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O Inferno de Dante: Cartografia da Alma Humana e do Mal-Estar Social

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Uma Jornada pelo Nosso Mundo Interior


A jornada que se inicia nas páginas que seguem é um convite a uma travessia muito particular. Não se trata de uma viagem pelos círculos de fogo e gelo imaginados por Dante Alighieri no século XIV, mas de uma peregrinação por um território igualmente profundo, tortuoso e revelador: o nosso próprio mundo interior. Prepare-se para descobrir que o mapa do Inferno descrito na Divina Comédia é, na verdade, uma das mais precisas e antigas cartografias da alma humana já desenhadas.


Ao transformar as punições eternas do poema em metáforas psicológicas, este artigo revela como cada círculo infernal corresponde a um estado de sofrimento psíquico, um impasse moral ou uma dinâmica social que vivenciamos hoje. Veremos que a descida de Dante, guiado pela razão de Virgílio, é a mesma jornada de autoconhecimento, confronto com a própria Sombra e luta por individuação que a psicologia contemporânea descreve. Dos traumas que nos aprisionam em padrões de repetição à influência dos grupos dos quais fazemos parte, a viagem de Dante é, acima de tudo, uma história sobre a coragem necessária para nos tornarmos plenamente humanos.


Introdução: O Mapa da Alma Desenhado no Século XIV


No crepúsculo da Idade Média, um homem perdido, exilado e financeiramente arruinado começou a escrever o que se tornaria uma das obras mais influentes de toda a história da literatura. Dante Alighieri (1265–1321), outrora um respeitado cidadão e político florentino, encontrava-se banido de sua amada Florença, condenado à morte caso retornasse. Foi nesse estado de absoluta desolação que ele iniciou a sua Divina Comédia, um poema épico que o levaria — e a todos nós — através dos três reinos do além: Inferno, Purgatório e Paraíso.


A obra, escrita em italiano vulgar em vez do latim aristocrático, tornou-se a pedra angular da língua italiana e um dos pilares do imaginário ocidental. Como bem observou um estudo recente, "a nossa ideia de Inferno como um lugar organizado, com círculos e punições específicas para cada pecado, vem muito mais de Dante do que da própria Bíblia". Mas a Comédia é muito mais do que uma fantasia teológica medieval. Ela é, como defende o psicanalista Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, "a grande metáfora da viagem do herói humano ao autoconhecimento do seu mundo interior". Nesta perspectiva, o Inferno não é um lugar para onde vamos após a morte, mas um estado psíquico que habitamos enquanto nos recusamos a olhar para dentro de nós mesmos.


A tese central deste artigo é que o Inferno de Dante Alighieri pode ser lido como uma heurística da psique humana e da sociedade. Cada círculo, cada vala, cada castigo constitui uma alegoria precisa não apenas do pecado, mas de um mecanismo de defesa psicológico, um padrão de comportamento social ou uma patologia coletiva. A jornada de Dante é um convite para atravessarmos nosso próprio inconsciente, enfrentarmos nossas sombras mais profundas e, quem sabe, nos tornarmos sujeitos mais íntegros, conscientes e livres.

Dialogando com a psicanálise de Sigmund Freud e Jacques Lacan, a psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a sociologia de Émile Durkheim e Zygmunt Bauman, a filosofia de Michel Foucault, a Terapia Cognitivo-Comportamental e a neurociência contemporânea, exploraremos as profundezas do inferno dantesco como um mapa da condição humana.


Parte I: O Contexto e a Estrutura do Inferno — A Gravidade como Metáfora Psíquica


1.1 O Poeta Exilado que se Fez Juiz


Para compreender a gênese do Inferno, é essencial situar Dante em seu contexto. Ele não era um monge isolado numa torre de marfim, mas um ativo agente político nas sangrentas disputas entre Guelfos e Gibelinos que dilaceravam a Florença do século XIII. Após a vitória da facção rival dos Guelfos Negros, Dante foi acusado de corrupção e fraudes financeiras — acusações que ele sempre negou. A sentença foi o exílio perpétuo em 1302 e a condenação à fogueira se porventura pisasse novamente em solo florentino. Esta experiência de injustiça, perda e desenraizamento foi a fornalha onde se fundiu a sua visão poética. A Divina Comédia é, em grande medida, um ato de resistência e justiça poética: Dante colocou seus inimigos políticos e papas corruptos nas profundezas de seu inferno, enquanto reservou lugares de honra no Paraíso para seus aliados e mestres.


1.2 A Topografia Moral do Abismo: O Contrapasso


A estrutura do Inferno dantesco é uma obra-prima da lógica moral. Ele é descrito como um vasto cone invertido, formado pela queda de Lúcifer do Céu, que se afunila em círculos concêntricos até o centro da Terra. A gravidade dos pecados — e a severidade dos castigos — aumenta à medida que se desce.


O princípio organizador é o contrapasso (do latim contrapassum, "sofrer o oposto" ou "sofrer o equivalente"). Não se trata de uma vingança divina, mas de uma consequência lógica: o castigo é uma materialização simbólica do próprio pecado. "O inferno torna-se mais profundo a cada círculo, pois os pecados são mais graves", explica a descrição clássica. "Portanto, os pecados menos graves estão logo no início, e os mais graves no final". Como veremos, o contrapasso é a chave para a leitura psicológica do Inferno.


1.3 Os Nove Círculos como Estados de Consciência


Os nove círculos, do Limbo à Traição, são:

  1. Limbo: Virtuosos pagãos e não-batizados. Sua pena é a ausência de Deus, uma melancolia perpétua sem dor física.

  2. Luxúria: Os dominados pela paixão carnal são arrastados por um turbilhão incessante.

  3. Gula: Os intemperantes jazem numa lama fétida, sob chuva de gelo e ataques de Cérbero.

  4. Avareza e Prodigalidade: Avarentos e pródigos empurram enormes pesos em sentidos opostos.

  5. Ira: Os coléricos lutam ferozmente no lodo do pântano Estige.

  6. Heresia: Os hereges ardem em sepulcros de fogo.

  7. Violência: Imersos em sangue fervente (contra o próximo), transformados em árvores retorcidas (contra si) ou sob uma chuva de fogo (contra Deus).

  8. Fraude: Enganadores, hipócritas, ladrões e conselheiros fraudulentos são atormentados em dez fossos.

  9. Traição: Os traidores, a pior espécie de pecador, estão presos no gelo do lago Cocite, no ponto mais distante de Deus.


A jornada é também uma peregrinação através de uma numerologia sagrada. A obra é meticulosamente arquitetada em torno do número três (a Santíssima Trindade): três livros (Inferno, Purgatório, Paraíso), 33 cantos cada (mais um de introdução no Inferno, totalizando 100), versos em tercetos de 33 sílabas (3 x 11). Dante, o homem extraviado, é guiado por Virgílio (a Razão e a Ciência) em direção a Beatriz (a Fé e o Amor), num percurso que o levará do abismo mais profundo à luz das estrelas.


Parte II: A Cartografia Psicanalítica do Pecado — O Inferno como Inconsciente


2.1 Freud e a Geografia das Pulsões


"A topologia do Inferno de Dante ecoa o inconsciente freudiano: estruturado, simbólico, mas habitado pelo que insiste como trauma". A descida de Dante ao Inferno é a metáfora arquetípica da descida do psicanalista com o seu paciente às profundezas do recalque. A "selva escura" onde o poeta se encontra perdido, "no meio do caminho de nossa vida", é o exato ponto de entrada na análise: o sujeito não sabe onde está, nem como ali chegou, ponto exato da entrada no inconsciente.


Cada círculo, para a psicanálise, representa uma fixação ou um padrão de repetição sintomática. A Luxúria não é apenas o desejo sexual, mas a compulsão à repetição de vínculos destrutivos. A Gula é a voracidade oral, a incapacidade de se satisfazer. A Avareza é a retenção anal, o medo de perder o controle. A Ira é a explosão descontrolada do Id contra os muros do Superego. "Mais do que moralidade, o Inferno expõe o circuito fechado do sintoma", onde "os pecadores não aprendem com o castigo – eles encenam, eternamente, a mesma cena". Esta é a definição precisa da pulsão de morte freudiana (Thanatos), uma força que busca o retorno ao estado inanimado e que, na repetição incessante de padrões autodestrutivos, aprisiona o sujeito em seu próprio inferno pessoal.


2.2 O Inferno Estruturalista: Lacan e o Gozo


Jacques Lacan oferece uma nova camada de leitura. Para a psicanálise lacaniana, o pecado fundamental não é moral, mas estrutural: é a recusa da falta, a tentativa de obturar a ferida da castração com objetos de gozo. "Cada círculo pune uma forma de gozo – luxúria, avareza, traição – mas essas punições revelam também o fascínio do sujeito por seus próprios excessos". A punição dantesca, o contrapasso, é a consequência última do imperativo de gozo. O luxurioso que se deixa arrastar pelo vento da paixão é, em vida, um escravo do desejo. Seu castigo é ser escravo dele para sempre, explicitando a sua condição de assujeitado.


Virgílio, o guia, "opera como função paterna que introduz Dante no campo da lei e do desejo". Ele é o Nome-do-Pai lacaniano que organiza o caos primordial do Imaginário e permite a entrada no Simbólico. Contudo, Virgílio (a Razão humana) só pode levar Dante até certo ponto. A razão sozinha não alcança a salvação. Para entrar no Paraíso, é preciso a intercessão de Beatriz — o objeto de desejo absoluto, o objeto a lacaniano que, inacessível e idealizado, lança o sujeito na direção do seu mais íntimo segredo. Beatriz é "inacessível e idealizada, encarna o 'objeto a' lacaniano – causa do desejo, mas também seu abismo".


Dante, ao descer até o fundo do Inferno e subir a montanha do Purgatório, realiza a travessia do fantasma, o processo pelo qual o sujeito se desprende das suas identificações imaginárias (o eu ideal) e assume a sua posição de desejante. O "gelo do Cocite", onde Lúcifer está preso, não é o fogo da paixão, mas o gelo da ausência absoluta de desejo — a morte psíquica, a petrificação do sujeito que renunciou completamente à sua humanidade. Ao confrontar este vazio, Dante (o sujeito) pode, enfim, reemergir para as estrelas. Para Lacan, o desejo é o que nos humaniza. Sua completa extinção no gelo representa o horror da desumanização que a traição, a forma mais fria de romper o laço social, produz.


2.3 A Individuação Junguiana e a Besta do Abismo


Carl Gustav Jung, que manteve um profundo diálogo com a simbologia medieval, oferece uma interpretação que serve de ponte entre a psicanálise e a espiritualidade. Para a psicologia analítica, o Inferno de Dante é a descida ao inconsciente em busca do processo de Individuação. O caminho é um descensus ad inferos (uma descida aos infernos), tema central da psicologia arquetípica.


O coração do processo é o confronto com a Sombra. "De todos os arquétipos, a sombra compõe a psique humana, e consoante Jung, determina o que o homem tem medo e não aceita em si próprio". A descida de Dante é, assim, uma jornada através da Sombra coletiva e pessoal. Lúcifer, o anjo caído preso no centro da Terra, é a personificação suprema da Sombra. Mas, para espanto de muitos, Lúcifer não é um torturador sádico. Ele é uma besta colossal presa no gelo — a sua própria maldade o aprisiona e o separa de todo o amor. É uma figura patética, o retrato do ódio autoalienante que, ao negar o amor, se petrifica. Ao contrário do que o senso comum imagina, "Lúcifer não está ali para punir tudo e todos; ele está ali como qualquer outra alma que ali está", preso por suas próprias escolhas.


Dante, ao descer até o umbigo do mundo e confrontar a imagem do mal absoluto, realiza o passo fundamental da individuação. "A Divina Comédia de Dante se analisa sob a perspectiva do processo de individuação proposto por Jung, através dos principais percursos do inferno". A viagem de descida e subida é a imagem da integração. Ao reconhecer Lúcifer não como um inimigo externo, mas como a consequência máxima de uma psique cindida que se afastou de Deus (o Self), Dante pode finalmente "voltar a ver as estrelas". A individuação não é a eliminação do mal, mas a sua integração consciente.


Parte III: A Sociologia do Desvio e da Ordem — O Controle Social no Abismo


3.1 Durkheim, a Anomia e a Função Social da Punição


O Inferno de Dante é também um poderoso instrumento de análise sociológica. Para Émile Durkheim, a função primordial da punição não é a reabilitação do criminoso, mas a reafirmação da consciência coletiva. O crime, ao ofender os valores partilhados, enfraquece a coesão social. A punição pública, ao reafirmar a força da lei, restaura essa coesão.


O conceito durkheimiano de anomia — uma ausência de normas e regulação social — encontra um paralelo profundo no poema. "O Inferno de Dante é um antídoto contra a anomia. Ao classificar cada pecado e atribuir-lhe um lugar e um castigo exatos, o poema impõe ordem ao caos do desejo humano". Em uma era de profundas transformações sociais, guerras e desagregação do tecido feudal, Dante ofereceu aos seus leitores uma visão de um universo moral perfeitamente ordenado. A precisão topográfica do Inferno — cada círculo, cada fossa, cada vala — é um mapa de regulação social. Para Dante, a quebra dos contratos sociais (fraude e traição) era a pior ofensa. Não por acaso, os maiores pecadores de seu poema são aqueles que usaram a inteligência e a confiança para enganar e dividir.


3.2 Foucault e o Corpo Supliciado


Michel Foucault, em Vigiar e Punir, descreve a transição histórica do "suplício" (a marcação violenta do corpo do condenado) para a "disciplina" (a vigilância e o adestramento do corpo dócil). O Inferno de Dante situa-se na transição entre essas duas eras. As punições infernais são uma forma de suplício eterno. "Há um código jurídico da dor; a pena, quando é supliciante, não se abate sobre o corpo ao acaso ou em bloco; ela é calculada de acordo com regras detalhadas". O contrapasso é a aplicação desse código meticuloso.


Cada punição no Inferno é uma tecnologia de poder que inscreve o crime no corpo. O herege arde em um túmulo: ele queimou em vida com uma fé falsa, agora queima numa tumba eterna. Os hipócritas vestem pesadas capas de chumbo douradas por fora. Os conselheiros fraudulentos, que usaram a astúcia para enganar, ardem envoltos em chamas que escondem sua presença, assim como em vida esconderam suas reais intenções. O corpo é o palco onde a verdade do crime se torna visível. Foucault nos ajuda a compreender que o Inferno de Dante não é uma fantasia arbitrária, mas um espelho da microfísica do poder medieval.


3.3 A Metáfora Atemporal da Justiça e do Controle Social


O que torna o Inferno de Dante tão poderoso para a análise sociológica é a sua natureza como uma alegoria da justiça perfeita. Ao construir seu reino de punições, Dante não apenas reflete as teorias políticas de seu tempo (profundamente influenciado pelo pensamento de Aristóteles e pela ética tomista), mas também nos oferece uma lente para analisar os sistemas de justiça que criamos. Como sugere a análise contemporânea, "os círculos do Inferno de Dante podem ser lidos à luz de várias teorias políticas, estabelecendo conexões entre as alegorias da punição e as estruturas de poder reais".


A hierarquia dos pecados revela a hierarquia de valores de uma sociedade obcecada com ordem, unidade e pactos de fidelidade. O Inferno é, portanto, um monumento sociológico que desvenda as fundações do medo e da regulação moral que sustentam a vida em comunidade. A aplicação dessa heurística aos nossos dias revela que, por exemplo, a punição social do "cancelamento" em redes sociais guarda uma semelhança perturbadora com o contrapasso dantesco: o linchamento público muitas vezes visa impor um castigo "justo" que corresponde ao suposto crime.


Parte IV: A Neurociência e a Psicologia Cognitiva do Castigo — O Inferno Dentro do Cérebro


4.1 O Cérebro que se Pune


A heurística dantesca mais radicalmente precisa é a da "punição interna". A neurociência moderna mostra que "do ponto de vista da neurociência, o medo é um dos mecanismos mais potentes de controle do comportamento humano. Em estado de medo constante, o cérebro ativa a amígdala, suprimindo a função do córtex pré-frontal". Neste estado, regredimos a padrões de luta, fuga ou paralisia.


A genialidade do contrapasso é que ele transforma o castigo externo em prisão interna. O estudo sobre a Psicanálise do Inferno na Divina Comédia revela que "a punição eterna, em sua essência, não deveria ser entendida como um castigo exterior, mas sim como consequência das culpas interiores geradas pela rejeição". O sofrimento não é imposto, mas consentido pela fixação no erro. O avarento que empurra o peso está realizando o trabalho de Sísifo de seu próprio cérebro, preso em um laço neural de desejo e frustração do qual não pode — e no fundo não quer — escapar. A aplicação prática deste insight na Terapia do Esquema é notável. Um paciente com um esquema de "Autossacrifício" que, em sua vida, se sente explorado e carrega um "peso nas costas", está vivendo o contrapasso do avarento em seu próprio corpo e mente.


4.2 O Cárcere Cognitivo: A TCC Diante dos Círculos


A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) nos oferece a chave para abrir as celas deste cárcere. O sofrimento dos condenados é gerado e mantido por uma matriz rígida de crenças centrais. A TCC define crença central como uma convicção profunda e inconsciente sobre si mesmo, o mundo e o futuro. Ela atua como um filtro distorcendo o processamento da realidade e gerando sofrimento. Cada círculo do Inferno pode ser interpretado como o reino governado por uma crença central maligna:

  • No Limbo, a crença é: "A Salvação não é para mim; estou condenado ao vazio".

  • Na Luxúria, a crença: "Não sou nada sem este amor/prazer".

  • Na Gula, a crença: "O mundo é um vazio que só pode ser preenchido consumindo".

  • Na Avareza, a crença: "Preciso acumular mais e mais para não desaparecer".

  • Na Ira, a crença: "Todos são meus inimigos e devo atacar para sobreviver".

  • Na Heresia, a crença: "Só a minha visão de mundo é verdadeira; confio apenas em mim mesmo e em minha razão para definir a realidade, rejeitando toda a fé".

  • Na Violência e Fraude, a crença: "Os outros são meros objetos descartáveis para a minha satisfação".

  • Na Traição, a crença mais profunda e cristalizada: "Eu sou o centro do universo e o amor não existe; todos os laços são uma ilusão e quem confia merece ser destruído".


A analogia com a Terapia do Esquema de Jeffrey Young é igualmente poderosa. Os esquemas, como a desconfiança, o isolamento social ou a grandiosidade, são prisões subjetivas que se formam na infância e geram sofrimento crônico. O Inferno de Dante é o mapa arquetípico destes esquemas. A "topologia do Inferno de Dante ecoa o inconsciente freudiano: estruturado, simbólico, mas habitado pelo que insiste como trauma". A repetição eterna é uma metáfora para o que a Terapia do Esquema chama de manutenção do esquema: o sujeito, sem saber, interpreta os eventos de sua vida para confirmar a sua crença distorcida. A tarefa do terapeuta, assim como a de Virgílio, é guiar o paciente pelo seu próprio inferno e nomear seus demônios.


Conclusão: Atravessar o Inferno para Tornar-se Humano


O Inferno de Dante Alighieri, criado sob o trauma do exílio e a chama do gênio poético, transcendeu o seu propósito político e religioso para se tornar um dos mapas mais completos da labiríntica psique humana. Ao dissecarmos sua arquitetura moral, descobrimos que o verdadeiro cerne da obra não é a crueldade da punição, mas a precisão psicológica com que descreve os nossos autorretratos mais sombrios.


A psicanálise revela que o Inferno é o reino da repetição, da pulsão que insiste sem ser elaborada, "pois o desejo é o que insiste, mesmo que de forma patológica". A sociologia nos mostra que o Inferno é a ferramenta de reafirmação da ordem e o espelho das ansiedades de uma época. A neurociência demonstra que o medo e a culpa são prisões bioquímicas tão reais quanto o fogo e o gelo imaginados por Dante.


A pedagogia simbólica do Inferno nos confronta com uma verdade essencial: o sofrimento, quando significado, pode se tornar sabedoria. A prova máxima da transformação de Dante é quando ele, movido pela compaixão, tenta tocar a alma de um condenado. Ele não está imune ao horror ou à piedade. Mas ele não se afoga nele. Ele aprende a olhar e a seguir em frente. A travessia do Inferno é uma metáfora para a Terapia Cognitivo-Comportamental do luto e da cura. O paciente que sofreu um trauma revive a cena repetidamente (o contrapasso). Na terapia guiada (Virgílio), ele olha, sente o horror (os pecadores), mas aprende a não parar ali. Ele transforma a cena em memória, e não em prisão.


Em um mundo marcado por ansiedades climáticas e crises de sentido, o mapa da Divina Comédia está longe de ser obsoleto. Cada vez que nos sentamos para examinar uma sombra, quebrar um ciclo de autossabotagem ou reconstruir um vínculo traído pela desconfiança, estamos descendo aos nossos círculos pessoais. O convite de Dante, feito há setecentos anos, ecoa com a mesma força: "Abandonai toda a esperança, vós que entrais" é um aviso para quem deseja permanecer como está. Para aqueles que desejam atravessar, a porta é a mesma. O que muda é a coragem de não permanecer.


Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert


Ao longo de décadas de clínica, sentei-me diante de inúmeras almas perdidas em sua própria "selva escura". Pessoas que se encontravam "no meio do caminho da vida", paralisadas por uma traição amorosa que as congelou no Cocite da desconfiança, ou atormentadas por uma voracidade consumista (a Gula moderna) que as deixava exaustas. A cada uma dessas pessoas, a jornada de Dante ofereceu um espelho.


Como Neuropsicanalista, aprendi que o Inferno é real. Ele não está no centro da Terra, mas habita nas conexões límbicas hiperativadas do paciente traumatizado, no córtex pré-frontal que não consegue acalmar a amígdala enfurecida (a Ira), na repetição compulsiva de um sintoma (a Luxúria). A neuroplasticidade, no entanto, nos mostra que o caminho de volta é possível. O cérebro que se condicionou a temer pode reaprender a confiar. É a subida da montanha do Purgatório.


Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, meu papel é, muitas vezes, o de Virgílio. Não posso salvar o paciente, não posso percorrer o caminho por ele, mas posso nomear os demônios. Posso perguntar ao avarento: "Quem te disse que você não tem valor se não tiver posses?". Posso mostrar ao traído que sua desconfiança atual é um fogo que queima a ele mesmo, não a quem o feriu. A TCC é a arte de questionar as leis de bronze do inferno pessoal de cada um.


Como Educador Social, acredito que a Divina Comédia deveria ser lida não como um tratado de teologia medieval, mas como um manual de sobrevivência emocional. Uma educação que se paute pela integridade não pode ignorar as nossas sombras. Ensinar aos jovens que a raiva, o medo, a inveja e a luxúria existem — e que existem palavras e imagens para mapeá-los — é o primeiro passo para que não se tornem escravos deles. A obra de Dante nos lembra que nenhum pecado é tão hediondo que não possa ser visto, nomeado e, com muito trabalho, superado.


Na NeuropsiOnline, acreditamos que a verdadeira virada na vida não acontece quando negamos a escuridão, mas quando a atravessamos. Dante não desceu ao Inferno para se tornar um demônio; desceu para se tornar humano. Se você se sente perdido em uma selva escura de angústia, se está preso em círculos de sofrimento que se repetem sem que você saiba por quê, saiba que não precisa empreender essa travessia sozinho. A psicoterapia é o Virgílio que pode caminhar ao seu lado.


Um abraço,


Dr. Adilson Reichert 

Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social.


NeuroPsiOnline. Onde a mudança acontece.


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Referências

ALIGHIERI, D. A Divina Comédia

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. Petrópolis: Vozes, 2004. 

FREUD, S. Além do Princípio do Prazer. In: Obras Completas, vol. 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 

JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000. 

LACAN, J. O Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 

DURKHEIM, É. Da Divisão do Trabalho Social. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 

JUNQUEIRA FILHO, L.C.U. "A 'grandeza repulsiva, amiúde detestável' do Inferno de Dante". Psicologia USP, 2011. 

PELLIN, K. "A Travessia do Sujeito na Obra de Dante Alighieri". Psicanálise Clínica, 2025.


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