O Preço do Vazio: Quando o Consumo Compensa a Falta de Afeto
- Dr° Adilson Reichert

- há 3 dias
- 16 min de leitura
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Uma Jornada pela Psique Endividada – O Que as Compras Excessivas Revelam sobre Nossa Alma
A cena se repete em meu consultório com uma precisão que beira o clínico. Uma mulher de quarenta anos, executiva bem-sucedida, chega com os olhos marejados. "Doutor, não entendo. Tenho um bom salário, moro num apartamento bonito, viajo para o exterior. Mas estou com o cheque especial estourado, três cartões de crédito no limite e uma sensação horrível de que nada disso preenche o que falta. Toda vez que me sinto sozinha, vou ao shopping. Compro uma bolsa, um sapato, um creme. Sinto um prazer enorme na hora. Mas, quando chego em casa, a bolsa está lá – e eu continuo vazia. O que há de errado comigo?"
Nada de errado – respondo, ecoando Ferenczi. O que há de errado é que você, como milhões de pessoas, aprendeu a confundir consumo com cuidado, posse com pertencimento, prazer com amor. A sociedade de consumo ensinou você a tratar suas feridas afetivas com transações financeiras. E, como qualquer analgésico usado para a dor errada, a compra compulsiva alivia por um instante – e depois agrava a infecção.
Este artigo é uma travessia pela complexa relação entre gastos excessivos, dívida financeira e necessidades afetivas insatisfeitas. Com a bússola da neuropsicanálise, da Terapia Cognitivo-Comportamental e da Educação Social, exploraremos:
Por que gastamos mais do que ganhamos? Qual é o mecanismo psicológico por trás da compra compulsiva?
Como a falta de afeto na infância e as carências relacionais na vida adulta se transmutam em desejo de possuir?
Como identificar se você está nessa armadilha? Quais os sinais de que o consumo virou compensação?
Como sair desse ciclo? Estratégias práticas, individuais e coletivas.
Por que as necessidades afetivas relacionais são tão fundamentais – e como a cultura do hiperconsumo as sequestra?
Dialogaremos com pensadores como John Bowlby (teoria do apego), Donald Winnicott (objeto transicional), Erich Fromm (ter ou ser?), Zygmunt Bauman (modernidade líquida), Jean Baudrillard (sociedade de consumo), Pierre Bourdieu (distinção social), René Girard (desejo mimético), Sigmund Freud (pulsão e objeto), Jacques Lacan (objeto a) e a neurociência do prazer e da recompensa.
Ao final, compreenderemos que o dinheiro gasto além da conta não é apenas uma questão de planejamento financeiro – é um sintoma biopsicossocial. E, como todo sintoma, merece ser escutado, não apenas cortado.
Parte I: A Anatomia do Gasto Excessivo – Quando a Compra Substitui o Abraço
1.1 O Circuito da Recompensa: Por Que Comprar Dá Prazer (E Por Que Esse Prazer Dura Pouco)
O sistema de recompensa do cérebro – o chamado circuito mesolímbico, centrado no núcleo accumbens e na área tegmental ventral – foi desenhado pela evolução para nos motivar a buscar coisas necessárias à sobrevivência: alimento, água, abrigo, acasalamento. A dopamina é o neurotransmissor da antecipação do prazer, não do prazer em si.
Quando vemos um produto desejado, a dopamina dispara. Quando compramos, há outro pico de dopamina. Mas, quando o produto chega em casa, a dopamina cai – e o vazio retorna. Esse é o paradoxo da recompensa: a busca gera mais prazer do que a posse.
A indústria do consumo sabe disso. Por isso, investe pesado em gatilhos de antecipação: lançamentos limitados, promoções relâmpago, notificações de "última chance". Cada notificação é um estímulo condicionado que ativa o mesmo circuito que um sinal de comida ativaria em um rato faminto.
1.2 Da Compra Utilitária à Compra Compensatória: A Virada Afetiva
A compra utilitária responde a uma necessidade real: "Estou com frio, preciso de um casaco". A compra compensatória responde a uma necessidade simbólica: "Estou triste, comprar um casaco me fará sentir melhor". O problema é que o casaco não abraça. O problema é que o tênis novo não valida seu valor como pessoa. O problema é que o celular de última geração não liga para você no dia do seu aniversário.
A psicóloga April Lane Benson, especialista em compras compulsivas, cunhou o termo "gastoterapia" : o uso do ato de comprar para regular emoções negativas como tristeza, solidão, raiva, tédio ou ansiedade. A gastoterapia funciona como qualquer outro comportamento aditivo: alivia o desconforto no curto prazo, mas gera culpa, vergonha e endividamento no longo prazo – que, por sua vez, geram mais desconforto, que gera mais compras. O ciclo vicioso está armado.
Parte II: As Raízes da Carência Afetiva – De Onde Vem Esse Buraco?
2.1 A Teoria do Apego: Bowlby e a Necessidade de Vínculo Seguro
John Bowlby, o pai da teoria do apego, demonstrou que o ser humano é biologicamente programado para buscar proximidade com figuras de cuidado. O apego seguro na infância – a certeza de que a mãe (ou cuidador) está disponível e responde às necessidades – é o alicerce da saúde mental futura.
Quando o apego é inseguro (evitativo, ansioso-ambivalente ou desorganizado), a criança aprende que o mundo não é confiável, que suas necessidades não serão atendidas, que ela não é digna de amor. Esse modelo interno de trabalho – uma espécie de mapa afetivo do mundo – acompanha a pessoa para a vida adulta.
A pessoa com apego ansioso tende a buscar validação externa incessantemente – e o consumo oferece uma validação rápida (embora superficial): "comprei, logo existo". A pessoa com apego evitativo tende a substituir o contato humano por objetos – porque objetos não abandonam, não criticam, não exigem reciprocidade. A pessoa com apego desorganizado oscila entre a fome de contato e o pavor da intimidade – e o consumo oferece uma gratificação solitária, controlável e descartável.
2.2 O Objeto Transicional: Winnicott e o Que o Brinquedo Substitui
Donald Winnicott descreveu o objeto transicional – o ursinho de pelúcia, a fralda, o canto do cobertor – que a criança usa como ponte entre ela e a mãe. O objeto transicional não é a mãe, mas representa a mãe. Ele conforta na ausência dela.
Na vida adulta, muitos objetos de consumo funcionam como objetos transicionais patológicos. O carro novo, a bolsa de grife, o tênis limitado – não são apenas coisas; são substitutos do vínculo. A pessoa os compra para se sentir segura, amparada, especial. Mas, diferentemente do ursinho de pelúcia que ajudava a criança a tolerar a ausência da mãe até seu retorno, o objeto de consumo adulto não aponta para um vínculo real; ele o substitui. E a substituição nunca é completa.
2.3 Ter ou Ser? Erich Fromm e a Inversão dos Valores
Erich Fromm, em Ter ou Ser?, diagnosticou a patologia central da sociedade capitalista: a confusão entre identidade e propriedade. O indivíduo moderno, escreveu Fromm, não é o que vivencia, cria ou ama; ele é o que tem. "Tenho um carro" substitui "vou a algum lugar". "Tenho um diploma" substitui "aprendi algo". "Tenho uma conta bancária" substitui "sou capaz de gerar valor".
Quando o modo "ter" se torna dominante, a perda material é sentida como perda de identidade. Falir não é apenas perder dinheiro; é deixar de ser alguém. Comprar, então, não é adquirir um bem; é reafirmar a existência. A pessoa compra para não se aniquilar.
Fromm também mostrou que o modo "ter" é insaciável. Quanto mais se tem, mais se quer ter – porque o vazio não está no que falta no armário, mas no que falta na alma. O dinheiro compra objetos, mas não compra sentido. E a falta de sentido é a fome mais implacável.
Parte III: A Engenharia Social do Consumo – Por Que a Sociedade Nos Empurra para a Dívida
3.1 O Desejo Mimético: René Girard e a Competição pelo Objeto
René Girard, filósofo e antropólogo, propôs uma teoria revolucionária: o desejo mimético. Não desejamos objetos porque eles são intrinsecamente valiosos; desejamos porque outros os desejam. O objeto desejado é um mediador – aponta para a relação com o outro, não para sua utilidade.
O vizinho comprou um carro novo. Eu não precisava de um carro novo. Mas, ao ver o vizinho desejá-lo, eu também o desejo. E, se eu comprar um carro melhor que o dele, terei vencido – momentaneamente. O desejo mimético transforma a sociedade em uma arena de competição pelo status, onde ninguém nunca ganha porque o padrão de comparação muda assim que se alcança o que se queria.
A indústria do luxo e da moda opera inteiramente sobre essa lógica: não se vende um produto, vende-se uma posição na hierarquia do desejo. Quem compra uma bolsa de R$ 10 mil não está pagando pelo couro ou pela costura; está pagando para se diferenciar daqueles que não podem comprá-la – e para se igualar àqueles que podem.
3.2 A Sociedade do Espetáculo: Guy Debord e a Imagem que Substitui a Vida
Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, descreveu como o capitalismo tardio substitui a experiência real pela representação. Não vivemos mais; assistimos a vidas encenadas. Não amamos mais; consumimos narrativas de amor. Não somos mais; exibimos imagens de ser.
As redes sociais são o espetáculo total. O que importa não é o que se vive, mas o que se posta. A viagem não é para ser vivida, é para ser fotografada. A refeição não é para ser saboreada, é para ser exibida. E a compra – a compra é o instante em que a imagem e a realidade colidem: paga-se pelo objeto, mas o que se consome é a promessa de ser visto.
A dívida, nesse contexto, é o preço da visibilidade. Quem não tem o suficiente para exibir torna-se invisível. E a invisibilidade social, como bem mostrou a neurociência, ativa as mesmas regiões cerebrais que a dor física.
3.3 Modernidade Líquida: Zygmunt Bauman e a Fragilidade dos Vínculos
Zygmunt Bauman cunhou o termo modernidade líquida para descrever uma época em que instituições, relações, identidades e valores perdem sua solidez e se tornam fluidos, temporários, descartáveis. O emprego é temporário. O casamento é temporário. A moradia é temporária. O bairro, a cidade, o país – tudo pode mudar a qualquer momento.
Nesse contexto, os objetos duráveis (ou que parecem duráveis) tornam-se âncoras ilusórias em um mar de incerteza. "Pelo menos minha bolsa é minha. Pelo menos meu carro não vai me abandonar. Pelo menos essa compra eu controlo." O objeto não abandona – e isso é um consolo para quem teme o abandono.
Mas o objeto também não abraça. Ele está lá, mudo, inerte, enquanto a pessoa chora sozinha em seu apartamento mobiliado com coisas lindas. A âncora não segura o barco quando a tempestade é da alma.
Parte IV: Como Identificar a Armadilha – Sinais de que Você Está Compensando Afeto com Consumo
4.1 O Inventário do Vazio: Perguntas para se Fazer
A psicanálise ensina que o primeiro passo para sair de um padrão repetitivo é nomeá-lo. Se você suspeita que seus gastos excessivos têm raízes afetivas, faça este exercício:
Quando você compra? – Há um padrão temporal? Compras aumentam quando você se sente sozinho, frustrado, ansioso, rejeitado?
O que você sente antes de comprar? – Tédio? Vazio? Irritação? Uma sensação de que "algo está faltando"?
O que você sente durante a compra? – Excitação? Prazer? Poder? Alívio?
O que você sente depois da compra? – Culpa? Vergonha? Vazio novamente? Uma breve sensação de preenchimento seguida de queda?
O que acontece com o objeto comprado? – Você o usa, ou ele fica na caixa, na prateleira, esquecido? A emoção estava na posse, não no uso?
Respostas honestas a essas perguntas são um diagnóstico preliminar. Se a maioria das respostas aponta para regulação emocional via consumo, é provável que você esteja na armadilha.
4.2 O Teste do Sentimento de Pertença
Outro sinal poderoso: você compra para pertencer? Compra roupas de determinada marca para se sentir aceito em um grupo? Compra eletrônicos para acompanhar os amigos? Compra itens de decoração para que as visitas aprovem?
O pertencimento comprado é frágil. O grupo que exige que você consuma para ser aceito não é um grupo de pertencimento – é um grupo de competição. O verdadeiro pertencimento não exige prova material. O verdadeiro amigo não checa sua etiqueta. A verdadeira comunidade não tem porteira.
4.3 A Contabilidade Afetiva: O Que Você Gasta vs. O Que Você Recebe em Vínculo
Proponho um exercício clínico: listar, em duas colunas, o que você gasta por mês (valores) e o que você investe em vínculos (tempo, presença, vulnerabilidade). Depois, pergunte-se: por que o valor gasto é tão maior que o tempo investido?
A resposta, muitas vezes, é aterrorizante: porque o dinheiro está disponível, e o afeto não. Porque comprar é fácil, e se abrir é difícil. Porque a loja está sempre aberta, e o amigo pode estar ocupado. Porque o objeto não rejeita, e a pessoa pode dizer não.
Mas o objeto também não acolhe. O objeto não segura sua mão quando você chora. O objeto não diz "eu te entendo". O objeto não ri com você, não cresce com você, não envelhece com você. O objeto é um consolo mudo – e o consolo, como o analgésico, trata o sintoma, não a causa.
Parte V: Como Sair do Ciclo – Estratégias para Trocar o Consumo pelo Cuidado
5.1 A Descoberta do Vazio: Nomear a Dor em Vez de Anestesiá-la
A primeira estratégia é a mais difícil: parar de fugir do vazio. A pessoa que compra compulsivamente está, na verdade, fugindo de uma dor que não consegue nomear. A compra é o analgésico. Mas o analgésico não cura a infecção – apenas a esconde.
A psicoterapia, especialmente a psicanálise e a TCC focada no esquema, oferece um espaço para nomear a dor. "O que eu sinto quando não estou comprando?" Solidão. Medo. Raiva de mim mesmo. Vergonha. Incompetência. Desamparo. Essas são as emoções que a compra silenciava. E são elas que precisam ser elaboradas – não anestesiadas.
Técnica prática: o diário do gatilho. Toda vez que sentir o impulso de comprar algo não essencial, pare. Anote em um caderno: o que aconteceu antes? O que eu senti? O que eu pensei? Depois, ao reler, você começará a ver padrões – e padrões nomeados são padrões que podem ser interrompidos.
5.2 A Demora Intencional: Rompendo o Circuito Dopaminérgico
O impulso de compra, ativado pelo gatilho emocional, dura cerca de 20 a 30 minutos. Se você conseguir adiar a compra por esse período, o pico dopaminérgico diminui, e o córtex pré-frontal recupera o controle.
Técnica prática: a regra das 24 horas. Antes de comprar qualquer item não essencial acima de um valor que você definir (ex: R$ 100), espere 24 horas. Se depois de 24 horas você ainda quiser o item e puder pagar à vista sem comprometer o orçamento, compre. Na grande maioria dos casos, o impulso terá passado.
Outra técnica: o carrinho de compras virtual com prazo. Adicione os itens ao carrinho do site, mas não finalize. Deixe lá por uma semana. Na maioria das vezes, você voltará e não fará questão da maioria dos itens.
5.3 Substituição Consciente: Encontrando Objetos
Transicionais Saudáveis
Se o objeto de consumo funciona como um objeto transicional patológico, podemos gradualmente substituí-lo por objetos transicionais saudáveis:
Em vez de comprar uma roupa nova, ligue para um amigo.
Em vez de comprar um eletrônico, saia para caminhar em um parque.
Em vez de comprar decoração, escreva uma carta para alguém querido.
Em vez de comprar um curso caro (sabotagem de aprendizado), comece com um livro da biblioteca.
O objeto transicional saudável aponta para o vínculo, não o substitui. O ursinho da criança não substitui a mãe; ele a representa na ausência. Da mesma forma, o diário, o instrumento musical, o livro, o projeto criativo – todos podem servir como pontes para o mundo interno e para os outros, não como muralhas.
5.4 Reconstrução da Rede Afetiva: O Pertencimento Real
No longo prazo, a única cura para a falta de afeto é o afeto real. Não existe objeto que substitua um vínculo. Não existe compra que preencha a ausência de um abraço.
A terapia de grupo, os projetos comunitários, o voluntariado, os clubes de interesse mútuo (leitura, caminhada, arte, esporte) – tudo isso são tecnologias de pertencimento. Elas exigem vulnerabilidade, presença, tempo. Elas não são rápidas. Elas não são fáceis. Mas funcionam.
A Educação Social tem um papel crucial aqui: escolas que ensinam habilidades socioemocionais, comunidades que organizam encontros não mediados por telas, políticas públicas que criam espaços de convívio gratuito. O pertencimento não pode ser privatizado.
5.5 A Reeducação Financeira como Ato de Cuidado
Por fim, mas não menos importante: fazer as pazes com o dinheiro. A pessoa que compra compulsivamente muitas vezes tem uma relação ambivalente com as finanças: oscila entre o impulso de gastar e a culpa por gastar. Nunca planeja, nunca poupa, nunca investe em seu próprio futuro.
A reeducação financeira – aprender a fazer um orçamento, a distinguir desejo de necessidade, a poupar para objetivos reais – é um ato de cuidado consigo mesmo. Não é punição. É proteção. É dizer: "Eu mereço um futuro estável. Eu mereço não viver no vermelho. Eu mereço dormir sem medo do cartão de crédito."
Técnicas práticas:
Método 50-30-20: 50% da renda para necessidades, 30% para desejos, 20% para poupança e pagamento de dívidas.
Pagamento em dinheiro (ou débito) em vez de crédito: o desconforto de ver o dinheiro sair da mão reduz o impulso de compra.
Desinstalar apps de compras e cancelar newsletters promocionais.
Envelopamento mensal para categorias de gastos discricionários (lazer, roupas, restaurantes) – quando o envelope acaba, acabam os gastos.
Parte VI: A Perspectiva da Educação Social – Consumo Consciente e Resistência Coletiva
6.1 A Alfabetização Emocional como Antídoto
A melhor prevenção contra o consumo compensatório é a alfabetização emocional – a capacidade de identificar, nomear e regular as próprias emoções sem recorrer a comportamentos aditivos. Escolas que ensinam isso formam adultos menos vulneráveis à propaganda e mais capazes de construir vínculos reais.
Paulo Freire, em sua pedagogia crítica, insistia que a educação não pode ser neutra. Ou forma para a conformidade (consumir, obedecer, repetir) ou forma para a liberdade (pensar criticamente, agir coletivamente, transformar a realidade). A educação financeira aliada à educação emocional é uma educação para a liberdade.
6.2 A Resistência ao Consumo como Ato Político
Gastar menos do que se ganha, poupar, investir em experiências em vez de objetos, recusar a moda rápida, optar pelo durável em vez do descartável – tudo isso são atos de resistência a um sistema que lucra com nossa infelicidade. O capitalismo não quer você feliz; quer você insatisfeito. É a insatisfação que move o consumo. A pessoa feliz com o que tem não compra o que não precisa.
Resistir ao consumo não é viver na penúria. É recuperar a capacidade de escolher. É comprar o que é necessário e o que é significativo, e recusar o que é supérfluo e imposto. É aprender a dizer "não" ao marketing, às tendências, à pressão social.
Parte VII: Quando a Psicoterapia é Necessária
As estratégias descritas são poderosas, mas não substituem o acompanhamento profissional quando o padrão é grave. Busque ajuda se:
Os gastos excessivos estão comprometendo seriamente sua saúde financeira (dívidas impagáveis, ameaça de despejo, corte de serviços essenciais).
Você já tentou parar sozinho e não conseguiu.
A compra compulsiva vem acompanhada de outros comportamentos aditivos (álcool, jogo, pornografia, comida).
Você tem ideação suicida ou pensamentos de desesperança relacionados às dívidas.
Você identifica um padrão de trauma ou abuso na infância que nunca foi elaborado.
A psicoterapia integrada que praticamos na NeuroPsiOnline combina:
Neuropsicanálise: para acessar as raízes inconscientes da carência afetiva e da compulsão.
TCC: para reestruturar crenças disfuncionais sobre dinheiro, posse e valor próprio, e para desenvolver habilidades de regulação emocional.
Educação social: para ajudar o paciente a reconstruir redes de pertencimento genuíno e a resistir às pressões culturais ao consumo.
Conclusão: Do Ter ao Ser – A Única Compra que Vale a Pena
Gastar mais do que se ganha não é um pecado financeiro; é um grito de socorro da alma. É a alma dizendo: "Algo está faltando. Algo que o dinheiro não compra. Algo que o objeto não substitui. E eu não sei o que é – mas vou continuar comprando até descobrir."
A resposta, que a psicanálise, a neurociência e a sabedoria antiga ecoam em uníssono, é que o que falta não é um objeto. É um vínculo. É a certeza de que alguém nos vê, nos acolhe, nos segura quando caímos. É a sensação de pertencer a algo maior que nós mesmos – uma família, uma comunidade, uma causa. É a liberdade de ser, não a prisão de ter.
A única compra que realmente vale a pena, e que nenhum cartão de crédito pode parcelar, é o investimento no próprio desenvolvimento emocional. É a terapia. É o tempo dedicado a construir amizades verdadeiras. É a coragem de se abrir para o amor, mesmo com risco de se machucar. É a disposição de aprender a viver com menos coisas, mas com mais presença.
Como escreveu Erich Fromm: "O ter se baseia na posse; o ser, na atividade. O ter é estático; o ser é dinâmico. O ter cria coisas; o ser cria experiências." Quando você troca o ter pelo ser, a conta bancária ainda importa – mas não define quem você é. E o vazio, aquele vazio que nenhuma compra preenchia, começa a ser ocupado pela única coisa que realmente pode ocupá-lo: a vida vivida.
Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert
Ao longo do tempo na clínica, atendi pessoas que estavam afogadas em dívidas – e, mais profundamente, afogadas em solidão. Executivos que tinham tudo e se sentiam nada. Jovens que acumulavam tênis como quem acumula abraços que não recebem. Aposentados que compravam bugigangas em telemarketings para ouvir uma voz amável do outro lado da linha.
O que todos eles tinham em comum? Uma ferida afetiva não cicatrizada. Uma infância onde o amor foi condicional, ou escasso, ou violento. Uma vida adulta onde os vínculos foram substituídos por transações. Uma cultura que os ensinou que o valor de uma pessoa se mede pelo que ela possui, não pelo que ela é.
Como Neuropsicanalista, sei que a compulsão por compras ativa os mesmos circuitos de recompensa que outras adições – e que, por trás dela, há uma dor antiga que nunca foi elaborada. A compra é o analgésico. A terapia é o bisturi que remove a causa.
Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, ofereço ferramentas para quebrar o ciclo: diários de gatilho, regra das 24 horas, reestruturação de crenças ("Eu só sou alguém se tiver coisas bonitas"). Mas a TCC, sozinha, não cura o vazio. O vazio só se cura com presença – a presença de um terapeuta, a presença de um grupo, a presença de si mesmo quando se para de fugir.
Como Educador Social, sonho com um mundo onde as crianças aprendam, desde cedo, que o amor não se compra, que o valor não está no rótulo, que o pertencimento não exige consumo. Onde as escolas ensinem a cuidar das emoções em vez de apenas avaliar notas. Onde as comunidades ofereçam encontro em vez de vitrines.
Na NeuroPsiOnline, acreditamos que a mudança é possível. Não a mudança que elimina o desejo de ter – o ter não é mau em si –, mas a mudança que reordena o ter como meio, não como fim. O dinheiro pode comprar um colchão, mas não compra o sono. Pode comprar um livro, mas não compra a sabedoria. Pode comprar uma casa, mas não compra um lar.
O lar se faz com presença. O sono se faz com paz. A sabedoria se faz com escuta. O amor se faz com vulnerabilidade. Nada disso está à venda.
Se você se reconhece nessa descrição – se as faturas do cartão são o eco do seu vazio, se o armário transborda de coisas e a alma transborda de solidão – saiba que não precisa fazer essa jornada sozinho.
A psicoterapia é um espaço onde você pode parar de comprar coisas e começar a se encontrar.
Um abraço,
Dr. Adilson Reichert
Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social
NeuroPsiOnline. Onde a mudança acontece.
(CTA - Call to Action)
As dívidas estão crescendo, e você já não sabe mais o que compra – só que compra. O alívio dura minutos, a culpa dura dias, o boleto dura meses. Você já percebeu que não é questão de educação financeira – você sabe quanto ganha, sabe quanto gasta, mas não consegue parar.
Sua saúde mental pode estar pagando o preço de uma ferida afetiva que nunca foi cuidada. Entre em contato conosco e descubra como a psicoterapia integrada – que une a profundidade da neuropsicanálise, a precisão da TCC e a visão crítica da educação social – pode ajudá-lo a trocar o consumo pelo cuidado, o ter pelo ser, a dívida pelo vínculo.
Se o vazio tem um endereço no seu bolso e no seu peito – é hora de agir.
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Referências
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BENSON, A. L. To Buy or Not to Buy: Why We Overshop and How to Stop. Boston: Trumpeter, 2008.
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DEBORD, G. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1967/1997.
FREUD, S. "O Mal-Estar na Civilização" (1930). In: Obras Completas, vol. 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
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KAHNEMAN, D. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
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