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A Realidade Partida: Uma Jornada pela Psicose, seus Labirintos e a Possibilidade do Reencontro

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Quando o mundo desaba, a mente constrói outro — e a clínica precisa estar à altura desse desafio


Ela chegou ao consultório acompanhada pela mãe, uma mulher de cerca de quarenta anos que mantinha a cabeça levemente inclinada, como se estivesse escutando algo que ninguém mais podia ouvir. Quando finalmente falou, sua voz era hesitante, como quem atravessa um campo minado: "Doutor, eles me disseram que eu estou doente. Mas como posso estar doente se eu sei que as vozes são reais? Elas me contam coisas que ninguém sabe. Me avisam dos perigos. Me protegem. Por que todos querem me convencer de que é mentira?"


A pergunta que ela me fez — "como posso estar doente se minha realidade é verdadeira para mim?" — é o coração pulsante da psicose. Não se trata de falta de inteligência ou de fraqueza de caráter. Trata-se de uma reorganização radical da própria experiência do real. O mundo que a maioria de nós compartilha torna-se, para o psicótico, uma construção suspeita, um teatro de ilusões, uma conspiração que precisa ser decifrada. E, nesse processo, ele constrói outro mundo — um mundo que, para ele, é mais verdadeiro do que o nosso.


A psicose é, talvez, o território mais desafiador da clínica e da existência humana. Não porque o psicótico seja "inacessível" — como a psicanálise clássica chegou a supor —, mas porque sua estrutura psíquica opera segundo uma lógica diferente da nossa. E compreender essa lógica, sem reduzi-la a mero "desarranjo químico" ou a "perda de contato com a realidade", é o primeiro passo para uma escuta verdadeiramente ética e eficaz.


Este artigo é uma travessia pela psicose em todas as suas dimensões. Com a bússola da psicanálise (Freud, Lacan), da neurociência, da psicologia cognitivo-comportamental e da educação social, exploraremos:

  • O que é a psicose — e por que a definição psiquiátrica e a psicanalítica, embora diferentes, se complementam.

  • As estruturas clínicas: a diferença fundamental entre neurose, psicose e perversão, e o que isso significa para a clínica.

  • Os principais transtornos psicóticos e seus subtipos — da esquizofrenia ao transtorno delirante, passando pelo transtorno esquizoafetivo e pela psicose breve.

  • Os sintomas — positivos, negativos, cognitivos e afetivos — e como eles se manifestam no cotidiano.

  • O sofrimento do indivíduo e de sua família — o impacto devastador, mas também as possibilidades de reconstrução.

  • Como lidar com a psicose: abordagens integrativas que combinam medicação, psicoterapia, psicoeducação e apoio psicossocial.

  • E, sobretudo, como a clínica pode se tornar um espaço de reconstrução do laço social — mesmo quando o laço parece ter se rompido.


Dialogaremos com Sigmund Freud (a psicose como desligamento da realidade), Jacques Lacan (a foraclusão do Nome-do-Pai e as três estruturas clínicas), Melanie Klein (as posições esquizoparanóide e depressiva), Carl Jung (a psicose como invasão do inconsciente coletivo), a neurociência (o papel da dopamina, da inflamação e dos fatores genéticos e ambientais) e a clínica contemporânea (a TCC para psicose, a psicoeducação familiar e a reabilitação psicossocial).


Ao final, compreenderemos que a psicose não é uma sentença, mas um desafio — para o paciente, para a família e para o terapeuta. E que, com a abordagem certa, é possível não apenas reduzir o sofrimento, mas reconstruir uma vida com sentido, mesmo quando a realidade parece ter se partido.


Parte I: O Que é a Psicose? A Perda de Contato com a Realidade


1.1 A Definição Psiquiátrica: Sintomas e Critérios


Do ponto de vista psiquiátrico, a psicose é definida como uma condição mental caracterizada pela perda de contato com a realidade. A pessoa em estado psicótico não possui controle sobre suas ações e apresenta uma série de sintomas que indicam essa desconexão.


O Manual MSD (APA) define psicose como a presença de delírios, alucinações, pensamento e fala desorganizados, e comportamento motor bizarro e inapropriado (incluindo catatonia) que indicam perda de contato com a realidade. Não se trata de um diagnóstico em si, mas de um sintoma que pode estar presente em diversos transtornos.


A psicose não é uma escolha, nem uma fraqueza, nem uma falha moral. É uma alteração profunda do funcionamento cerebral, com causas que vão desde fatores genéticos e biológicos até experiências traumáticas e uso de substâncias.


1.2 A Definição Psicanalítica: O Desligamento da Realidade


Para a psicanálise, a psicose é compreendida de forma estrutural, não apenas sintomática. Freud descreveu a psicose como um quadro no qual o sujeito se desliga da realidade por achá-la insuportável. Em lugar da realidade que o aflige, ele constrói um delírio — uma realidade alternativa que "corrige" o que ele considera intolerável.


Essa definição é fundamental porque nos ajuda a compreender que o delírio não é um erro grosseiro, uma alucinação qualquer. É uma tentativa de cura — uma tentativa desesperada do psiquismo de restaurar um sentido que se perdeu. O psicótico não está simplesmente "errado" sobre a realidade; ele está construindo uma realidade que faça sentido para ele, porque a realidade compartilhada se tornou insuportável.


Freud postulou que a diferença estrutural entre neurose e psicose reside no destino do afeto e no tipo de conflito envolvido. Na neurose, há um conflito entre o ego e o id; na psicose, há uma ruptura mais radical — um colapso do próprio ego em sua capacidade de lidar com a realidade.


1.3 A Estrutura Psicótica segundo Lacan: A Foraclusão do Nome-do-Pai


Jacques Lacan avançou a compreensão freudiana ao propor que a psicose é uma estrutura clínica distinta, caracterizada pela foraclusão (Verwerfung) do Nome-do-Pai — o significante que, na neurose, organiza o campo simbólico e permite a mediação entre o sujeito e o Outro.


Em termos mais simples: para Lacan, o ser humano se constitui como sujeito através da linguagem e da lei simbólica (representada pelo Nome-do-Pai). Na neurose, essa lei é internalizada (mesmo que de forma conflituosa); na psicose, ela é expulsa do simbólico — e retorna no real, sob a forma de alucinações, delírios e fenômenos corporais estranhos.


Lacan distinguiu três estruturas clínicas fundamentais, cada uma correspondendo a um mecanismo de defesa primário:

Estrutura

Mecanismo de Defesa

Relação com a Falta

Neurose

Recalque

O sujeito reconhece a falta, mas a recusa

Psicose

Foraclusão (expulsão)

A falta é expulsa do simbólico; retorna no real

Perversão

Desmentido

O sujeito reconhece a falta, mas a nega


O psicótico, portanto, não é alguém que "recalcou" um desejo; é alguém que não pôde inscrever a lei fundamental que organiza o desejo. Por isso, sua relação com o Outro, com a linguagem e com o próprio corpo é radicalmente diferente da do neurótico.


Parte II: As Estruturas Clínicas — Neurose, Psicose e Perversão


2.1 Neurose: Conflito e Recalque


A neurose é a estrutura mais comum na clínica psicanalítica. Nela, o sujeito recalca um desejo ou conteúdo psíquico intolerável, que retorna sob a forma de sintoma. O neurótico reconhece a falta (a castração, a impossibilidade de completude), mas luta contra ela, desenvolvendo defesas como a formação reativa, a projeção e o isolamento do afeto.


Os dois grandes diagnósticos dentro da neurose são:

  • Histeria: o conflito se manifesta através de sintomas corporais (conversão) ou fobias (angústia).

  • Neurose obsessiva: o conflito se manifesta através de pensamentos intrusivos, rituais e dúvida constante.


2.2 Psicose: Foraclusão e Delírio


Na psicose, o mecanismo não é o recalque, mas a foraclusão — a expulsão do significante fundamental que organiza o desejo. O psicótico não reconhece a falta; ele a expulsa do campo simbólico. E, como o que foi expulso não desaparece, ele retorna no real — na forma de alucinações, delírios e fenômenos de automatismo mental.


O delírio, nessa perspectiva, não é um erro, mas uma tentativa de restaurar o sentido — de reconstruir, com os fragmentos disponíveis, um mundo que faça sentido para o sujeito. É por isso que não adianta contradizer o delírio do psicótico: ele não está errado sobre a realidade; ele está construindo outra realidade, e essa construção é sua defesa contra o colapso total.


2.3 Perversão: Desmentido


A perversão, a terceira estrutura, opera pelo desmentido — o sujeito reconhece a lei, mas a nega na prática. O perverso sabe que a lei existe, mas age como se ela não se aplicasse a ele. É uma estrutura menos comum na clínica, mas igualmente importante para a compreensão da diversidade psíquica.


2.4 A Importância Clínica da Distinção Estrutural


Compreender a diferença entre neurose, psicose e perversão não é um exercício acadêmico; é uma ferramenta clínica essencial. O manejo de um paciente neurótico é radicalmente diferente do manejo de um paciente psicótico:

  • Na neurose, o terapeuta pode interpretar, confrontar e trabalhar com o conflito simbólico.

  • Na psicose, a interpretação clássica é ineficaz e pode ser prejudicial. O psicótico precisa de uma escuta que respeite sua construção delirante sem aderir a ela, e de um trabalho de reconstrução do laço social — não de confronto com a "irrealidade" de suas crenças.


Como observou a clínica psicanalítica, "o psicótico é uma pessoa quase sempre inofensiva que se difere de nós em apenas alguns poucos aspectos". O desafio não é "corrigi-lo", mas compreendê-lo e oferecer-lhe um espaço onde sua construção possa ser escutada.


Parte III: Os Transtornos Psicóticos — Tipos e Subtipos


A psicose não é uma doença única, mas um sintoma que pode aparecer em diversos transtornos. A classificação psiquiátrica atual (DSM-5-TR) organiza os transtornos psicóticos em um espectro.


3.1 Esquizofrenia


A esquizofrenia é o transtorno psicótico mais conhecido e estudado. Caracteriza-se por psicose (perda de contato com a realidade), com sintomas que incluem alucinações, delírios, fala e comportamento desorganizados, sintomas negativos (afeto embotado, restrição da expressão emocional) e déficits cognitivos.


Critérios diagnósticos (DSM-5-TR):

  • ≥ 2 dos seguintes sintomas, sendo pelo menos um dos três primeiros:

    1. Delírios

    2. Alucinações

    3. Fala desorganizada

    4. Comportamento desorganizado ou catatônico

    5. Sintomas negativos (afeto plano, apatia, anhedonia)

  • Duração ≥ 6 meses

  • Prejuízo significativo no funcionamento social, ocupacional ou acadêmico


Prevalência: aproximadamente 0,7% da população mundial, o que corresponde a cerca de 23 milhões de pessoas. A doença geralmente começa no final da adolescência ou início da idade adulta, com início mais precoce em homens do que em mulheres.


Fatores de risco:

  • Predisposição genética

  • Vida urbana e pobreza

  • Trauma na infância e negligência

  • Infecções pré-natais

  • Consumo de maconha, especialmente na adolescência


3.2 Transtorno Esquizofreniforme


Semelhante à esquizofrenia, mas com duração entre 1 e 6 meses. Se os sintomas persistirem além de 6 meses, o diagnóstico é atualizado para esquizofrenia.


3.3 Transtorno Esquizoafetivo


Caracteriza-se pela coexistência de sintomas psicóticos e de transtorno do humor (depressão ou mania). Os sintomas psicóticos devem estar presentes por ≥ 2 semanas na ausência de sintomas do humor.


3.4 Transtorno Delirante (Paranoide)


Caracteriza-se pela presença de um ou mais delírios com duração ≥ 1 mês, sem outros sintomas psicóticos proeminentes. Os delírios podem ser de vários tipos:

  • Persecutório: acreditar que está sendo vigiado, perseguido ou conspirando contra si

  • Erotomaníaco: acreditar que alguém (geralmente de status superior) está apaixonado por si

  • De grandeza: acreditar ter poder, talento ou importância excepcionais

  • Somático: acreditar ter uma doença ou defeito físico grave

  • Ciúmes: acreditar que o parceiro é infiel

  • Misto: combinação de temas


3.5 Transtorno Psicótico Breve


Episódio psicótico com duração inferior a 1 mês. Geralmente é ativado por um fator estressante extremo e pode estar relacionado a transtornos de personalidade borderline.


3.6 Transtorno Psicótico Induzido por Substância ou por Condição Médica


A psicose pode ser causada por substâncias (maconha, cocaína, corticosteroides, anticolinérgicos, etc.) ou por condições médicas (demência, Parkinson, AVC, encefalite, distúrbios endócrinos). Nestes casos, o tratamento deve focar na causa subjacente.


3.7 A Evolução da Classificação: Dos Subtipos às Dimensões


Historicamente, a esquizofrenia era dividida em subtipos: paranoide, catatônica, desorganizada (hebefrênica), residual, simples e indiferenciada. No entanto, desde a publicação do DSM-5 (2013), esses subtipos foram abandonados por apresentarem baixa estabilidade diagnóstica e pouca utilidade clínica. Hoje, o foco está na avaliação dimensional dos sintomas.


Parte IV: Os Sintomas da Psicose — As Muitas Faces do Sofrimento


4.1 Sintomas Positivos: O que se Acrescenta


Os sintomas positivos são manifestações que surgem e se somam ao funcionamento habitual do indivíduo. São chamados de "positivos" não porque são bons, mas porque estão presentes — são acréscimos à experiência normal.

Principais sintomas positivos:

  • Delírios: crenças falsas mantidas com firmeza, mesmo diante de evidências contrárias. Podem ser persecutórios ("estão me vigiando"), de grandeza ("sou um ser especial"), de referência ("as notícias falam de mim"), entre outros.

  • Alucinações: percepções sem estímulo externo. As mais comuns são as alucinações auditivas (ouvir vozes), mas podem ser visuais, táteis ou olfativas.

  • Fala desorganizada: discurso incoerente, com frases sem conexão lógica, neologismos (palavras inventadas) ou "salada de palavras".

  • Comportamento desorganizado: agitação, impulsividade, comportamento bizarro ou inapropriado.

  • Comportamento catatônico: imobilidade prolongada, mutismo, rigidez postural, ou agitação psicomotora intensa.


4.2 Sintomas Negativos: O que se Perde


Os sintomas negativos representam perdas ou reduções de funções emocionais e sociais. São chamados de "negativos" porque faltam — são ausências.

Principais sintomas negativos:

  • Apatia: falta de interesse e motivação

  • Isolamento social: retraimento, afastamento de familiares e amigos

  • Embotamento afetivo: redução ou ausência de expressão emocional

  • Alogia: pobreza da fala, respostas breves e lacônicas

  • Anedonia: incapacidade de sentir prazer

  • Falta de energia e iniciativa


Os sintomas negativos são particularmente desafiadores porque são resistentes aos antipsicóticos e têm grande impacto no funcionamento social e ocupacional.


4.3 Sintomas Cognitivos: O que se Dificulta


Os sintomas cognitivos afetam habilidades mentais essenciais para o dia a dia:

  • Déficit de atenção

  • Comprometimento da memória

  • Dificuldade de planejamento e organização

  • Prejuízo na função executiva

  • Dificuldade na tomada de decisões


4.4 Sintomas Afetivos e Comportamentais


Além dos sintomas psicóticos centrais, podem coexistir:

  • Depressão

  • Ansiedade

  • Oscilações do humor

  • Agitação ou agressividade

  • Confusão mental

  • Dificuldade para organizar pensamentos

  • Mudanças bruscas nos hábitos de sono, alimentação e higiene


Parte V: O Sofrimento — Do Indivíduo e de Quem o Ama


5.1 O Sofrimento do Indivíduo: Solidão, Medo e Desorientação


O indivíduo em estado psicótico vive em um mundo que, para ele, é aterrorizante e confuso. As vozes que ouve podem ser ameaçadoras, os delírios persecutórios geram medo constante, e a desorganização do pensamento torna impossível distinguir o real do imaginário.


O que muitos não compreendem é que o psicótico sofre intensamente. Não é "indiferente" à sua condição; muitas vezes, ele está aterrorizado com o que experimenta. A sensação de estar sendo vigiado, de que todos conspiram contra si, de que há algo terrivelmente errado — tudo isso gera um sofrimento que poucos conseguem imaginar.


Além disso, há a solidão. O psicótico sabe, em algum nível, que sua experiência não é compartilhada. Ele vê as pessoas ao seu redor vivendo em um mundo que ele não consegue acessar. As tentativas de explicar o que sente são frequentemente recebidas com incompreensão, incredulidade ou medo. O isolamento social, que é um sintoma, torna-se também uma defesa: é mais seguro ficar sozinho do que enfrentar o olhar de quem não entende.


5.2 O Sofrimento da Família: Medo, Culpa e Exaustão


O impacto da psicose na família é devastador. Os familiares frequentemente experimentam:

  • Medo: diante de ações imprevisíveis do parente

  • Culpa: questionando-se se poderiam ter feito algo para prevenir

  • Exaustão: o cuidado contínuo, a vigilância constante e a sobrecarga emocional

  • Angústia: a sensação de impotência diante da doença

  • Luto: pela pessoa que "era" e que parece ter se perdido


O cuidador familiar frequentemente assume uma posição central dentro do núcleo familiar, o que pode gerar desequilíbrio nas relações e sobrecarga. Muitos familiares relatam que a psicose do ente querido toma conta de toda a vida da família — os irmãos são negligenciados, o casamento dos pais se desgasta, as atividades sociais são abandonadas.


5.3 O Impacto nas Relações Interpessoais


As relações interpessoais sofrem porque:

  • O medo de julgamento leva ao afastamento

  • A desconfiança e os delírios persecutórios tornam difícil manter amizades

  • A desorganização do comportamento afasta as pessoas

  • A falta de insight dificulta a adesão ao tratamento


O estigma também é um fator importante. A sociedade muitas vezes vê o psicótico como "perigoso" ou "imprevisível", o que aprofunda o isolamento e a exclusão.


Parte VI: Como Lidar com a Psicose — Abordagens Integrativas


6.1 O Tratamento Farmacológico: Os Antipsicóticos


Os medicamentos antipsicóticos são a base do tratamento da psicose. Eles atuam principalmente bloqueando os receptores de dopamina no cérebro, reduzindo ou eliminando sintomas como delírios e alucinações.

Existem dois grupos principais:

  • Antipsicóticos típicos (de primeira geração)

  • Antipsicóticos atípicos (de segunda geração) — preferidos por terem perfil de efeitos colaterais mais favorável


A clozapina é reservada para casos resistentes ao tratamento. É importante ressaltar que a psicose não tem cura no sentido de eliminação completa, mas o tratamento segue por toda a vida e permite controle dos sintomas.


6.2 A Psicoterapia: TCC para Psicose


A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem se mostrado eficaz no tratamento da psicose, com objetivos específicos:

  • Melhorar o insight: ajudar o paciente a reconhecer a natureza de seus sintomas

  • Aumentar a adesão ao tratamento: reduzir a resistência à medicação

  • Desenvolver autonomia e bem-estar

  • Reduzir o sofrimento associado aos sintomas

  • Ensinar estratégias de enfrentamento: para lidar com vozes e delírios


Diferentemente da abordagem clássica com neuróticos, a TCC para psicose não confronta o delírio; ela ajuda o paciente a questionar suas crenças de forma gradual, a reduzir o sofrimento associado a elas e a desenvolver estratégias para lidar com os sintomas sem que eles dominem sua vida.


6.3 Psicoeducação Familiar: Um Pilar Essencial


A psicoeducação familiar é uma das intervenções mais eficazes no tratamento da psicose. Seus objetivos são:

  • Educar a família sobre a psicose: seus sintomas, causas, tratamento e prognóstico

  • Reduzir o estigma: ajudar a família a compreender que a psicose é uma doença, não uma falha de caráter

  • Capacitar os familiares: para lidar com os sintomas, prevenir recaídas e oferecer apoio eficaz

  • Melhorar a comunicação dentro da família

  • Reduzir o estresse ambiental, que é um fator de risco para recaídas


A psicoeducação familiar é um complemento essencial para a reabilitação psicossocial da pessoa com psicose.


6.4 Reabilitação Psicossocial


A reabilitação psicossocial visa restaurar o funcionamento social, ocupacional e comunitário. Inclui:

  • Treino de habilidades sociais: para melhorar a interação com os outros

  • Programas de apoio comunitário

  • Apoio para emprego e educação

  • Grupos de suporte para pacientes e familiares


6.5 A Escuta Clínica na Psicose: A Contribuição da Psicanálise


A psicanálise, especialmente em sua vertente lacaniana, oferece uma escuta específica para a psicose. Em vez de confrontar o delírio ou tentar "corrigir" a visão de realidade do paciente, o psicanalista:

  • Escuta o delírio como uma construção de sentido

  • Respeita a lógica interna do paciente

  • Trabalha o laço social — a relação do paciente com o Outro — que é o ponto central da psicose

  • Evita a interpretação clássica, que pode ser vivida como persecutória


O objetivo não é "curar" a psicose (no sentido de eliminar o delírio), mas oferecer um espaço onde o paciente possa construir um sentido que lhe permita viver — mesmo que esse sentido não seja o da realidade compartilhada.


Parte VII: A Prevenção e a Intervenção Precoce


7.1 A Importância da Intervenção Precoce


A detecção e o diagnóstico precoces melhoram o funcionamento em longo prazo. Quanto mais cedo a psicose é identificada e tratada, melhores são os resultados.

Os sinais de alerta na fase prodrômica (anterior ao surto psicótico) incluem:

  • Perda de concentração

  • Humor depressivo

  • Alterações do sono

  • Ansiedade

  • Isolamento social

  • Desconfiança crescente


7.2 Fatores de Risco Modificáveis


A pesquisa tem identificado fatores de risco que podem ser modificados:

  • Consumo de maconha, especialmente na adolescência

  • Trauma e maus-tratos na infância

  • Estresse psicossocial excessivo

A prevenção passa por:

  • Educação sobre os riscos do consumo de substâncias

  • Intervenção precoce em situações de trauma

  • Redução do estigma e promoção do apoio social


7.3 O Estado Inflamatório como Alvo Terapêutico


Pesquisas recentes mostram que muitos pacientes com psicose apresentam um estado inflamatório de baixo grau. Este estado pode ser desencadeado por:

  • Consumo de maconha

  • Maus-tratos na infância

  • Estresse crônico


Compreender a inflamação como parte da fisiopatologia da psicose abre novas possibilidades terapêuticas.


Conclusão: A Psicose como Desafio e como Possibilidade


A psicose não é uma sentença. É um desafio — para o paciente, para a família, para o terapeuta e para a sociedade. É o desafio de habitar um mundo onde a realidade se partiu, e de encontrar, nos fragmentos, uma maneira de reconstruir o sentido.


O psicótico não está "errado" sobre a realidade; ele está construindo outra realidade para sobreviver a uma dor que a realidade compartilhada não consegue conter. O delírio não é um erro; é uma tentativa de cura. E a clínica, quando é ética, não tenta destruir essa construção, mas oferecer um espaço onde ela possa ser escutada — e, quem sabe, transformada.


A abordagem integrativa — que combina medicação, TCC, psicoeducação familiar, reabilitação psicossocial e escuta psicanalítica — é a que oferece as melhores chances de redução do sofrimento, melhora do funcionamento e reconstrução do laço social.


E, acima de tudo, é preciso lembrar: o psicótico é uma pessoa. Uma pessoa que sofre, que teme, que deseja, que ama. Uma pessoa que, apesar de tudo, merece ser vista, escutada e acolhida — não como um caso, mas como um ser humano.


Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert


Com o tempo na clínica, testemunhei o estigma e o sofrimento que cercam a psicose. Pacientes que foram tratados como "loucos", "perigosos" ou "irrecuperáveis". Famílias que foram abandonadas à própria sorte, sem informação, sem apoio, sem esperança. E, também, testemunhei a transformação que ocorre quando uma abordagem integrativa é oferecida: quando a medicação é associada à psicoterapia, quando a psicoeducação empodera a família, quando o paciente encontra um espaço onde sua experiência é levada a sério.


Como Neuropsicanalista, sei que a psicose tem raízes profundas na estrutura psíquica — mas sei também que a estrutura não é imutável. A neuroplasticidade, a escuta clínica e o vínculo terapêutico podem abrir brechas na rigidez, podem oferecer novas possibilidades de sentido.


Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, ofereço ferramentas para que o paciente possa desenvolver insight, reduzir o sofrimento e recuperar o controle sobre sua vida. A TCC não confronta o delírio; ela trabalha com ele, ajudando o paciente a encontrar maneiras de conviver com seus sintomas sem que eles o dominem.


Como Educador Social, sonho com um mundo onde a psicose não seja estigmatizada, mas compreendida. Onde as famílias recebam apoio, não julgamento. Onde o paciente psicótico não seja isolado, mas integrado. Onde a saúde mental seja um direito, não um privilégio.


Na NeuroPsiOnline, acreditamos que a mudança é possível. Não a mudança que "cura" a psicose — isso seria uma pretensão desonesta —, mas a que transforma a relação do paciente com sua própria experiência. A que reduz o sofrimento, amplia a autonomia e reconstrói o laço social.


Se você ou alguém que você ama vive com psicose — ou se você é profissional da saúde mental e busca ferramentas para uma abordagem mais integrativa — saiba que não precisa fazer essa jornada sozinho.


A psicose é um desafio. Mas, como todo desafio, também é uma possibilidade — a possibilidade de encontrar, nos fragmentos, uma nova forma de ser.


Um abraço,


Dr. Adilson Reichert

Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social


NeuroPsiOnline. Onde a mudança acontece.


(CTA – Call to Action)


Você ou alguém próximo vive com psicose? Sente que o diagnóstico é uma sentença, que não há esperança? A família está desgastada, os relacionamentos se romperam, o isolamento parece inevitável?


A psicose não é o fim. É o começo de um novo tipo de desafio — e há caminhos para enfrentá-lo. Entre em contato conosco e descubra como a abordagem integrativa — que combina a profundidade da psicanálise, a precisão da TCC, a eficácia da psicoeducação e a potência do apoio psicossocial — pode ajudar a reduzir o sofrimento, reconstruir laços e devolver a esperança.


Se a realidade se partiu — é possível reconstruí-la, fragmento por fragmento.


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Referências


FREUD, S. "Neuropsicoses de defesa" (1894). In: Obras Completas.

FREUD, S. "O Inconsciente" (1915). In: Obras Completas.

LACAN, J. O Seminário, livro 3: As psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LACAN, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1957). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

KLEIN, M. Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). Porto Alegre: Artmed, 2023.

KESHAVAN, M. S. "Esquizofrenia". In: Manuais MSD para Profissionais. Harvard Medical School, 2025.

ZUELLI, F. C. et al. "Psicose: uma nova abordagem para entender o transtorno". Jornal da USP, 2025.

SILVA, B. S. "A construção do conceito de psicose de Freud a Lacan". Pepsic, 2018.

LEMES, C. B. et al. "Aplicações da psicoeducação no contexto da saúde". Pepsic, 2017.

COSTA, I. I. et al. "Família e psicose: reflexões psicanalíticas e sistêmicas". Pepsic, 2008.


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