vez de um processo vivo de transformação.
A crítica é que o tripé, quando se torna um currículo, perde sua dimensão ética e se transforma em um controle — um controle que protege a instituição, mas que pode sufocar a criatividade e a singularidade do analista em formação.
Parte VII: O Tripé na Prática — Como se Torna um Psicanalista
7.1 A Escolha da Instituição
O primeiro passo para a formação é a escolha da instituição. No Brasil, as chamadas escolas de formação psicanalítica são instituições privadas e autônomas que se dedicam a formar psicanalistas segundo tradições teóricas e clínicas específicas — freudiana, lacaniana, kleiniana, winnicottiana, entre outras.
A escolha da instituição é fundamental porque ela definirá não apenas a teoria que será estudada, mas também o tipo de análise e supervisão a que o candidato terá acesso.
7.2 O Percurso Típico
Um percurso típico de formação em psicanálise inclui:
Estudo teórico: cursos, seminários, leituras supervisionadas.
Análise pessoal: um processo analítico com um analista didata da instituição ou externo.
Supervisão clínica: atendimento de pacientes sob supervisão de um analista experiente.
Atendimentos acadêmicos: em muitos casos, o candidato atende pacientes em projetos sociais ou clínicas-escola, como o APA (Atendimento Psicanalítico Acadêmico).
O percurso é longo — geralmente de 3 a 5 anos — e exige dedicação integral.
7.3 A Formação como Iniciação
A formação psicanalítica tem algo de iniciático. Não se trata apenas de aprender uma técnica, mas de se tornar um analista. E esse tornar-se exige uma transformação que não pode ser apressada.
Como escreve um analista, a formação não é sobre aprender psicanálise, mas sobre tornar-se psicanalista. E esse tornar-se é um processo que dura a vida inteira.
Parte VIII: A Perspectiva de Lacan — A Formação como Travessia Interminável
8.1 Lacan e a Crítica da IPA
Jacques Lacan, ao criticar a formação da IPA, disse em um chiste que jamais falara de formação de psicanalista e sim de "formações do inconsciente" — dando importância radical à singularidade da experiência analítica.
Para Lacan, a formação não é um currículo a ser cumprido, mas uma travessia — uma travessia da fantasia, da teoria, do saber. O analista não é aquele que sabe; é aquele que suporta não saber.
8.2 A Formação como Travessia da Teoria
Lacan insistiu que seu ensino visava produzir efeitos de formação e situou a formação do analista como algo a ser refeito continuamente e, portanto, pontual e inacabado. O ensino teórico é mais um aspecto igualmente importante no qual o analista, no que ele ensina, faz uma outra travessia da teoria — não mais a travessia da fantasia que ele fez em sua análise.
A formação, para Lacan, é um trabalho interminável. É uma vida dedicada à psicanálise.
8.3 O Real na Formação
Para Lacan, "há um real em jogo na própria formação do analista". A clínica tem a ver com o real que escapole o tempo todo, e a teoria é a tentativa de simbolização desse real. A formação, portanto, é o encontro com esse real — um encontro que nunca se completa, que sempre escapa, que sempre exige uma nova travessia.
Conclusão: O Tripé que Sustenta a Alma
O tripé da formação psicanalítica — teoria, análise pessoal e supervisão — não é uma lista de requisitos burocráticos. É uma arquitetura — uma estrutura que reconhece que a psicanálise não se aprende, mas se torna. Que o analista não é um técnico, mas uma testemunha. Que a técnica, sem a transformação subjetiva, é vazia.
O que o tripé protege não é apenas o paciente — é a própria psicanálise. Ele impede que ela se torne um discurso vazio, uma técnica aplicada, um saber sem corpo. Ele exige que o analista em formação pague o preço de sua própria análise — que enfrente suas próprias sombras, que suporte sua própria falta, que se torne, ele mesmo, o que escuta.
Como escreveu Lacan, a formação é um trabalho interminável. Não há diploma que a conclua. Não há certificado que a ateste. O que há é a prática — a prática de uma escuta que, a cada encontro, se reinventa. E o tripé é o que sustenta essa prática: a teoria que dá forma, a análise que transforma, a supervisão que reflete.
E, no final, o que resta não é um saber, mas uma presença — a presença de alguém que pode suportar o sofrimento do outro porque já enfrentou o seu próprio.
Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert
Ao longo de décadas de clínica e de formação de novos analistas, testemunhei a transformação que o tripé opera. Estudantes que chegam cheios de teoria e saem cheios de perguntas. Candidatos que entram na análise pessoal buscando respostas e encontram, no lugar delas, a coragem de não saber. Supervisionandos que começam com medo do primeiro atendimento e se tornam capazes de sustentar o encontro mais desconcertante.
O que todos eles aprenderam é que a psicanálise não é um saber; é uma posição. Uma posição de escuta que exige que o analista esteja, ele mesmo, em análise. Uma posição que exige que a teoria seja constantemente revisitada, questionada, transformada. Uma posição que exige que a prática seja refletida, supervisionada, compartilhada.
Como Neuropsicanalista, sei que o tripé não é um luxo; é uma necessidade. O cérebro que escuta o inconsciente do outro precisa ser um cérebro que conhece seu próprio inconsciente. A mente que sustenta a transferência precisa ser uma mente que já atravessou sua própria fantasia. A presença que acolhe o sofrimento precisa ser uma presença que já suportou sua própria falta.
Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, reconheço que a formação psicanalítica tem muito a ensinar à TCC: que a técnica não substitui a presença, que o protocolo não substitui o encontro, que o saber não substitui a escuta. A psicanálise nos lembra que o que cura não é o que fazemos, mas o que somos na relação com o outro.
Como Educador Social, sonho com um mundo onde a formação dos que cuidam da alma seja levada a sério. Onde a teoria, a análise e a supervisão sejam vistas não como custos, mas como investimentos. Onde o psicanalista não seja um técnico, mas um guia — alguém que, tendo atravessado seu próprio abismo, pode ajudar o outro a atravessar o seu.
Na NeuroPsiOnline, acreditamos que a formação continuada é a base de uma prática ética e transformadora. Não há atalhos. Não há fórmulas mágicas. Há apenas o trabalho paciente de se tornar, a cada dia, um pouco mais presente, um pouco mais aberto, um pouco mais capaz de escutar.
Se você é estudante de psicanálise, ou se pensa em se tornar psicanalista, saiba que o caminho é longo — mas que cada passo vale a pena. A teoria que você estuda, a análise que você vive, a supervisão que você busca — tudo isso é o solo onde a sua escuta se enraíza.
E, quando a escuta se enraíza, o que floresce é a possibilidade de um encontro verdadeiro — um encontro que transforma tanto quem escuta quanto quem é escutado.
Um abraço,
Dr. Adilson Reichert
Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social
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Referências
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FREUD, S. "Sobre o ensino da psicanálise nas universidades" (1919). In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, J. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LACAN, J. O Seminário, Livro 20: Mais, Ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
FERENCZI, S. Diário Clínico. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
FERRAZ, F. C. "Transmissão e formação: apontamentos sobre o tripé analítico". Jornal de Psicanálise, v. 47, n. 86, 2014.
GIOVANNETTI, M. F. "Sobre a natureza e função do currículo na formação analítica". Jornal de Psicanálise, v. 43, n. 79, 2010.
HERRMANN, F. "Análise didática: uma história feita de críticas". Jornal de Psicanálise, v. 41, n. 74, 2008.
PEREIRA, N. M. & KESSLER, C. H. "Reflexões acerca de um início: psicanálise e clínica na universidade". Psicologia em Revista, v. 22, n. 2, 2016.
SANTORO, V. C. "Lacan e a formação do psicanalista". Reverso, v. 29, n. 54, 2007.
ROUDINESCO, E. & PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
"Tripé da Psicanálise: os três pilares da formação do psicanalista". Casa do Saber.
"O Curso de Psicanálise tem como metodologia o tripé Psicanalítico". ABP Online.
"O que é Psicanálise? Tripé e formação clínica". FEBRATIS.
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