O Leviatã e a Sombra: Por que nos Organizamos em Estado, por que os Governos Erram e o que nos Leva a Escolher um Líder
- Dr° Adilson Reichert

- 12 de mar.
- 19 min de leitura
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Introdução: O Enigma da Gaiola Dourada
Há uma pergunta que atravessa os séculos e assombra filósofos, cientistas políticos e cidadãos comuns: por que abrimos mão de nossa liberdade para viver sob o jugo do Estado? A questão é tão antiga quanto a própria civilização. O Código de Urukagina, escrito por volta de 2350 a.C. na Mesopotâmia, já registrava a palavra "liberdade" — amargi, em sumério, que significava literalmente "retorno à mãe" — e documentava os esforços de um rei para limitar seu próprio poder e proteger os mais fracos da opressão dos fortes .
Eis o paradoxo fundamental da existência política: construímos o Estado para nos proteger de nós mesmos, e passamos o resto da história tentando nos proteger do Estado que construímos. Esta tensão — entre a necessidade de ordem e o risco da tirania, entre a segurança coletiva e a liberdade individual — é o tema central deste artigo.
A partir de uma perspectiva integrativa que conjuga Neuropsicanálise, Terapia Cognitivo-Comportamental e Educação Social, e dialogando com pensadores como Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, Aristóteles, Maquiavel, Nietzsche e a pesquisa contemporânea sobre comportamento eleitoral, exploraremos:
1. A gênese do Estado: por que os humanos abrem mão da liberdade natural para viver em sociedade organizada.
2. As falhas estruturais do governo: por que é tão fácil governar mal e como isso afeta a população.
3. A psicologia do líder: o que leva alguém a querer governar os outros.
4. A psicologia do eleitor: por que escolhemos A em vez de B, e o papel das emoções, identificações e racionalidade nessa escolha.
5. Perspectivas integrativas: como a clínica pode contribuir para uma cidadania mais consciente.
A tese central é que o Estado é uma construção ambígua — simultaneamente nossa maior conquista civilizatória e nossa mais persistente fonte de frustração — e que compreender suas raízes psicológicas e políticas é condição para não sermos governados por nossas próprias sombras.
Parte I: A Gênese do Estado — Por que Abrimos Mão da Liberdade?
1.1 Hobbes e o Medo como Fundador da Civilização
O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) ofereceu, em sua obra Leviatã (1651), a mais influente explicação para a origem do Estado. Hobbes parte de uma hipótese: o estado de natureza, uma condição hipotética em que os humanos vivem sem governo, sem leis, sem autoridade comum .
Neste estado, segundo Hobbes, todos os homens são naturalmente iguais — iguais na capacidade de matar uns aos outros. Desta igualdade de capacidade, emerge uma igualdade de esperança de atingir os próprios fins. Quando duas pessoas desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo, e ambos não podem tê-la, tornam-se inimigas. E assim, do conflito de desejos, nasce a guerra de todos contra todos (*bellum omnium contra omnes*).
Hobbes descreve a vida no estado de natureza como "solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta". Não há indústria, porque seus frutos são incertos; não há agricultura, navegação, comércio; não há conhecimento, artes, letras; não há sociedade. Apenas medo contínuo e perigo de morte violenta .
Diante deste cenário aterrador, a razão humana — que Hobbes define como capacidade de calcular consequências — sugere um caminho: o contrato social. Os indivíduos, movidos pelo medo da morte violenta e pelo desejo de uma vida confortável, concordam em transferir seu direito natural de governar a si mesmos para um soberano absoluto. Este soberano, o Leviatã, é a personificação do poder comum, capaz de impor a paz e a segurança .
Para Hobbes, portanto, o Estado não é uma criação divina nem uma expressão da natureza social humana. É um artifício, uma construção racional, um "deus mortal" criado pelos homens para escapar do horror da guerra perpétua. O preço da paz é a submissão.
1.2 Rousseau e a Inocência Perdida pela Propriedade
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) oferece uma visão radicalmente diferente. Em seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755), Rousseau pinta um retrato idílico do estado de natureza: o "bom selvagem" vive isolado, com necessidades simples, movido por dois princípios fundamentais — o amor de si (autoconservação) e a piedade (compaixão natural pelo sofrimento alheio) .
Neste estado, não há propriedade privada, não há competição, não há conflito. O homem natural é livre, autossuficiente e feliz. Mas algo muda. O desenvolvimento da razão, da linguagem e da sociabilidade cria novas necessidades. As famílias se formam, as primeiras comunidades surgem. E então acontece o que Rousseau considera o momento decisivo da história humana:
"O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: 'Não ouçais esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e a terra não pertence a ninguém!'" .
A propriedade privada é a origem de toda desigualdade. Os ricos, para proteger seus bens, criam o Estado e as leis — um pacto que, sob a aparência de justiça, na verdade consolida e legitima a desigualdade. O homem nasce livre, e por toda parte encontra-se acorrentado.
Para Rousseau, o Estado não é uma solução, mas um problema. É a institucionalização da desigualdade, a máscara que encobre a dominação dos fracos pelos fortes. A única saída seria um contrato social legítimo, em que os cidadãos, reunidos em assembleia, criam leis que expressam a vontade geral — não a soma das vontades individuais, mas o interesse comum da coletividade.
1.3 A Visão Antropológica: O Estado como Descontinuidade Cultural
O antropólogo Lawrence Krader, em sua Teoria Antropológica do Estado, oferece uma perspectiva que sintetiza e transcende as visões clássicas. Krader pergunta: o Estado é universal? Está presente em todas as sociedades humanas? Sua resposta é um não enfático .
Krader distingue entre governo (que existe em todas as sociedades) e Estado (que é uma forma particular, complexa e tardia de organização). Seguindo a trilha de Robert Lowie, que em 1926 escreveu A Origem do Estado, Krader argumenta que as sociedades humanas simples — bandos, aldeias, clãs — se organizam através de laços locais ou de parentesco. O Estado surge quando essas formas simples são transcendidas, quando associações que vão além da aldeia e do parentesco se formam e se consolidam .
Para Krader, a presença do Estado marca uma descontinuidade cultural. Sociedades com Estado são qualitativamente diferentes das sociedades sem Estado. Não se trata de um continuum evolutivo, mas de um salto — uma nova forma de integração social, com instituições explícitas, complexas e formais de governo .
Aristóteles, o iniciador destas investigações, já afirmava que o homem é por natureza um animal político (*zoon politikon*) — um ser que vive em cidades, em comunidades. Mas Aristóteles sabia que nem todos os homens são civilizados; civilizar-se é a grande tarefa política, que só se realiza plenamente em condições civilizadas .
1.4 Síntese: O Estado como Resposta ao Dilema Humano
As três visões — Hobbes, Rousseau, Krader — não são mutuamente excludentes. Elas iluminam diferentes aspectos da complexa relação entre o ser humano e a organização política.
De Hobbes, herdamos a percepção de que o medo e a insegurança são motores poderosos da vida social. O Estado nasce como resposta à nossa capacidade de nos destruirmos mutuamente. De Rousseau, herdamos a suspeita de que o Estado pode ser uma armadilha — uma instituição que, criada para proteger, acaba por oprimir. Da antropologia, aprendemos que o Estado não é inevitável; é uma invenção histórica, uma descontinuidade, que pode desaparecer ou se transformar.
O Estado, em suma, é a nossa tentativa de resolver o paradoxo fundamental da existência humana: somos indivíduos, mas só sobrevivemos em grupo. Precisamos dos outros, mas os outros nos ameaçam. Criamos o Leviatã para nos proteger, e passamos o resto da história tentando domar o monstro que criamos.
Parte II: As Falhas do Governo — Por que é Tão Fácil Governar Mal
2.1 A Natureza do Poder e a Corrupção
Lord Acton, historiador inglês do século XIX, cunhou a frase que se tornou lugar-comum mas nem por isso menos verdadeira: "O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente". A afirmação, repetida à exaustão, merece ser examinada em sua profundidade.
Por que o poder corrompe? A neuropsicanálise oferece uma pista: o poder ativa os mesmos circuitos de recompensa cerebral que drogas como a cocaína. Estudos de neuroimagem mostram que a sensação de controle e domínio sobre outros libera dopamina no núcleo accumbens, criando um ciclo de retroalimentação positiva — quanto mais poder, mais desejo de poder. O governante, aos poucos, deixa de ver os cidadãos como sujeitos e passa a vê-los como meios para a manutenção e expansão de seu próprio poder.
Maquiavel, em O Príncipe (1513), foi o primeiro a descrever a política como ela é, não como deveria ser. Para Maquiavel, o governante eficaz não pode se dar ao luxo de ser moral no sentido cristão; ele deve estar disposto a usar a crueldade quando necessário, a quebrar promessas quando conveniente, a parecer virtuoso sem necessariamente sê-lo. O fim — a estabilidade do Estado, a segurança dos cidadãos — justifica os meios .
Mas Maquiavel não era um imoralista; era um realista. Ele sabia que os governantes, humanos como são, falham. Falham por vaidade, por ignorância, por má avaliação das circunstâncias. E quando falham, quem paga o preço é a população.
2.2 A Complexidade Inadministrável
Uma das razões fundamentais para a falência recorrente dos governos é a complexidade inadministrável das sociedades modernas. O economista Friedrich Hayek argumentava que o conhecimento necessário para planejar centralmente uma economia — ou uma sociedade — é simplesmente inacessível a qualquer mente ou comitê. O conhecimento é disperso, tácito, localizado. Tentar concentrá-lo nas mãos de planejadores centrais é uma receita para o desastre.
O filósofo Karl Popper, em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, estendeu esta crítica ao que chamou de engenharia social utópica — a tentativa de redesenhar completamente a sociedade de acordo com um plano ideal. Popper argumentava que a história está repleta de exemplos de planos grandiosos que, ao serem implementados, produziram sofrimento em massa: o comunismo soviético, o nazismo, o Khmer Vermelho. A alternativa, para Popper, era a engenharia social gradualista — reformas pontuais, testadas empiricamente, corrigidas à luz de seus resultados.
2.3 A Teoria da Escolha Pública e o Interesse Próprio dos Governantes
A teoria da escolha pública (*public choice theory*), desenvolvida por economistas como James Buchanan e Gordon Tullock, aplica os pressupostos da economia ao comportamento dos agentes políticos. A ideia central é simples: políticos e burocratas não são anjos; eles são movidos pelos mesmos incentivos que movem as pessoas comuns — interesse próprio, desejo de poder, de prestígio, de renda.
Esta perspectiva, por mais cínica que pareça, tem enorme poder explicativo. Ela ajuda a entender por que:
- Políticos prometem o que não podem cumprir: para serem eleitos.
- Burocratas expandem seus orçamentos: porque seu poder e prestígio dependem do tamanho de suas organizações.
- Grupos de interesse capturam agências reguladoras: porque têm incentivos concentrados para influenciar decisões, enquanto os custos são dispersos entre a população.
O resultado é o que os economistas chamam de falha de governo (*government failure*) — situações em que a intervenção estatal, longe de corrigir falhas de mercado, piora a situação, criando ineficiências, distorcendo incentivos e gerando benefícios para poucos às custas de muitos.
2.4 Os Custos Humanos do Erro de Governo
As falhas de governo não são abstratas; elas têm rostos, nomes, histórias. Quando um governo erra:
- Na saúde pública: vacinas que não chegam, hospitais que não funcionam, epidemias que se alastram.
- Na educação: crianças que não aprendem, jovens sem perspectivas, um futuro hipotecado.
- Na economia: desemprego, inflação, pobreza, desigualdade.
- Na segurança: violência, medo, morte.
O historiador israelense Yuval Harari observa que as grandes tragédias do século XX não foram causadas por desastres naturais, mas por falhas de governo — decisões equivocadas tomadas por líderes que acreditavam estar agindo corretamente, ou que agiam movidos por interesses escusos, ou simplesmente por incompetência.
Parte III: A Psicologia do Líder — O que Leva Alguém a Querer Governar os Outros?
3.1 Nietzsche e a Vontade de Poder
Friedrich Nietzsche, o filósofo do martelo, ofereceu a análise mais profunda da vontade de poder como motor fundamental da ação humana. Para Nietzsche, a vontade de poder não é apenas desejo de dominar os outros, mas a pulsão fundamental de toda vida — a tendência a crescer, expandir-se, superar-se.
O desejo de governar, nesta perspectiva, é uma manifestação particularmente intensa da vontade de poder. O líder é aquele em quem esta pulsão se expressa de forma mais direta, menos sublimada. Mas Nietzsche advertia: o verdadeiro líder não é aquele que busca poder pelo poder, mas aquele que usa o poder para criar, para afirmar valores, para elevar a humanidade. O "além-do-homem" (*Übermensch*) é criador de valores, não mero dominador.
O problema, claro, é que a vontade de poder pode se degenerar em mero desejo de dominação. Quando isso acontece, o líder transforma-se em tirano — e a tirania, para Nietzsche, é a forma mais baixa de poder, porque não cria nada, apenas suprime.
3.2 Adler e o Complexo de Inferioridade
O psicólogo Alfred Adler, discípulo dissidente de Freud, ofereceu uma perspectiva complementar. Para Adler, o desejo de poder é frequentemente uma compensação para sentimentos de inferioridade. A criança que se sente pequena e impotente pode, quando adulta, buscar posições de comando para provar a si mesma que não é mais aquela criança frágil.
Esta teoria ajuda a explicar certos padrões patológicos de liderança:
- O líder que não tolera críticas, porque qualquer crítica reativa a ferida narcísica original.
- O líder que precisa estar sempre certo, porque admitir erro é reviver a humilhação infantil.
- O líder que acumula poder sem limites, porque nenhuma quantidade de poder é suficiente para preencher o vazio interno.
A psicanálise acrescenta que muitos líderes são movidos por uma identificação com figuras parentais poderosas — o pai autoritário, a mãe controladora — e buscam, no exercício do poder, repetir ou vingar essas relações primárias.
3.3 Maquiavel e as Virtudes do Príncipe
Maquiavel, como bom realista, não se pergunta sobre as motivações do governante, mas sobre as qualidades que o tornam eficaz. Em O Príncipe, ele lista algumas:
- Flexibilidade moral: a capacidade de agir conforme as circunstâncias exigem, não conforme princípios abstratos.
- Capacidade de dissimular: parecer virtuoso sem necessariamente sê-lo.
- Crueldade bem utilizada: aplicar a força de forma decisiva, quando necessário, e depois não repetir.
- Generosidade calculada: não ser tão generoso a ponto de esgotar os recursos do Estado, nem tão mesquinho a ponto de ser odiado.
Maquiavel sabia que estas qualidades são raras. A maioria dos governantes é medíocre — e a mediocridade, no poder, pode ser tão perigosa quanto a maldade.
3.4 A Neuropsicanálise do Poder
A neuropsicanálise contemporânea acrescenta que o poder tem efeitos mensuráveis no cérebro. Estudos mostram que:
- O poder reduz a atividade do córtex pré-frontal medial, área envolvida na tomada de perspectiva e na empatia. Governantes poderosos literalmente perdem a capacidade de se colocar no lugar do outro.
- O poder aumenta a liberação de testosterona, que por sua vez aumenta a confiança e a propensão ao risco — mas também a agressividade e a impulsividade.
- O poder ativa o sistema de recompensa de forma semelhante às drogas, criando dependência.
Estes achados sugerem que o poder não apenas atrai pessoas com certas características; ele também transforma quem o exerce, frequentemente para pior.
Parte IV: A Psicologia do Eleitor — Por que Escolhemos A em Vez de B?
4.1 Os Três Modelos do Comportamento Eleitoral
A ciência política desenvolveu três modelos principais para explicar como os eleitores decidem seu voto :
1. Modelo Sociológico: O voto é determinado pela posição do eleitor na estrutura social — classe, religião, região, etnia. As pessoas votam como seus pais votavam, como seus vizinhos votam, como sua classe social "deveria" votar. Este modelo enfatiza a estabilidade do voto e a influência dos grupos de pertencimento .
2. Modelo Psicossocial: O voto é mediado por fatores psicológicos, especialmente a identificação partidária. Desenvolvida através da socialização primária (especialmente na família), a identificação com um partido funciona como um filtro através do qual o eleitor processa informações políticas. A identificação partidária é estável, mas pode ser influenciada por fatores de curto prazo (candidatos, temas, conjuntura) .
3. Modelo da Escolha Racional: O eleitor é um consumidor político, que calcula custos e benefícios e vota no candidato que maximiza sua utilidade esperada. Este modelo enfatiza a volatilidade do voto e a importância de fatores de curto prazo — desempenho econômico, propostas específicas, avaliação de governos .
Nenhum dos modelos, isoladamente, explica toda a complexidade do comportamento eleitoral. A pesquisa contemporânea aponta para a complementaridade entre eles .
4.2 Emoções, Identificação e o Voto Inconsciente
Uma dissertação recente da Universidade Católica de Santos investigou o papel das emoções na definição do voto, utilizando software de análise facial (FaceReader) durante a exibição de propaganda eleitoral. A hipótese norteadora era que a identificação com o candidato, despertada pelas emoções, é determinante para a definição do voto .
O estudo parte de dois eixos centrais: a identificação, postulado de Freud no qual todos encontram um objeto para se assemelhar e assim passar a seguir; e as emoções, como fator interveniente do comportamento e do processo de escolha .
A pesquisa mostra que os eleitores frequentemente escolhem candidatos com os quais estabelecem vínculos emocionais — por vezes inconscientes — antes mesmo de avaliar racionalmente suas propostas. A propaganda política explora sistematicamente este fenômeno, usando imagens, música, narrativas que ativam respostas emocionais automáticas .
O psicólogo social Jon Krosnick, da Universidade de Stanford, criou uma analogia útil: a escolha do voto é como escolher um amigo para recomendar um filme. Há três tipos de "amigos eleitorais": o que tem o mesmo gosto que você (identificação ideológica); o que é bem informado (competência percebida); e o que já acertou antes (experiência passada). Cada eleitor pode priorizar um destes critérios, e pode mudar de critério ao longo da campanha .
4.3 Vieses Cognitivos e Heurísticas
A psicologia cognitiva identificou diversos vieses que afetam a decisão do voto:
- Viés de confirmação: tendemos a buscar e valorizar informações que confirmam nossas crenças pré-existentes, ignorando ou desqualificando evidências contrárias.
- Viés de negatividade: respondemos mais intensamente a informações negativas sobre candidatos do que a informações positivas. O marketing eleitoral explora isto através de propaganda negativa contra adversários .
- Aversão à perda: sofremos mais ao perder algo que valorizamos do que ao deixar de ganhar algo de valor similar. Isto explica por que campanhas que enfatizam o risco de perda de conquistas (como programas sociais) podem ser tão eficazes .
- Heurística da disponibilidade: julgamos a probabilidade de eventos pela facilidade com que exemplos vêm à mente. Um crime recente pode superdimensionar a percepção de insegurança.
4.4 A Influência do Contexto: Tamanho da Cidade, Mídia, Dinheiro
Pesquisas sobre eleições municipais no Brasil mostram que o comportamento eleitoral varia conforme o tamanho do município :
- Em cidades pequenas, a memória eleitoral (votos obtidos pelo partido na eleição anterior) e os recursos financeiros de campanha têm maior importância.
- Em grandes centros urbanos, o tempo de TV e rádio e os recursos financeiros são mais determinantes. A memória eleitoral quase não importa.
Isto sugere que o eleitor em diferentes contextos processa informações de maneira distinta — e que campanhas bem-sucedidas adaptam suas estratégias a estas diferenças.
4.5 A Fragilidade das Opiniões Políticas
Um estudo clássico de Gregory Markus (1982) mostrou que as opiniões dos eleitores sobre políticas públicas são surpreendentemente instáveis. Cerca de 30% dos entrevistados mudaram de posição sobre temas como relações com a União Soviética ao longo de sucessivas entrevistas. Markus atribuiu parte desta instabilidade à complexidade dos temas — longe demais do cotidiano do eleitor — e parte à influência do marketing eleitoral .
Esta fragilidade das opiniões políticas tem implicações preocupantes para a democracia. Se os eleitores não têm opiniões firmes sobre as questões substantivas, o voto pode ser determinado por fatores superficiais — aparência, simpatia, um bordão de campanha — em vez de escolhas informadas sobre projetos de sociedade.
Parte V: Perspectivas Integrativas — Como a Clínica Pode Contribuir para uma Cidadania Mais Consciente
5.1 Neuropsicanálise: Desvendando as Identificações Inconscientes
A abordagem neuropsicanalítica pode ajudar os cidadãos a compreender as raízes inconscientes de suas escolhas políticas:
- Identificações primárias: com quem aprendemos a nos identificar politicamente — pais, figuras de autoridade, heróis culturais? Que marcas essas identificações deixaram em nossa psique?
- Projeções e deslocamentos: quanta da nossa raiva contra certos políticos é, na verdade, raiva deslocada de outras fontes — frustrações pessoais, insatisfações profissionais, conflitos familiares?
- Fantasias de salvação: tendemos a projetar em líderes carismáticos a fantasia de que alguém virá nos salvar, resolver nossos problemas, realizar nossos desejos. Esta fantasia, quando não examinada, é a porta de entrada para o autoritarismo.
A clínica pode oferecer um espaço para elaborar estas identificações, tornando o eleitor mais consciente de seus próprios processos psíquicos e, portanto, menos manipulável.
5.2 TCC: Reestruturando Crenças Políticas Disfuncionais
A Terapia Cognitivo-Comportamental pode contribuir identificando e modificando crenças disfuncionais sobre política:
Crença Disfuncional | Reestruturação |
"Um político honesto pode resolver todos os problemas do país" | "Problemas complexos exigem soluções complexas; nenhum líder, por mais honesto, pode resolver tudo sozinho" |
"Se meu candidato perder, o país estará perdido" | "Instituições democráticas são mais resilientes do que parecem; derrotas eleitorais são temporárias" |
"Política é tão complicada que não adianta tentar entender" | "Política é complicada, mas posso aprender o básico; minha ignorância me torna vulnerável à manipulação" |
"Todos os políticos são iguais, todos são corruptos" | "Generalizações absolutas raramente são verdadeiras; há diferenças significativas entre candidatos e partidos" |
5.3 Educação Social: Formando o Cidadão Crítico
A Educação Social tem um papel fundamental na formação de uma cidadania consciente:
- Alfabetização política: ensinar conceitos básicos de política, economia, direito, para que o cidadão possa compreender o que está em jogo nas eleições.
- Pensamento crítico: desenvolver a capacidade de avaliar informações, identificar manipulação, distinguir fato de opinião.
- Participação comunitária: criar espaços de engajamento político local, onde o cidadão possa experimentar a política como construção coletiva, não apenas como escolha solitária na urna.
- Memória histórica: preservar a memória de erros e acertos do passado, para que não sejam repetidos.
5.4 Técnicas Práticas para uma Cidadania Mais Consciente
1. O Diário Político:
Registre, durante o período eleitoral:
- Que emoções cada candidato desperta em você?
- Que promessas parecem mais atraentes? Por quê?
- Que informações você busca para decidir seu voto? De onde vêm?
Ao final, analise: suas escolhas são mais emocionais ou racionais? Mais baseadas em identificação ou em propostas?
2. O Exercício da Alternância:
Escolha um candidato com quem você não simpatiza. Por uma semana, dedique-se a entender seus argumentos, suas propostas, sua visão de mundo. Não para mudar de voto, mas para compreender o que sua própria posição exclui.
3. O Círculo de Diálogo Político:
Reúna um pequeno grupo de pessoas com diferentes visões políticas. Estabeleça regras: respeito, tempo igual para todos, proibição de ataques pessoais. Discutam um tema específico. O objetivo não é convencer o outro, mas compreender como pessoas bem-intencionadas podem chegar a conclusões diferentes.
4. A Análise da Propaganda:
Assista à propaganda eleitoral com um olhar crítico:
- Que emoções estão sendo mobilizadas? (medo, esperança, raiva, orgulho)
- Que promessas são feitas? São realistas?
- Que informações concretas são oferecidas sobre propostas, currículo, realizações passadas?
- Que técnicas de manipulação podem estar sendo usadas?
Conclusão: O Leviatã que Habita em Nós
A existência do Estado, as falhas do governo, a psicologia dos líderes e a psicologia dos eleitores — todos estes fenômenos estão ligados por um fio comum: a natureza ambígua, contraditória, complexa do ser humano.
Somos Hobbes e somos Rousseau. Tememos a guerra de todos contra todos, e por isso criamos o Leviatã. Mas também anelamos pela liberdade perdida, e por isso desconfiamos do monstro que criamos.
Nossos líderes são movidos pela vontade de poder — às vezes criadora, às vezes destrutiva. Nós, eleitores, somos movidos por emoções, identificações, racionalidade limitada — um misto de cálculo e afeto que escapa a qualquer modelo simples.
O que a história nos ensina — de Urukagina a Maquiavel, de Hobbes a Popper — é que não há soluções definitivas. O Estado sempre falhará em alguma medida, porque é feito por humanos falíveis. Os líderes sempre nos decepcionarão em algum grau, porque são humanos como nós. A democracia será sempre imperfeita, porque é o governo de imperfeitos sobre imperfeitos.
Mas esta constatação, longe de levar ao cinismo ou à apatia, pode nos conduzir a uma vigília permanente — a disposição de não delegar cegamente, de não confiar sem verificar, de não desistir de participar. Como disse o filósofo Karl Popper, a democracia não é o governo do povo, mas o sistema em que podemos nos livrar dos governantes sem derramamento de sangue. É um sistema para lidar com governantes imperfeitos, não para produzir governantes perfeitos.
O Leviatã não é um deus mortal, como pensava Hobbes. É uma criatura humana, tão falível quanto nós. Mas é a única criatura que temos. Cuidar dela, vigiá-la, reformá-la quando necessário — esta é a tarefa interminável da política. E, como toda tarefa interminável, é também a tarefa que nos mantém humanos.
Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert
Ao longo deste artigo, percorremos um território vasto — da Mesopotâmia antiga às neurociências contemporâneas, de Hobbes a Nietzsche, das teorias do voto aos vieses cognitivos. Se há uma lição que emerge desta travessia, é que a política não é um campo separado da vida psíquica. As mesmas forças que nos movem nas relações íntimas — medo, desejo, identificação, projeção, raiva, esperança — movem-nos também na arena pública.
Como Neuropsicanalista, sei que muitas de nossas escolhas políticas são guiadas por processos inconscientes — identificações com figuras parentais, projeção de conflitos internos, fantasias de salvação. Trazer estes processos à consciência não é garantia de sabedoria, mas é condição para não sermos governados por eles.
Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, ofereço ferramentas para que meus pacientes possam examinar suas crenças políticas com o mesmo rigor com que examinam suas crenças sobre si mesmos. Para que possam distinguir entre fatos e interpretações, entre desejos e realidades, entre medos justificados e ansiedades deslocadas.
Como Educador Social, lembro que a cidadania não se aprende nos livros, mas na prática. Nos espaços de diálogo, nos conselhos comunitários, nas associações de bairro, nas lutas coletivas — é aí que se forma o cidadão capaz de escolher com consciência e de cobrar com firmeza.
Na NeuropsiOnline, acreditamos que a mudança acontece quando nos tornamos sujeitos de nossa própria história — inclusive da história política. Quando deixamos de ser massa de manobra e nos tornamos cidadãos. Quando compreendemos que o Estado não é um ente abstrato, mas uma construção nossa, para o bem e para o mal.
Se você sente que a política o confunde, que os candidatos o manipulam, que o sistema o exclui — saiba que não precisa navegar essas águas sozinho. A compreensão de si mesmo é o primeiro passo para a compreensão do mundo. E a compreensão do mundo é o primeiro passo para transformá-lo.
Um abraço,
Dr. Adilson Reichert
Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social.
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Referências
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- Oliva, R.S. (2023). A liberdade (im)possível na definição do voto. Universidade Católica de Santos .
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- Sparemberger, A. & Sparemberger, C. (2018). O processo de decisão de voto: uma revisão bibliográfica dos modelos teóricos da decisão de voto dos eleitores. Paraná Eleitoral, 7(1), 33-50 .
- Rodrigues, E.C. (2017). Estado de natureza em Rousseau e os primeiros progressos em direção ao estado civil. Universidade Estadual do Ceará .
- Burgarelli, R. (2016). Voto inconsciente: o que o brasileiro leva em conta para decidir seu candidato a prefeito? Instituto Humanitas Unisinos .
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- Jorge, M.C. O homem natural como fundamento do estado em Rousseau. PhilPapers .
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O nosso futuro social depende da consciência sobre decisões e interesses!