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A Linguagem como Espelho do Tempo: Transformações Linguísticas e a Construção Psicossocial da Realidade

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Introdução: Quando as Palavras Envelhecem


Há menos de um século, uma avó portuguesa ou brasileira poderia, ao ver o neto travesso, exclamar: "Olha Maria, aquele menino puxou aos seus, esculpido em mármore Carrara!" Hoje, a mesma ideia seria vertida em "Aquele menino é cuspido e escarrado ao pai". As palavras mudaram — "Carrara" desapareceu do léxico, "esculpido em mármore" cedeu lugar à metáfora escatológica —, mas a intenção comunicativa permaneceu. O que esta metamorfose linguística nos revela sobre a natureza humana? Mais do que um simples registro de arcaísmos, a evolução da linguagem é a crônica viva das transformações da consciência coletiva, das mutações da moral e da tessitura mesma da experiência subjetiva.


A tese central deste artigo é que a linguagem não é um mero instrumento de comunicação, mas a própria argamassa que estrutura a realidade psicossocial. As palavras que usamos — e, sobretudo, as que deixamos de usar — moldam o que podemos pensar, sentir e valorizar. As "verdades" que hoje nos parecem autoevidentes eram impensáveis para nossos antepassados, não porque fossem menos inteligentes, mas porque habitavam um universo linguístico distinto, com seus próprios contornos de possibilidade e sentido. Quando a linguagem se transforma, transforma-se junto o edifício da subjetividade humana, gerando crises existenciais que são, no fundo, crises de significado.


Neste ensaio, debruçamo-nos sobre a relação entre a evolução da linguagem, a moralidade e a psicologia humana, à luz de pensadores que fizeram da língua seu objeto de investigação. Dialogando com a filosofia da linguagem de Wittgenstein e Heidegger, com a sociolinguística de Labov, com o construtivismo social de Berger e Luckmann, com a psicologia histórico-cultural de Vygotsky e com a arqueologia do saber de Foucault, exploraremos como as palavras constroem mundos, instituem normas e, eventualmente, desmoronam, deixando o sujeito contemporâneo à deriva em um oceano de significados em constante mutação.


Parte I: A Evolução da Linguagem — O Rio que Nunca é o Mesmo


1.1 Variação e Mudança: A Língua como Organismo Vivo


A ideia de que a língua evolui com o tempo é, hoje, um truísmo. Contudo, a compreensão dos mecanismos que governam essa evolução exigiu séculos de reflexão. As variações linguísticas — as diferenças que uma língua apresenta mediante fatores como região, condição social e época — são a matéria-prima da mudança linguística. A variação histórica ou diacrônica, em particular, trata das transformações que ocorrem com o desenvolvimento da história, como a passagem do português arcaico ao moderno.


Um exemplo paradigmático é a evolução do pronome de tratamento "você". No português arcaico, a forma usual era "vossa mercê", que, por sucessivas reduções fonéticas, passou a "vosmecê" e, finalmente, a "você" — forma incorporada pela norma-padrão, com ulteriores reduções para "cê" ou "vc" na comunicação informal. O que parece uma simples curiosidade etimológica é, na verdade, a ponta de um iceberg: a transformação linguística reflete mudanças mais profundas nas relações sociais, na hierarquia e na intimidade. "Vossa mercê" era um tratamento deferente; "você" democratizou a interlocução, esmaecendo as fronteiras de status que outrora estruturavam o tecido social.


Palavras inteiras desaparecem, como atesta o inventário de "50 palavras antigas que desapareceram da língua portuguesa": "vitrola", "tabefe", "sacripanta", "basbaque", "petiz", "quiproquó", "balela", "supimpa".... Cada uma delas carregava um universo semântico e afetivo que se perdeu. "Supimpa", gíria dos anos 1950 para designar algo excelente, foi substituída por "da hora" ou "top" — e com ela desapareceu uma certa ingenuidade vocabular que contrasta com a ironia autoconsciente da linguagem juvenil contemporânea.


1.2 A Sociolinguística Laboviana: A Língua como Fenômeno Social


Foi William Labov, nos anos 1960, quem conferiu estatuto científico à investigação da variação linguística como fenômeno social. Em sua obra seminal The Social Stratification of English in New York City (1966), Labov demonstrou que a variação linguística não é aleatória, mas sistematicamente correlacionada com fatores sociais como classe, gênero e etnia. Em seu estudo clássico de Martha's Vineyard, observou como a comunidade local, reagindo à invasão de veranistas, intensificou traços dialetais distintivos como forma de afirmação identitária.


A lição fundamental de Labov é que a língua não evolui em um vácuo abstrato, mas como parte de um ecossistema social complexo. As inovações linguísticas emergem em grupos específicos, difundem-se através de redes sociais e, eventualmente, podem ser adotadas pela comunidade mais ampla ou, ao contrário, estigmatizadas e extintas. A mudança linguística é, portanto, um barômetro sensível das transformações sociais, dos conflitos de classe e das negociações de identidade que definem uma época.


Parte II: Linguagem e Pensamento — Os Limites do Dizível


2.1 A Hipótese Sapir-Whorf: A Linguagem como Cárcere ou Janela?


Se a língua muda com o tempo, muda também a maneira como os falantes percebem e conceituam o mundo? Esta é a questão central da hipótese Sapir-Whorf, também conhecida como relativismo linguístico. Proposta nos anos 1930 pelos linguistas Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, a hipótese postula que as pessoas vivem segundo suas culturas em universos mentais muito distintos que estão exprimidos — e talvez determinados — pelas diferentes línguas que falam.


A versão "forte" da hipótese, o determinismo linguístico, sustenta que a língua determina o pensamento — uma ideia que remonta a Wilhelm von Humboldt, para quem seria impossível haver pensamento sem linguagem. A versão "fraca", mais aceita atualmente, propõe que a língua que uma pessoa fala influencia sua cognição e percepção, sem determiná-la de forma absoluta.


Embora a versão forte tenha sido amplamente refutada pela psicologia cognitiva contemporânea, a versão fraca encontra respaldo em evidências empíricas. Falantes de línguas que marcam gramaticalmente a evidencialidade (a fonte da informação) tendem a ser mais atentos à distinção entre conhecimento direto e indireto. Línguas que possuem termos específicos para matizes de cores influenciam a velocidade de discriminação cromática. A linguagem não aprisiona o pensamento, mas o orienta, como trilhos que sugerem certos caminhos e desencorajam outros.


2.2 Wittgenstein: Os Limites da Linguagem e a Crises do Sentido


Poucos pensadores exploraram tão radicalmente a relação entre linguagem e realidade quanto Ludwig Wittgenstein. Em seu Tractatus Logico-Philosophicus (1921), Wittgenstein afirmou de forma lapidar: "Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo". A linguagem, para o primeiro Wittgenstein, é um espelho lógico da realidade — e aquilo que não pode ser dito claramente deve ser calado.


O contexto histórico desta obra é revelador. O Tractatus foi concebido como uma resposta às crises culturais da Viena fin-de-siècle: uma crise de valores, uma crise do sujeito e, sobretudo, uma crise da linguagem — o questionamento generalizado sobre a capacidade de a linguagem expressar a realidade e os sentimentos inerentes ao sujeito. A Primeira Guerra Mundial havia demolido as certezas do século XIX, e com elas a confiança na transparência da comunicação humana. A filosofia de Wittgenstein foi, em grande medida, uma tentativa de circunscrever o que ainda podia ser dito com sentido em um mundo que parecia ter perdido o sentido.


O "segundo Wittgenstein", das Investigações Filosóficas (1953), abandonou o ideal de uma linguagem logicamente perfeita e passou a conceber a linguagem como uma multiplicidade de "jogos de linguagem" (Sprachspiele), cada qual enraizado em uma "forma de vida" (Lebensform). O significado não é mais uma relação abstrata entre palavra e objeto, mas uma função do uso em contextos sociais concretos. Compreender uma linguagem é dominar uma técnica, participar de uma prática social compartilhada. Esta virada pragmática tem implicações profundas: se o significado depende do uso, e se os usos mudam com o tempo e com as formas de vida, então a "verdade" que uma linguagem expressa é sempre local, histórica e precária.


Parte III: Linguagem, Moral e Ética — A Gramática dos Valores


3.1 A Linguagem Moral: Do "Dever Ser" ao "Ser"


A moral, entendida como conjunto de regras e normas que regulam o comportamento em sociedade, é indissociável da linguagem. Como observa a filosofia moral, a linguagem moral jamais diz o que é, mas sim o que deve ser — ela se constitui como princípios e normas do bem e do permitido, mas também do mal e do proibido. A moral é, portanto, uma dimensão performativa da linguagem: ao enunciar "não matarás", não se descreve um fato, mas se institui uma obrigação.


Ocorre que as formulações linguísticas da moral também evoluem. O que era "pecado" na Idade Média tornou-se "crime" na modernidade jurídica e, em certos contextos contemporâneos, "escolha pessoal" ou "estilo de vida". As palavras não são neutras: elas carregam consigo sistemas inteiros de valoração e legitimação. Quando uma sociedade deixa de chamar determinado ato de "pecado" e passa a chamá-lo de "diversidade", não está apenas mudando um rótulo — está reconfigurando o próprio horizonte moral em que os sujeitos se movem.


3.2 A Teoria dos Atos de Fala: Quando Dizer é Fazer


A filosofia da linguagem do século XX, com J.L. Austin e John Searle, trouxe uma contribuição decisiva para a compreensão do nexo entre linguagem e moral: a teoria dos atos de fala. Austin demonstrou que certos enunciados não descrevem a realidade, mas a transformam. Dizer "eu prometo" é realizar o ato de prometer; dizer "eu vos declaro marido e mulher" é instituir um vínculo jurídico e social.


Ora, a moralidade é tecida precisamente por estes atos de fala performativos. Promessas, juramentos, condenações, absolvições, bênçãos, maldições — todos são atos linguísticos que criam realidades morais. E, como a linguagem evolui, também evoluem as formas e os efeitos destes atos. Um juramento de fidelidade feudal não tem o mesmo significado que um contrato de trabalho contemporâneo, ainda que ambos envolvam compromissos. As palavras mudam, e com elas mudam as obrigações que nos vinculam uns aos outros.


3.3 Foucault: Discurso, Poder e a Produção da Verdade


Michel Foucault radicalizou a análise da relação entre linguagem e moral ao introduzir a dimensão do poder. Para Foucault, o discurso não é apenas um meio de expressão, mas um dispositivo de poder que produz aquilo que nomeia. As formações discursivas — os modos como se fala sobre a loucura, a sexualidade, o crime — não descrevem realidades preexistentes; elas as constituem, definindo o que pode ser dito, por quem e com que autoridade.


A moral, nesta perspectiva, é um regime discursivo: um conjunto de enunciados que, sustentados por instituições e práticas, estabelecem o que é normal e o que é desviante, o que é virtuoso e o que é vicioso. Quando a linguagem moral se transforma — por exemplo, quando a homossexualidade deixa de ser classificada como "transtorno mental" nos manuais diagnósticos —, transforma-se também a experiência subjetiva dos indivíduos que eram capturados por aquelas categorias. A mudança linguística é, aqui, uma mudança existencial.


Parte IV: Linguagem e Comportamento Social — O Tecido da Vida Coletiva


4.1 A Construção Social da Realidade: Berger e Luckmann


Em sua obra seminal A Construção Social da Realidade (1966), Peter Berger e Thomas Luckmann propuseram que a realidade em que vivemos não é um dado objetivo, mas uma construção social mediada pela linguagem. O processo se dá em três momentos: externalização (pensamentos e ideias que ganham forma), objetificação (a transformação dos pensamentos pela linguagem em realidades objetivas) e interiorização (a assimilação subjetiva dessas realidades).


A linguagem é, para Berger e Luckmann, o mais importante sistema de sinais da sociedade, pois é através dela que a realidade se torna objetivamente disponível e subjetivamente apropriada. A língua não apenas nomeia o mundo, mas o organiza, o classifica, o hierarquiza. Aprender uma língua é aprender a ver o mundo de uma certa maneira, com suas distinções e valores implícitos.


4.2 Bakhtin e o Dialogismo: A Língua como Arena Ideológica


O filósofo russo Mikhail Bakhtin ofereceu uma visão complementar, mas com ênfase no conflito e na multiplicidade. Para Bakhtin, a linguagem é intrinsecamente dialógica: cada enunciado é uma resposta a enunciados anteriores e uma antecipação de respostas futuras. O signo linguístico não é neutro, mas um "signo ideológico" que reflete e refrata a realidade social.


Nesta perspectiva, a evolução da linguagem não é um processo tranquilo de adaptação funcional, mas uma arena de lutas simbólicas. Novas palavras e novos usos emergem de grupos sociais específicos e frequentemente encontram resistência. As gírias juvenis, os jargões profissionais, os socioletos de classes marginalizadas — todos são formas de afirmar identidades e desafiar hegemonias discursivas. A mudança linguística é, assim, um termômetro das tensões sociais e um campo de batalha pela definição legítima da realidade.


Parte V: A Mente Psicológica e a Linguagem —

A Fala Interior e a Crise do Sentido


5.1 Vygotsky e a Internalização da Linguagem


O psicólogo russo Lev Vygotsky foi pioneiro na investigação da relação entre linguagem e desenvolvimento cognitivo. Para Vygotsky, a linguagem não é uma expressão externa de um pensamento já formado, mas o próprio meio pelo qual o pensamento se constitui. A fala social (externa) é progressivamente internalizada, transformando-se em fala egocêntrica e, finalmente, em fala interior — o "discurso para si mesmo" que estrutura a consciência.


Esta tese tem implicações revolucionárias. Se o pensamento é, em sua origem, linguagem internalizada, então as transformações históricas da linguagem — as palavras que surgem e desaparecem, as estruturas sintáticas que se modificam — repercutem diretamente na arquitetura da subjetividade. O sujeito que fala "vossa mercê" não apenas se comunica de forma diferente; ele pensa e se relaciona consigo mesmo de forma diferente. A interiorização da linguagem é a interiorização de uma forma de vida.


5.2 A Crise Existencial como Crise de Linguagem


O que é uma crise existencial? A psicologia contemporânea a define como um período de intenso questionamento sobre o sentido da vida, frequentemente desencadeado por transições, perdas ou pelo confronto com a finitude. Fortes sentimentos de falta de sentido podem invadir a vida diária, criando uma depressão significativa.


Ora, se o sentido é, em larga medida, uma construção linguística, a crise existencial pode ser compreendida como uma crise de linguagem — um momento em que as palavras que antes organizavam a experiência perdem sua eficácia, em que os "jogos de linguagem" que conferiam inteligibilidade ao mundo se desarticulam. Quando um indivíduo diz "minha vida não tem sentido", ele está, no fundo, confessando que o vocabulário herdado para significar a existência já não lhe serve.


Esta perspectiva é corroborada pela observação clínica. Pacientes em crise existencial frequentemente relatam uma sensação de "vazio de palavras", uma incapacidade de nomear o que sentem, ou uma desconfiança em relação aos discursos que antes lhes pareciam sólidos — religiosos, políticos, familiares. A crise existencial é, assim, o sintoma subjetivo de uma transformação mais ampla nos regimes discursivos que sustentam a vida social.


5.3 Verdades de Ontem, Incertezas de Hoje: A Relatividade Histórica do Sentido


A história da linguagem é também a história das "verdades" que cada época considerou inquestionáveis. Para um homem do século XVIII, era uma verdade evidente que a Terra era o centro do universo e que o rei governava por direito divino. Para um vitoriano, era uma verdade que a mulher era naturalmente destinada ao lar e que a sexualidade deveria ser rigidamente contida. Para nossos avós, era uma verdade que "aquele menino puxou aos seus" — uma concepção de hereditariedade que misturava biologia e destino.


Cada uma dessas "verdades" era sustentada por um aparato linguístico específico: palavras, metáforas, narrativas que as tornavam plausíveis e as inscreviam na experiência cotidiana. Quando essas palavras caem em desuso, as "verdades" que elas sustentavam tornam-se, literalmente, indizíveis — ou, quando ditas, soam como arcaísmos pitorescos, desprovidos de força vinculante.


O sujeito contemporâneo vive, assim, em um mundo onde as "verdades" se sucedem em ritmo acelerado. O que era certo ontem é questionado hoje; o que é proclamado hoje será, talvez, ridicularizado amanhã. Esta vertigem de sentido não é um acidente, mas a condição mesma da modernidade — e a linguagem, com sua incessante mutação, é ao mesmo tempo causa e sintoma desta condição.


Parte VI: Perspectivas Integrativas — O que a Trajetória da Linguagem nos Ensina


6.1 Neuropsicanálise: O Inconsciente Estruturado como Linguagem


A psicanálise, desde Freud, reconheceu o papel central da linguagem na constituição do sujeito. Lacan levou esta intuição às últimas consequências ao afirmar que "o inconsciente é estruturado como uma linguagem". Os sintomas neuróticos, os sonhos, os atos falhos — todos são formações do inconsciente que obedecem a leis linguísticas de metáfora e metonímia.


A neuropsicanálise contemporânea acrescenta a esta compreensão uma dimensão neurobiológica: as palavras não são apenas símbolos abstratos, mas realidades materiais que ativam circuitos cerebrais, modulam a liberação de neurotransmissores e esculpem a arquitetura sináptica. A linguagem que internalizamos na infância — com suas palavras de afeto ou de rejeição, de encorajamento ou de humilhação — deixa marcas duradouras no cérebro e no psiquismo.


Se a linguagem muda com o tempo, mudam também as formas de subjetivação que ela possibilita. O sujeito contemporâneo, exposto a um fluxo incessante de informações e a uma multiplicidade de discursos, desenvolve formas de sofrimento psíquico que eram raras ou inexistentes em outras épocas. A ansiedade, a depressão, a sensação de vazio — estas não são apenas categorias diagnósticas, mas experiências subjetivas que emergem de um contexto linguístico e cultural específico.


6.2 Terapia Cognitivo-Comportamental: A Reestruturação da Linguagem Interna


A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) opera, em grande medida, sobre a linguagem interna do paciente. Os "pensamentos automáticos" que a TCC busca identificar e modificar são, precisamente, enunciados que o sujeito dirige a si mesmo: "sou um fracasso", "ninguém gosta de mim", "nada vai dar certo". A terapia consiste, em parte, em ensinar o paciente a reconhecer esses enunciados, a questionar sua validade e a substituí-los por formulações mais adaptativas.


A TCC reconhece, portanto, que a linguagem não é um epifenômeno do sofrimento psíquico, mas seu próprio tecido. Mudar a linguagem interna é mudar a experiência subjetiva. Contudo, a TCC tende a operar em um nível individual, sem tematizar suficientemente o fato de que os "pensamentos automáticos" do paciente são, em grande medida, ecos de discursos sociais mais amplos. O sujeito que se diz "um fracasso" não inventou esta categoria; ele a herdou de um universo linguístico que valoriza certos padrões de sucesso e estigmatiza certas formas de vida.


Uma abordagem mais integrativa exigiria, portanto, articular a reestruturação cognitiva individual com uma consciência crítica das determinações sociais da linguagem. Não basta ensinar o paciente a falar consigo mesmo de forma mais gentil; é preciso ajudá-lo a reconhecer que as palavras que o atormentam não são verdades eternas, mas construções históricas que podem ser desconstruídas.


6.3 Educação Social: A Formação de Sujeitos Críticos da Linguagem


A Educação Social, como campo de saber e prática, tem um papel crucial na formação de sujeitos capazes de compreender e intervir nos processos linguísticos que moldam suas vidas. O preconceito linguístico — a estigmatização de variedades linguísticas não padrão — é uma forma de violência simbólica que reproduz desigualdades sociais. Ensinar que todas as variedades linguísticas são legítimas em seus contextos de uso, e que a norma culta é apenas uma entre muitas, é um ato de justiça social.


Mais do que isso, a Educação Social pode promover uma "alfabetização crítica" que capacite os sujeitos a analisar os discursos que circulam na sociedade, a identificar seus pressupostos ideológicos e a resistir a suas injunções. Em um mundo saturado de informações e de narrativas em competição, a capacidade de ler nas entrelinhas, de reconhecer os "jogos de linguagem" em que se está inserido, é uma competência essencial para a autonomia e a saúde mental.


Conclusão: O Legado das Palavras


A trajetória de uma expressão como "puxou aos seus, esculpido em mármore Carrara" até "cuspido e escarrado" é mais do que uma curiosidade filológica. É a cifra de uma transformação civilizatória: a passagem de um mundo onde a hereditariedade era concebida em termos quase míticos (a semelhança física como destino, como inscrição na pedra) para um mundo onde a mesma ideia é expressa em uma metáfora crua, corporal, quase agressiva. Algo se perdeu — uma certa solenidade, uma certa reverência pelos laços de sangue — e algo se ganhou — uma franqueza desidealizada, uma intimidade que dispensa ornamentos.


A linguagem é o espelho em que a humanidade se contempla. Quando as palavras mudam, é a imagem refletida que se altera. As "verdades" que ontem pareciam inabaláveis revelam-se, à luz de novas palavras, como convenções transitórias. A moral que regia a vida de nossos avós soa, aos nossos ouvidos, ora como sabedoria ancestral, ora como preconceito ultrapassado. E o sujeito contemporâneo, herdeiro de uma tradição que já não o ampara e exposto a um futuro que não consegue nomear, experimenta a vertigem de uma crise existencial que é, no fundo, uma crise de linguagem.


Os pensadores que mobilizamos ao longo deste ensaio — Wittgenstein, Heidegger, Foucault, Labov, Vygotsky, Berger e Luckmann, Bakhtin — convergem em um ponto: a linguagem não é um instrumento neutro, mas a própria substância de que é feita a realidade humana. Compreender a evolução da linguagem é compreender a evolução do espírito humano em suas dimensões cognitiva, moral e afetiva.


A lição que se extrai é dupla. Por um lado, a consciência da historicidade da linguagem nos liberta da tirania das "verdades" de nossa época. Aquilo que hoje nos parece natural e inevitável é, muitas vezes, apenas o produto contingente de uma configuração linguística particular. Por outro lado, essa mesma consciência nos impõe uma responsabilidade: as palavras que escolhemos usar — ou deixar de usar — moldam o mundo que habitamos e as subjetividades que nele se formam. A linguagem é, como dizia Heidegger, "a morada do ser". Cabe a nós torná-la uma morada mais ampla, mais justa e mais acolhedora.


Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert


Ao longo de décadas de clínica, ouvi inúmeras variações da mesma pergunta: "Doutor, por que me sinto tão perdido?" Em muitos casos, o que estava em jogo não era uma patologia no sentido estrito, mas uma desorientação existencial que eu aprendi a reconhecer como uma crise de linguagem. Os pacientes chegavam ao consultório sem palavras para nomear seu sofrimento — ou, pior, com palavras herdadas que já não lhes serviam, que os aprisionavam em narrativas de fracasso, de inadequação, de vazio.


Como Neuropsicanalista, compreendo que essas palavras não são inocentes. Elas foram internalizadas em contextos familiares, sociais e históricos específicos, e carregam consigo cargas afetivas que modulam o funcionamento cerebral e a economia psíquica. O cérebro que aprendeu a se descrever como "incapaz" opera em um registro diferente do cérebro que aprendeu a se descrever como "em desenvolvimento". A neuroplasticidade nos ensina que as palavras que repetimos esculpem sinapses; a psicanálise nos ensina que elas tecem o inconsciente.


Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, ofereço ferramentas para que meus pacientes possam identificar e modificar os enunciados que os atormentam. Mas faço questão de acrescentar: esses enunciados não são apenas "distorções cognitivas" individuais. Eles são, frequentemente, ecos de discursos sociais mais amplos — sobre o que é sucesso, beleza, normalidade. A terapia não pode se limitar a ajustar o indivíduo a um mundo cujas palavras o adoecem; ela deve também ajudá-lo a desenvolver uma relação mais livre e mais crítica com a linguagem que o constitui.


Como Educador Social, insisto que a batalha pela saúde mental é também uma batalha pela linguagem. Combater o preconceito linguístico, valorizar a diversidade de vozes, ensinar a ler criticamente os discursos que nos cercam — tudo isso é parte de uma educação para a autonomia e para o bem-estar. As palavras que usamos para falar de nós mesmos e dos outros não são apenas descrições; são atos que criam realidades.


Na NeuropsiOnline, acreditamos que a mudança acontece quando nos tornamos conscientes da linguagem que nos habita — e quando ousamos encontrar novas palavras para novas formas de viver.


Se você se sente perdido em meio às palavras que herdou, se as "verdades" de ontem já não fazem sentido e as de amanhã ainda não foram inventadas, saiba que não precisa fazer essa travessia sozinho. A crise de linguagem pode ser, também, a oportunidade para uma nova gramática existencial.


Um abraço,

Dr. Adilson Reichert

Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social.


NeuroPsiOnline. Onde a mudança acontece.


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Referências

AUSTIN, J.L. How to Do Things with Words. Oxford: Oxford University Press, 1962.

BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 1992.

BERGER, P.; LUCKMANN, T. A Construção Social da Realidade. Petrópolis: Vozes, 2003.

FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

______. As Palavras e as Coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

HEIDEGGER, M. A Caminho da Linguagem. Petrópolis: Vozes, 2012.

______. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2005.

LABOV, W. The Social Stratification of English in New York City. Washington: Center for Applied Linguistics, 1966.

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SAPIR, E. Language: An Introduction to the Study of Speech. New York: Harcourt, 1921.

VYGOTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

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WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

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