O Mistério do Gosto: Por que nos Atrai o que nos Atrai e nos Repulsa o que nos Repulsa — Uma Arqueologia do Desejo e da Aversão
- Dr° Adilson Reichert

- 28 de mar.
- 18 min de leitura
Atualizado: 29 de mar.
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Introdução: O Enigma do Paladar Existencial
Imagine uma cena corriqueira: você está em uma festa. Do outro lado da sala, alguém cruza seu olhar. Seu coração acelera, sua respiração muda, uma energia sutil percorre seu corpo. Você sente atração. Seu amigo, ao seu lado, olha para a mesma pessoa e sente... nada. Ou, pior, sente desconforto, estranheza, repulsa.
O que aconteceu? A mesma pessoa, o mesmo rosto, o mesmo corpo — e duas reações diametralmente opostas. Como é possível? O que se passa no cérebro de cada um que produz respostas tão diferentes ao mesmo estímulo? E não se trata apenas de atração romântica. Preferimos certos cheiros, certos sabores, certas paisagens, certas ideias, certas formas de vida. Outros nos causam aversão imediata, visceral, às vezes inexplicável.
Este artigo propõe uma investigação exaustiva sobre os mecanismos da atração e da repulsa — os processos biológicos, psicológicos, culturais e existenciais que moldam nossos desejos e nossas aversões. A partir de uma perspectiva integrativa que conjuga Neuropsicanálise, Terapia Cognitivo-Comportamental e Educação Social, e dialogando com pensadores como Sigmund Freud, Jacques Lacan, Antonio Damásio, Daniel Kahneman, Paul Rozin, e a tradição fenomenológica, exploraremos:
1. A arquitetura cerebral do desejo e da aversão: os circuitos neurais que nos fazem aproximar ou recuar.
2. O legado evolutivo: por que certos estímulos são universalmente atraentes ou repulsivos.
3. A singularidade do gosto: por que a mesma pessoa é bela para um e indiferente para outro.
4. A psicodinâmica do desejo: o papel do inconsciente, das identificações e dos traumas.
5. A dimensão cultural: como o contexto molda o que consideramos desejável ou repugnante.
6. A fenomenologia da atração: a experiência vivida do encontro com o outro.
7. Perspectivas integrativas: como a clínica pode ajudar a compreender (e às vezes transformar) padrões de desejo e aversão.
8. Técnicas práticas para uma relação mais consciente com o próprio gosto.
A tese central é que a atração e a repulsa não são respostas meramente biológicas ou puramente culturais; são fenômenos complexos que emergem da interseção entre a herança evolutiva, a história pessoal, o contexto social e a singularidade irredutível de cada indivíduo. E que compreender esta complexidade é o primeiro passo para uma relação mais livre e consciente com nossos próprios desejos.
Parte I: A Arquitetura Cerebral do Desejo e da Aversão — Os Circuitos da Aproximação e do Recuo
1.1 O Sistema de Recompensa: A Neuroquímica da Atração
O desejo começa no cérebro. Mais especificamente, começa no sistema de recompensa — um conjunto de estruturas neurais que evoluiu para nos motivar a buscar o que é benéfico à sobrevivência e à reprodução. O centro deste sistema é o núcleo accumbens, que, quando ativado, libera dopamina — o neurotransmissor do prazer, da antecipação, da motivação.
Antonio Damásio, em suas obras sobre a neurobiologia das emoções, mostra que o desejo não é apenas uma resposta a estímulos externos; é um estado corporal que se antecipa ao prazer. O cérebro não espera receber a recompensa para sentir prazer; ele sente prazer na antecipação. É por isso que a expectativa de um encontro pode ser tão excitante quanto o encontro em si, e por que a espera por algo desejado pode ser simultaneamente dolorosa e prazerosa.
Mas o sistema de recompensa não opera sozinho. Ele é modulado por:
- A amígdala: que avalia o valor emocional do estímulo — se é ameaçador ou benéfico.
- O córtex pré-frontal: que regula os impulsos e integra a informação com a experiência passada.
- A ínsula: que processa as sensações corporais associadas às emoções.
A atração que sentimos por alguém, portanto, não é uma resposta simples a um estímulo visual. É uma sinfonia neural que envolve a avaliação do risco, a memória de experiências passadas, a regulação da resposta emocional, e a sensação corporal do desejo.
1.2 O Sistema de Aversão: A Neuroquímica da Repulsa
Se o sistema de recompensa nos aproxima, o sistema de aversão nos afasta. E ele é, em muitos aspectos, mais primitivo e mais poderoso. O psicólogo Paul Rozin, que dedicou sua carreira ao estudo da repulsa, mostrou que a aversão é uma das emoções mais básicas e universais, com raízes profundas na biologia evolutiva.
O centro do sistema de aversão é a amígdala — a estrutura cerebral responsável pela detecção de ameaças e pelo processamento do medo. Quando algo é percebido como perigoso, contaminado, nojento ou repulsivo, a amígdala dispara um alarme que:
- Ativa o sistema nervoso simpático (aumento da frequência cardíaca, sudorese, tensão muscular).
- Libera cortisol e adrenalina, preparando o corpo para a luta ou fuga.
- Ativa a ínsula, que processa a sensação de nojo — frequentemente associada à náusea e à vontade de se afastar.
A repulsa é, evolutivamente, uma das emoções mais importantes. Ela nos protege de:
- Comida estragada: o nojo nos impede de ingerir toxinas.
- Agentes infecciosos: o nojo nos afasta de matéria em decomposição, excrementos, secreções.
- Predadores: o medo nos afasta de ameaças à integridade física.
- Comportamentos socialmente desviantes: a repulsa moral nos afasta de quem viola normas fundamentais do grupo.
O que Rozin mostrou, no entanto, é que o sistema de aversão é plástico — ele pode ser estendido a estímulos que não representam ameaça biológica real, através de processos de aprendizagem cultural e associativa. Alimentos que uma cultura considera iguaria (insetos, carne de cachorro) podem ser repulsivos para outra. Comportamentos aceitos em um contexto podem ser abomináveis em outro.
1.3 A Dialética da Aproximação e do Recuo
O que torna a experiência humana tão complexa é que atração e aversão frequentemente coexistem. Freud chamou esta coexistência de ambivalência — a capacidade de amar e odiar o mesmo objeto, de desejar e temer ao mesmo tempo.
A ambivalência é particularmente intensa na atração romântica. A pessoa que nos atrai também nos amedronta — amedronta pelo poder que tem sobre nós, pelo risco de rejeição, pela possibilidade de perda. A atração intensa frequentemente carrega em si o medo de se perder no outro, o temor de ser dominado, a ansiedade antecipatória do abandono.
O neurocientista Jaak Panksepp, que estudou os sistemas emocionais básicos dos mamíferos, identificou um circuito específico para o que chamou de "busca" (*seeking*) — o impulso de explorar, de perseguir, de antecipar recompensa. Este circuito é ativado pela dopamina e é o motor do desejo. Mas ele coexiste com os circuitos do "medo" (*fear*) e da "raiva" (*rage*), que podem ser ativados pelos mesmos estímulos. A vida emocional humana é, em grande medida, a negociação constante entre estes sistemas concorrentes.
Parte II: O Legado Evolutivo — O que é Universal no Gosto
2.1 Os Atalhos Evolutivos: Heurísticas de Sobrevivência
O cérebro humano, como qualquer sistema biológico, opera sob restrições de tempo e energia. Ele não pode processar todas as informações disponíveis; precisa de atalhos (heuristics) para tomar decisões rápidas. Daniel Kahneman, em Rápido e Devagar, mostrou que estes atalhos são eficientes na maioria das situações, mas também produzem vieses sistemáticos.
No domínio da atração, estes atalhos evolutivos incluem:
- Simetria facial: rostos simétricos são processados como mais saudáveis, mais férteis, mais atraentes — porque a assimetria pode sinalizar doença ou má nutrição.
- Proporções corporais: em todas as culturas, certas proporções (como a relação cintura-quadril nas mulheres, ou a proporção ombro-cintura nos homens) são percebidas como atraentes, por sua associação com fertilidade e saúde.
- Juventude: traços juvenis são processados como atraentes porque sinalizam potencial reprodutivo.
- Familiaridade: rostos que se assemelham aos que vimos na infância (pais, cuidadores) são processados como mais atraentes — um fenômeno que a psicologia evolutiva chama de "preferência por familiaridade".
Estes atalhos são, em grande medida, universais. Eles explicam por que algumas características são consideradas atraentes em praticamente todas as culturas — e por que a percepção de beleza tem um componente biológico inegável.
2.2 O Nojo como Mecanismo de Proteção
Se a atração nos aproxima do que é benéfico, o nojo nos afasta do que é prejudicial. Paul Rozin identificou o que chamou de "triggers universais do nojo":
- Contaminação: objetos que estiveram em contato com matéria em decomposição, excrementos, fluidos corporais.
- Violação do envelope corporal: sangue, feridas, mutilações.
- Animais considerados "nojentos": ratos, baratas, vermes.
- Comida estragada: odores de putrefação, texturas anormais.
Estes triggers são universais porque sinalizam ameaças reais à saúde — risco de infecção, envenenamento, parasitismo. O nojo, nesta perspectiva, é uma defesa imunológica comportamental, um sistema que evoluiu para nos manter afastados de fontes de doença.
O que Rozin mostrou, no entanto, é que o nojo é também o mecanismo mais plástico do repertório emocional humano. Através da aprendizagem cultural, podemos estender o nojo a estímulos que não representam ameaça biológica — certas práticas sexuais, certos grupos sociais, certas ideias.
2.3 O Universal e o Particular
A existência de universais biológicos não anula a singularidade do gosto. O que é universal é a estrutura dos sistemas de atração e aversão — os circuitos neurais, as heurísticas evolutivas, os triggers do nojo. O conteúdo — o que efetivamente atrai ou repulsa cada indivíduo — é moldado por uma infinidade de fatores particulares: a história pessoal, o contexto cultural, as experiências precoces, as identificações inconscientes.
Parte III: A Singularidade do Gosto — Por que o Mesmo Rosto Atrai e Repulsa
3.1 Freud e a Escolha de Objeto
Sigmund Freud dedicou grande parte de sua obra à questão: por que amamos quem amamos? Em seus textos sobre a escolha de objeto, Freud propôs que o desejo adulto é moldado pelas experiências infantis. A criança desenvolve seus primeiros vínculos de amor com os pais (ou cuidadores) — e estes vínculos deixam marcas que orientarão o desejo adulto.
Freud descreveu o que chamou de "escolha de objeto por tipo": a tendência a buscar parceiros que se assemelham às figuras parentais (ou a seus opostos). Não se trata de uma semelhança consciente, mas de uma atração inconsciente por características que ressoam com as primeiras experiências de amor.
Esta teoria explica por que duas pessoas podem ter reações tão diferentes ao mesmo rosto: para um, o rosto evoca inconscientemente a figura da mãe (ou do pai); para outro, evoca uma figura que causou dor, rejeição, abandono. A atração não é uma resposta ao estímulo objetivo; é uma resposta ao significado inconsciente que o estímulo carrega.
3.2 Lacan e o Objeto a
Jacques Lacan, retomando e radicalizando Freud, propôs que o desejo não é direcionado a um objeto qualquer, mas a um objeto causa do desejo — o objeto a. Este objeto não é algo que possamos possuir; é o que falta na estrutura do desejo, o que nos faz desejar.
Para Lacan, não desejamos a pessoa em si; desejamos o que ela representa para nosso desejo. A mesma pessoa pode ser objeto de desejo para um e indiferente para outro porque, para um, ela encarna a falta que organiza seu desejo; para outro, não.
Esta perspectiva explica a irredutível singularidade do gosto. O que nos atrai em alguém não é uma característica objetiva, mas a relação que esta característica estabelece com nossa própria falta. É por isso que podemos ser intensamente atraídos por alguém que, aos olhos dos outros, não tem nada de especial.
3.3 O Papel da Memória e da Associação
A neurociência cognitiva acrescenta que nossas preferências são moldadas por associações aprendidas ao longo da vida. O cérebro é uma máquina de associar estímulos a experiências emocionais. Um cheiro, um tom de voz, uma expressão facial podem evocar memórias de prazer ou de dor — e estas memórias, frequentemente inconscientes, orientam nossa atração ou aversão.
O psicólogo John Bargh mostrou que estas associações podem operar abaixo do limiar da consciência. Somos atraídos por pessoas que nos lembram, sem saber, de experiências positivas passadas. Sentimos repulsa por pessoas que nos lembram, sem saber, de experiências traumáticas. O gosto, em grande medida, é uma memória do corpo que não precisa passar pelo crivo da consciência.
3.4 O Fenômeno da Química: Feromônios e a Percepção Inconsciente
Há um componente biológico adicional que contribui para a singularidade do gosto: os feromônios — substâncias químicas que o corpo libera e que são percebidas inconscientemente por outros. Estudos mostram que:
- Preferimos o odor corporal de pessoas cujo sistema imunológico é diferente do nosso (o chamado complexo principal de histocompatibilidade), o que favorece a diversidade genética da prole.
- O odor corporal pode sinalizar saúde, estresse, medo, excitação sexual — e estas informações são processadas inconscientemente.
- Mulheres em diferentes fases do ciclo menstrual têm preferências olfativas diferentes.
O que chamamos de "química" na atração tem, portanto, uma base biológica real — mas uma base que opera em grande medida abaixo da consciência. Dois indivíduos podem ter reações opostas ao mesmo odor porque seus sistemas imunológicos são diferentes, porque seus ciclos hormonais são diferentes, porque suas experiências passadas com odores similares são diferentes.
Parte IV: A Psicodinâmica do Desejo — As Raízes Inconscientes do Gosto
4.1 Identificação e Projeção
A psicanálise nos ensina que nos relacionamos com os outros não apenas como são, mas como projetamos sobre eles. Atraímos-nos por pessoas que encarnam aspectos de nós mesmos que não reconhecemos (identificação projetiva) ou que encarnam aspectos que desejamos ter.
Este processo é particularmente intenso na atração romântica. O outro torna-se o depositário de nossas fantasias, nossos medos, nossos desejos não realizados. Atraímos-nos pelo que o outro representa para nosso mundo interno — não apenas pelo que ele é objetivamente.
4.2 A Repetição e o Traumático
Freud observou um fenômeno paradoxal: tendemos a repetir, no presente, padrões de relacionamento que nos causaram sofrimento no passado. Chamou este fenômeno de compulsão à repetição. É por isso que podemos ser atraídos repetidamente por pessoas que nos tratam mal, que nos rejeitam, que nos abandonam — porque, inconscientemente, buscamos reviver a cena primária do abandono, na esperança de que desta vez o final seja diferente.
A repulsa, igualmente, pode ser moldada por experiências traumáticas. Um odor, um tom de voz, uma expressão facial que evoca um trauma precoce pode desencadear repulsa imediata, mesmo que não haja ameaça real.
4.3 O Desejo como Falta
Lacan ensinou que o desejo é, por definição, desejo do que falta. Não desejamos o que temos; desejamos o que não temos. Esta é a razão pela qual a conquista frequentemente traz consigo a diminuição do desejo: quando o objeto é alcançado, a falta que o sustentava se dissipa.
O que nos atrai em alguém não é a pessoa em si, mas a promessa que ela carrega — a promessa de preencher nossa falta, de nos completar, de nos dar o que nos falta. Esta promessa, por definição, não pode ser cumprida — porque a falta é estrutural, não circunstancial. É por isso que a atração intensa é frequentemente seguida de desilusão, e por que o desejo se move de objeto em objeto.
Parte V: A Dimensão Cultural — Como o Contexto Molda o Gosto
5.1 A Construção Social da Beleza
Se há universais biológicos na atração, há também uma enorme variação cultural. O que uma cultura considera belo pode ser indiferente ou repulsivo para outra. Os anéis de pescoço das mulheres Padaung, os lábios esticados com discos das mulheres Mursi, os pés atados das mulheres chinesas — todos são exemplos de padrões de beleza que, de fora, parecem bizarros ou mesmo mutilantes, mas que dentro do contexto cultural são vistos como ideais de beleza.
A antropóloga Nancy Etcoff, em A Lei do Mais Belo, mostra que a beleza é ao mesmo tempo biológica e cultural. Há um núcleo biológico (simetria, proporções, saúde) que é universal; mas há também uma camada cultural que especifica, dentro dos limites do biológico, o que é considerado belo em cada época e lugar.
5.2 A Repulsa Moral
Paul Rozin mostrou que o nojo, originalmente um mecanismo de proteção contra contaminação física, pode ser estendido ao domínio moral. Sentimos nojo de comportamentos que consideramos imorais, de pessoas que violam valores fundamentais, de ideias que nos parecem abjetas.
Esta extensão do nojo ao domínio moral é culturalmente moldada. O que causa nojo moral em uma cultura pode ser indiferente em outra. O que uma cultura considera pecado, outra considera virtude. A repulsa moral é, em grande medida, um marcador de pertencimento — um sinal de que compartilhamos os valores do grupo e nos afastamos daqueles que os violam.
5.3 O Papel da Norma e do Desvio
A cultura não apenas molda o que consideramos belo ou repulsivo; ela também molda o que consideramos normal. O que é normal torna-se, frequentemente, o que é atraente — porque o familiar é processado como mais seguro, mais previsível, mais confiável. O desvio da norma pode ser processado como ameaçador — e, portanto, repulsivo.
Esta dinâmica explica por que minorias (étnicas, sexuais, de gênero) frequentemente são alvo de repulsa em sociedades onde não são representadas. O diferente é processado como ameaçador não por ser objetivamente ameaçador, mas por ser desconhecido. O contato sustentado, a representação na mídia, a normalização social — tudo isso pode transformar o que era repulsivo em indiferente ou mesmo atraente.
Parte VI: A Fenomenologia da Atração — A Experiência Vivida do Encontro
6.1 O Encontro como Evento
A fenomenologia, corrente filosófica fundada por Edmund Husserl e desenvolvida por Maurice Merleau-Ponty, nos ensina a nos voltarmos para a experiência vivida antes de qualquer teorização. O que é, fenomenologicamente, o encontro com alguém que nos atrai?
Não é, primeiramente, uma análise de características. É um evento que nos toma. O mundo se reorganiza em torno daquele rosto, daquela voz, daquela presença. O tempo se altera: horas parecem minutos; minutos parecem horas. O espaço se concentra: todo o ambiente se reduz ao espaço entre nós.
Merleau-Ponty descreveu a percepção como um diálogo entre corpo e mundo. O que sentimos diante do outro não é uma resposta a estímulos isolados, mas uma ressonância corporal — uma sintonia que envolve postura, respiração, movimento, tônus muscular. A atração é, antes de tudo, um evento corporal que antecede qualquer categorização consciente.
6.2 O Olhar e o Ser Olhado
Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, descreveu o olhar como o evento fundamental da relação com o outro. Quando alguém nos olha, não somos apenas vistos; somos objetificados — transformados de sujeito em objeto. Esta objetificação pode ser experimentada como ameaçadora (o olhar que julga) ou como desejável (o olhar que valida).
O que nos atrai em alguém pode ser, paradoxalmente, a experiência de ser visto por ela. Sentimo-nos vistos quando o outro percebe em nós algo que não havíamos percebido, quando nos reconhece como sujeitos, quando nos valida como existentes. A atração é, em grande medida, a experiência de ser reconhecido pelo outro.
6.3 A Falta e o Desejo
A fenomenologia do desejo nos mostra que a atração não é apenas aproximação; é também falta. Sentimos falta do outro quando ele não está; antecipamos sua presença como preenchimento de uma ausência. O desejo, nesta perspectiva, é menos sobre o que o outro tem e mais sobre o que o outro desperta em nós — a falta que sua presença (ou ausência) mobiliza.
Parte VII: Perspectivas Integrativas — Compreendendo e Transformando Padrões de Atração e Aversão
7.1 Neuropsicanálise: Escavando as Raízes Inconscientes
A abordagem neuropsicanalítica pode ajudar a:
- Tornar conscientes as identificações inconscientes que orientam o desejo: a quem nos atraímos e por quê?
- Investigar as repetições: por que escolhemos repetidamente o mesmo tipo de parceiro?
- Elaborar os traumas que moldam a aversão: que experiências passadas tornaram certos estímulos repulsivos?
- Diferenciar entre desejo genuíno e compulsão à repetição.
Exercício: A Genealogia do Desejo
1. Liste as pessoas por quem você se sentiu atraído ao longo da vida.
2. Para cada uma, anote: o que as atraía? O que tinham em comum? O que as diferenciava?
3. Pergunte: estas pessoas se assemelham a alguém da sua história precoce?
4. Reflita: seus padrões de atração têm sido fonte de satisfação ou de repetição de sofrimento?
7.2 TCC: Reestruturando Crenças sobre Atração e Valor
A Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar a:
- Identificar crenças disfuncionais sobre o que é atraente, sobre o próprio valor, sobre o que se "merece".
- Testar evidências: a crença de que "só sou atraente se..." é verdadeira?
- Desenvolver uma relação mais consciente com os próprios padrões de atração.
Reestruturação cognitiva:
Crença Disfuncional | Reestruturação |
"Se não sou atraído por alguém, é porque algo está errado com ela" | "A atração é subjetiva; o que não me atrai pode atrair outro" |
"Devo ser atraído pelo que a sociedade considera atraente" | "Posso reconhecer meus próprios padrões sem me julgar por eles" |
"Se alguém não se sente atraído por mim, é porque não valho nada" | "A atração é complexa; não ser atraente para alguém não define meu valor" |
"Meus padrões de atração são imutáveis" | "Padrões de atração podem evoluir com autoconhecimento e experiência" |
7.3 Educação Social: Desconstruindo Padrões Culturais
A Educação Social pode contribuir para:
- Desnaturalizar padrões de beleza e atração: mostrar que são construções históricas, não verdades eternas.
- Expandir o repertório do que é considerado atraente: apresentar diversidade de corpos, rostos, expressões.
- Questionar a repulsa moral deslocada: por que certos grupos nos causam aversão? Que aprendizagens culturais produziram esta repulsa?
- Criar espaços de encontro entre grupos que se percebem como diferentes.
Parte VIII: Técnicas Práticas para uma Relação Mais Consciente com o Próprio Gosto
8.1 O Diário do Desejo (Neuropsicanálise/TCC)
Objetivo: Mapear os padrões de atração e aversão.
Procedimento:
1. Durante um mês, registre situações em que você sentiu atração intensa ou repulsa significativa.
2. Para cada registro, descreva:
- O estímulo (o que provocou a reação).
- A reação corporal (batimento cardíaco, respiração, tensão).
- A reação emocional (excitação, medo, nojo, alegria).
- Pensamentos associados.
- Lembranças que vieram à mente.
3. Ao final do mês, analise padrões: há recorrências? Há surpresas?
8.2 O Exercício da Suspensão (Fenomenologia)
Objetivo: Experienciar a atração sem imediatamente julgá-la ou agir sobre ela.
Procedimento:
1. Quando sentir atração por alguém, não aja imediatamente.
2. Simplesmente observe: o que estou sentindo? Onde no corpo? Que pensamentos surgem?
3. Pergunte: esta atração é uma resposta ao que esta pessoa realmente é, ou ao que projetei nela?
4. Dê-se tempo para que a atração se estabilize antes de agir.
8.3 O Protocolo de Desconstrução da Repulsa (Educação Social/TCC)
Objetivo: Questionar aversões que podem ser baseadas em preconceito ou desconhecimento.
Procedimento:
1. Identifique um grupo ou tipo de pessoa que lhe causa repulsa (não por ação, mas por características como aparência, identidade, etc.).
2. Pesquise: qual a origem desta repulsa? Aprendi em casa? Na escola? Na mídia?
3. Busque contato sustentado com pessoas deste grupo (filmes, livros, encontros reais).
4. Observe: a repulsa permanece? Se transforma? Se revela como preconceito?
8.4 O Círculo do Gosto (Educação Social)
Objetivo: Explorar a diversidade do gosto em grupo.
Procedimento:
1. Reúna um grupo de pessoas diversas.
2. Cada pessoa compartilha algo que acha belo, atraente, desejável — e algo que acha repulsivo.
3. O grupo escuta sem julgamento, apenas com curiosidade.
4. Ao final, discutem: o que surpreendeu? O que revela sobre a diversidade humana?
Conclusão: O Mistério e a Liberdade
O gosto — o que nos atrai e o que nos repele — é um dos territórios mais íntimos e mais misteriosos da experiência humana. Nele se encontram a biologia e a cultura, o inconsciente e a consciência, o passado e o presente, o individual e o coletivo. Não há resposta única para a pergunta "por que gostamos do que gostamos". Há, isso sim, uma teia de causas — um emaranhado de determinantes biológicos, psicológicos, culturais, relacionais — que produzem, em cada um, um padrão único.
Reconhecer esta complexidade é o primeiro passo para uma relação mais livre com o próprio gosto. Não estamos condenados a repetir os padrões que herdamos; podemos compreendê-los, questioná-los, transformá-los. Não somos escravos de nossos desejos; podemos escolher, em alguma medida, qual desejo cultivar e qual deixar murchar.
Mas há também um mistério que resiste à análise. Há algo no encontro com o outro que não se reduz a causas, que não se explica por teorias. É o que os poetas chamam de "amor à primeira vista", o que os místicos chamam de "reconhecimento", o que os amantes chamam de "química". Algo que acontece, simplesmente, sem porquê.
Talvez esta seja a sabedoria final sobre o gosto: honrar tanto o que podemos compreender quanto o que permanece mistério. Celebrar a diversidade dos desejos humanos sem pretender que todos desejem o mesmo. Aceitar que o que nos atrai pode não atrair o outro — e que isso não faz do outro um estranho, mas um ser humano, como nós, navegando o mistério do seu próprio gosto.
Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert
Ao longo de décadas de clínica, atendi muitas pessoas atormentadas por seus desejos. Algumas se sentiam culpadas pelo que as atraía — desejos que julgavam "errados", "inaceitáveis", "vergonhosos". Outras se sentiam aprisionadas em padrões de atração que só traziam sofrimento. Outras ainda se perguntavam por que não conseguiam sentir atração pelo que "deveriam" sentir.
Como Neuropsicanalista, sei que o desejo tem raízes que se perdem na infância, em identificações precoces, em experiências que deixaram marcas no corpo e na mente. A clínica é o espaço onde estas raízes podem ser examinadas sem vergonha, onde o desejo pode ser acolhido sem julgamento, onde a repetição pode ser interrompida.
Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, ofereço ferramentas para que meus pacientes possam questionar as crenças que aprisionam seu desejo. Para que possam distinguir entre o que desejam porque realmente desejam e o que desejam porque aprenderam que deveriam desejar. Para que possam construir uma relação mais livre e consciente com seus próprios padrões.
Como Educador Social, lembro que o gosto também é político. A sociedade nos ensina o que é belo, o que é desejável, o que é repulsivo. Estes ensinamentos podem ser questionados. Podemos aprender a ver beleza onde nos ensinaram a ver feiura. Podemos desaprender repulsas que nos ensinaram a sentir.
Na NeuropsiOnline, acreditamos que a mudança acontece quando nos permitimos olhar para nossos desejos com curiosidade, não com julgamento. Quando reconhecemos que não há gosto "errado" — há gostos diferentes, que contam histórias diferentes sobre quem somos. Quando aprendemos que a liberdade não está em não ter desejos, mas em escolher, com consciência, qual desejo cultivar.
Se você já se perguntou por que sente atração pelo que sente, ou por que não sente o que "deveria" sentir — saiba que não precisa fazer essa jornada sozinho. O desejo pode ser compreendido. Pode ser transformado. Pode, acima de tudo, ser habitado com menos culpa e mais liberdade.
Um abraço,
Dr. Adilson Reichert
Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social.
NeuropsiOnline. Onde a mudança acontece.
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Referências
- Damásio, A. (1994). O Erro de Descartes.
- Etcoff, N. (1999). A Lei do Mais Belo.
- Freud, S. (1912). Sobre a Tendência Universal à Depreciação na Esfera do Amor.
- Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow.
- Lacan, J. (1964). O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
- Merleau-Ponty, M. (1945). Fenomenologia da Percepção.
- Panksepp, J. (1998). Affective Neuroscience.
- Rozin, P. & Fallon, A.E. (1987). A perspective on disgust. Psychological Review, 94(1), 23-41.
- Sartre, J-P. (1943). O Ser e o Nada.
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