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O Fio da Navalha: Tolerância, Aproveitamento e o Paradoxo do Outro que nos Incomoda

há 6 dias
16 min de leitura

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Uma Jornada Filosófica pela Arte da Convivência, pelo Limite da Paciência e pela Coragem de Dizer Não


Há uma cena que se repete em todos os consultórios, em todas as famílias, em todos os corações. Alguém, cansado, diz: "Eu tolero tudo. Engulo sapo há anos. Faço o possível para manter a paz. Mas tem um limite. E, quando eu finalmente explodo, ainda sou eu que sou chamado de intolerante." Essa frase, que parece uma queixa pessoal, é, na verdade, um dos dilemas mais antigos e mais profundos da existência humana: até onde a tolerância é virtude e a partir de onde ela se torna cumplicidade? E por que o peso da tolerância recai sempre sobre quem é incomodado, e não sobre quem incomoda?


A palavra "tolerância" carrega consigo uma ambiguidade fundamental. Ela vem do latim tolerare, que significa "suportar", "aguentar", "carregar". Tolerar é, em sua raiz etimológica, sofrer com paciência. Mas sofrer até quando? Suportar até que ponto? E, mais crucialmente: por que o tolerante deve ser quem carrega o peso da tolerância, e não o intolerante quem deve parar de produzir o peso?


Este artigo é uma travessia por esse labirinto. Com a bússola da filosofia (Voltaire, Locke, Marcuse, Levinas, Popper), da psicanálise (Freud, Winnicott), da sociologia (Bauman, Han) e da neurociência, exploraremos:

  • A história e a filosofia da tolerância — de virtude religiosa a imperativo democrático.

  • A assimetria fundamental: por que quem é incomodado tolera, e não quem incomoda?

  • O limite entre tolerância e aproveitamento: quando a virtude se torna vulnerabilidade.

  • O paradoxo da tolerância de Karl Popper: tolerar o intolerante destrói a tolerância.

  • A ética da diferença: como conviver com o outro sem se anular.

  • Analogias, heurísticas e curiosidades — do Dilema do Porco-Espinho à filosofia Ubuntu.


Parte I: A Anatomia da Tolerância — Da Virtude Religiosa ao Imperativo Democrático


1.1 A Tolerância como Virtude Cristã


A tolerância, em sua origem ocidental, é uma virtude forjada no fogo da perseguição religiosa. No século XVII, John Locke escreveu sua Carta sobre a Tolerância (1689), argumentando que o Estado não deveria interferir na fé dos cidadãos. A tolerância era, então, a recusa a impor a própria crença — o reconhecimento de que a consciência individual é inviolável.


Voltaire, no Tratado sobre a Tolerância (1763), foi além: a tolerância é a condição da paz civil. Ele escreveu: "A tolerância é o apanágio da humanidade. Somos todos feitos de fraquezas e erros; perdoemo-nos mutuamente as nossas loucuras." A frase — tantas vezes mal atribuída — "Posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-la" — é a essência do espírito tolerante.


Mas há uma ambiguidade nessa herança. A tolerância religiosa nasceu da necessidade de convivência entre grupos que se odiavam. Ela não foi um ato de amor; foi um pacto de não agressão. Tolerar o outro era, em grande medida, suportar o outro — não celebrá-lo.


1.2 A Tolerância como Imperativo Democrático


No século XX, a tolerância tornou-se um valor democrático. John Rawls, em Uma Teoria da Justiça, argumentou que uma sociedade justa é aquela que permite a coexistência de doutrinas abrangentes e incompatíveis — desde que todas respeitem os princípios básicos da justiça. A tolerância é, nessa perspectiva, a condição da pluralidade.


Jürgen Habermas acrescentou que a tolerância não é apenas a abstenção da coerção, mas o reconhecimento recíproco da legitimidade do outro. Tolerar não é ignorar a diferença; é reconhecê-la e ainda assim conviver.


No entanto, Herbert Marcuse — o filósofo da Escola de Frankfurt — lançou uma crítica contundente: a tolerância repressiva. Em sociedades desiguais, a tolerância pode servir à manutenção do status quo — ao permitir que todas as vozes se expressem, inclusive as que perpetuam a opressão, ela neutraliza a possibilidade de transformação. "A tolerância repressiva é a tolerância que permite a propagação de ideias que perpetuam a dominação."


1.3 A Tolerância como Sofrimento: A Etmologia que Denuncia


A etimologia da palavra é reveladora. Tolerare significa suportar um peso. O tolerante é aquele que carrega o peso da diferença do outro. Essa metáfora é fundamental: a tolerância, em sua essência, não é neutra. Ela é um ato de esforço — e o esforço é sempre de quem tolera, nunca de quem é tolerado.


E aqui surge a primeira pergunta incômoda: se a diferença do outro me incomoda, por que sou eu que devo carregar o peso de tolerá-la, e não ele o peso de moderá-la?


Parte II: A Assimetria Fundamental — Por que o Peso Recai Sempre Sobre Quem Tolera?


2.1 O Dilema do Porco-Espinho: Schopenhauer e a Distância Necessária


Arthur Schopenhauer contou uma parábola que se tornou célebre: em uma noite fria, um grupo de porcos-espinhos se aproxima para se aquecer. Mas, quanto mais se aproximam, mais se ferem com os espinhos uns dos outros. Afastam-se. Sentem frio. Aproximam-se de novo. Ferem-se de novo. Após muitas tentativas, encontram uma distância ideal — na qual podem se aquecer sem se ferir.


A parábola dos porcos-espinhos é a metáfora perfeita da tolerância. A convivência humana exige proximidade — precisamos uns dos outros para nos aquecer. Mas a proximidade exige espinhos — as diferenças que nos ferem. A tolerância é a arte de encontrar a distância ideal: nem tão longe que sintamos frio (isolamento), nem tão perto que nos firamos (conflito).


Mas quem define a distância? Quem cede? Quem se afasta? Na parábola, os porcos-espinhos negociam — mas na vida real, a negociação é frequentemente desigual. O mais sensível cede mais. O mais tolerante sofre mais. O mais empático carrega o peso.


2.2 A Neurociência da Tolerância: O Esforço do Córtex Pré-Frontal


A tolerância não é um estado passivo; é um esforço ativo do cérebro. Quando somos confrontados com algo que nos incomoda — uma opinião divergente, um comportamento estranho, uma diferença que desafia nossas expectativas —, a amígdala dispara o alarme. O corpo se prepara para a defesa. E é o córtex pré-frontal dorsolateral — a sede do controle executivo — que inibe a resposta impulsiva e permite a tolerância.


Tolerar, portanto, consome energia neural. É por isso que a tolerância é mais difícil quando estamos cansados, estressados ou sobrecarregados. E é por isso que a assimetria se aprofunda: quem já está exausto tem menos recursos para tolerar.


2.3 A Assimetria Social: Quem Tolera é Quem Tem Menos Poder?


A assimetria da tolerância não é apenas psicológica; é social. Historicamente, quem tolera é quem está em posição de menor poder. As minorias toleram as maiorias. Os oprimidos toleram os opressores. As mulheres toleram o machismo. Os negros toleram o racismo. Os pobres toleram a indiferença dos ricos.


Frantz Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas, mostrou que o colonizado é forçado a tolerar a violência simbólica do colonizador — e que essa tolerância, longe de ser virtude, é submissão internalizada.


bell hooks escreveu que a tolerância, quando exige que o oprimido suporte a opressão, é apenas uma forma sofisticada de dominação. "A tolerância que exige que eu suporte a sua intolerância não é tolerância; é cumplicidade."


2.4 A Pergunta que Não Cala: Por que Eu, e Não Ele?


Chegamos, assim, à pergunta central deste artigo: se algo me incomoda, por que devo ser eu a tolerar, e não o outro a parar de incomodar?


A resposta mais comum é: "Porque não podemos mudar os outros; só podemos mudar a nós mesmos." Essa resposta tem uma sabedoria estoica inegável — Epicteto já dizia que a liberdade está em distinguir o que depende de nós do que não depende. Mas ela também tem um perigo: transformar a tolerância em conformismo, em aceitação passiva da injustiça, em desresponsabilização do outro.


A pergunta permanece: se a diferença do outro me incomoda, quem deve se adaptar? Não há resposta universal. Há apenas negociação — e a negociação exige que ambos os lados reconheçam o direito de ser incomodado e a responsabilidade de não incomodar gratuitamente.


Parte III: Tolerância ou Aproveitamento? O Limite que Separa a Virtude da Vulnerabilidade


3.1 O Limite como Fronteira Viva


O limite entre tolerância e aproveitamento não é uma linha fixa; é uma fronteira viva, que se move conforme o contexto, a relação e o momento. O que é tolerância em uma situação pode ser aproveitamento em outra.


Considere: um amigo que chega atrasado ocasionalmente — tolerável. Um amigo que chega atrasado sempre — aproveitamento. Um parceiro que tem um dia ruim e descontra — tolerável. Um parceiro que sistematicamente descarrega suas frustrações — abuso.


A diferença está na padronização e na assimetria. Quando a tolerância se torna unilateral — quando é sempre o mesmo lado que cede, que espera, que se adapta —, ela deixa de ser virtude e se torna exploração.


3.2 O Paradoxo de Popper: A Tolerância Ilimitada Destrói a Tolerância


Karl Popper, o filósofo da ciência, formulou o paradoxo da tolerância: "Se formos infinitamente tolerantes, mesmo com os intolerantes, e não defendermos a sociedade tolerante contra os seus ataques, os tolerantes serão destruídos, e com eles a tolerância."


Popper não estava defendendo a intolerância; estava defendendo o limite da tolerância. A tolerância ilimitada é autodestrutiva porque permite que o intolerante use a própria liberdade para destruir a liberdade dos outros.


Aplicado ao cotidiano: tolerar o colega que humilha os outros é permitir a humilhação. Tolerar o parceiro que controla é permitir o controle. Tolerar o amigo que explora é permitir a exploração. A tolerância, para ser virtude, precisa ser acompanhada de limites.


3.3 A Heurística do "Custo da Tolerância"


Proponho uma heurística simples para discernir entre tolerância e aproveitamento: qual é o custo da minha tolerância para mim e para os outros?

  • Se o custo é suportável e temporário, e se a tolerância preserva um bem maior (a relação, a paz, a dignidade do outro), ela é virtude.

  • Se o custo é insuportável e crônico, e se a tolerância perpetua um mal (a injustiça, o abuso, a opressão), ela é aproveitamento.


Curiosidade: Os estoicos usavam uma imagem semelhante. Epicteto dizia que, se alguém te insulta, você pode tolerar — porque o insulto não depende de você. Mas se alguém impede você de viver conforme a virtude, você deve resistir — porque a virtude depende de você.


3.4 A Curiosidade do "Sapo na Água Fervendo"


A metáfora do sapo na água fervendo é uma curiosidade da biologia comportamental que se aplica perfeitamente à tolerância. Se um sapo é colocado em água fervente, ele salta imediatamente. Mas se for colocado em água fria que é aquecida gradualmente, ele não percebe a mudança e acaba cozido.


A tolerância funciona da mesma forma. Toleramos o intolerável quando ele chega devagar. Um comentário sutil, uma crítica velada, uma exigência pequena — cada um é tolerável isoladamente. Mas, somados, tornam-se abuso. E, quando percebemos, já estamos cozidos.


Como escapar? O antídoto é a consciência — a capacidade de perceber a tendência e não apenas o evento. Não é "esse comentário específico que me incomoda"; é "essa sequência de comentários que revela um padrão". A tolerância consciente é aquela que vê o padrão, não apenas a gota.


Parte IV: Por que Tolerar? A Ética da Convivência e o Valor da Diferença


4.1 A Tolerância como Condição da Liberdade


Voltaire escreveu que "a tolerância é a condição da liberdade". Sem tolerância, a liberdade se transforma em guerra de todos contra todos. Se cada um impõe sua visão, não há espaço para a coexistência. A tolerância é o preço da paz.


Mas há uma questão mais profunda: por que a diferença é valiosa? Por que não buscar a uniformidade, a homogeneidade, a ausência de conflito?


John Stuart Mill, em Sobre a Liberdade, argumentou que a diversidade de opiniões é essencial para o progresso. "Se toda a humanidade pensasse da mesma forma, ninguém teria motivo para lamentar." A diferença nos desafia, nos faz repensar, nos impede de cristalizar em dogmas.


Emmanuel Levinas foi ainda mais longe: a alteridade é a base da ética. O outro não é um obstáculo; é a condição da minha responsabilidade. É no rosto do outro que encontro o chamado ao cuidado. "A ética é a relação com o outro como outro."


4.2 A Tolerância como Reconhecimento da Falibilidade


Karl Popper também argumentou que a tolerância é uma consequência da humildade epistemológica. Se reconhecemos que podemos estar errados, então devemos tolerar a diferença. A intolerância é, em sua raiz, uma presunção de infalibilidade.


Søren Kierkegaard escreveu: "A vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas deve ser vivida olhando para frente." A tolerância é a confissão de que não sabemos tudo. É a abertura para o inesperado, para o desconhecido, para o outro.


4.3 A Tolerância como Estratégia de Sobrevivência


Há, por fim, uma razão pragmática para tolerar: a sobrevivência. Como mostrou a história, as sociedades intolerantes colapsam. A Inquisição, o nazismo, o stalinismo — todos os regimes de intolerância terminaram em ruína. A tolerância é o que permite que grupos diversos coexistam e cooperem em um mundo que, cada vez mais, é um aldeia global.


Zygmunt Bauman escreveu que a tolerância é a arte da convivência em um mundo líquido — um mundo onde as identidades são fluidas, as fronteiras são porosas, e o outro está sempre presente. Sem tolerância, a liquidez se transforma em caos.


Parte V: Tolerar a Diferença do Outro — Como Fazer, sem se Anular?


5.1 O Exercício da Distinção: O Que é Diferença e o Que é Abuso?


O primeiro passo para tolerar sem se anular é distinguir entre a diferença legítima e o abuso ilegítimo.

  • Diferença legítima: o outro pensa, sente, age de forma diferente da minha. Isso não me fere; apenas me desconforta.

  • Abuso ilegítimo: o outro me fere, me desrespeita, me viola. Isso não é diferença; é violência.


A tolerância aplica-se à diferença, não ao abuso. Confundir as duas coisas é o grande erro que perpetua o sofrimento. Tolerar o abuso não é virtude; é cumplicidade com a própria destruição.

5.2 A Heurística do Espelho: O Que o Outro Desperta em Mim?


Uma heurística poderosa para trabalhar a tolerância é o exercício do espelho. Quando algo no outro me incomoda, eu me pergunto:

  • O que essa característica desperta em mim?

  • Ela me lembra algo que eu rejeito em mim mesmo?

  • Ela ameaça uma crença que eu não quero questionar?


Muitas vezes, o que mais nos incomoda no outro é o que não queremos ver em nós. Carl Jung chamou isso de sombra — a parte de nós que reprimimos e projetamos nos outros. A tolerância da diferença exige, antes de tudo, a integração da própria sombra.


5.3 A Comunicação Não-Violenta: A Arte de Dizer o Que Sinto sem Atacar


Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não-Violenta (CNV), propôs um método para expressar desconforto sem agredir:

  1. Observação: descrever o fato concreto, sem julgamento ("Quando você chegou 30 minutos atrasado...").

  2. Sentimento: expressar o que senti ("...eu me senti desrespeitado...").

  3. Necessidade: nomear a necessidade não atendida ("...porque preciso de pontualidade para me organizar...").

  4. Pedido: fazer um pedido claro e específico ("...você poderia me avisar se for se atrasar?").


A CNV transforma a tolerância passiva em diálogo ativo. Em vez de engolir o desconforto até explodir, o tolerante aprende a nomear o incômodo e a negociar a convivência.


5.4 A Curiosidade do Ubuntu: "Eu Sou Porque Nós Somos"


Na filosofia Ubuntu, originária da África Austral, a identidade é relacional. "Eu sou porque nós somos." O outro não é um obstáculo à minha existência; é a condição dela.


Nelson Mandela, inspirado no Ubuntu, escreveu: "Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, ou de sua origem, ou de sua religião. As pessoas precisam aprender a odiar, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar."


A tolerância, na perspectiva Ubuntu, não é suportar o outro; é reconhecer que o outro é parte de mim. A diferença não é uma ameaça; é uma extensão do meu próprio ser.


Parte VI: Curiosidades, Analogias e Heurísticas para a Tolerância Consciente


6.1 A Curiosidade do "Círculo de Cura" dos Navajo


Os Navajo, povo originário da América do Norte, praticam um ritual chamado "Círculo de Cura" (Enemy Way Ceremony). Quando há um conflito entre dois membros da comunidade, eles são colocados frente a frente, em um círculo, e cada um deve narrar a história do conflito do ponto de vista do outro. Só depois de ver o mundo pelos olhos do outro é que o conflito pode ser resolvido.


Essa prática é uma tecnologia ancestral de tolerância. Ela não exige que os envolvidos concordem; exige que eles compreendam. A tolerância, nesse sentido, não é a eliminação da diferença; é o reconhecimento de que a diferença tem uma história — e que essa história merece ser ouvida.


6.2 A Curiosidade do "Experimento de Robbers Cave"


Em 1954, o psicólogo Muzafer Sherif realizou um experimento clássico em um acampamento de verão em Robbers Cave, Oklahoma. Ele dividiu meninos em dois grupos — os "Rattlers" e os "Eagles" — e fomentou a competição entre eles. Em pouco tempo, os grupos se odiavam, se insultavam e se atacavam.


Então, Sherif introduziu tarefas cooperativas — quebrar a caixa d'água, consertar o caminhão de comida — que exigiam a colaboração de ambos os grupos. O resultado foi surpreendente: a hostilidade diminuiu, e os meninos começaram a se tratar como aliados.


O experimento de Robbers Cave demonstra que a tolerância não é apenas uma escolha individual; é uma consequência da cooperação. Quando temos objetivos comuns, a diferença se torna menos ameaçadora.


6.3 A Heurística do "Teste do Tempo"


Quando estiver em dúvida se deve tolerar ou agir, aplique o Teste do Tempo:

  • Isso importará daqui a uma semana? Se não, talvez não valha a pena o conflito.

  • Isso importará daqui a um ano? Se sim, talvez seja hora de agir.

  • Isso importará daqui a dez anos? Se sim, é imperativo agir.


O Teste do Tempo ajuda a distinguir o incômodo passageiro do abuso crônico. A tolerância sábia é aquela que investe energia onde ela realmente importa.


6.4 A Curiosidade Filosófica: O "Ouriço" de Isaiah Berlin


Isaiah Berlin, o filósofo liberal, popularizou uma distinção baseada em um fragmento do poeta grego Arquíloco: "A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma grande coisa."


O ouriço tem uma única visão do mundo — um princípio organizador que tudo explica. A raposa tem muitas visões — uma pluralidade de perspectivas que não se reduzem a um único princípio.


A tolerância, na perspectiva de Berlin, é uma virtude da raposa. O ouriço tende à intolerância porque sabe a verdade. A raposa tende à tolerância porque suspeita das verdades absolutas.


Conclusão: A Corda Esticada da Convivência


A tolerância é uma corda esticada entre dois abismos: de um lado, a intransigência — a recusa a conviver com a diferença. De outro, a submissão — a aceitação passiva do abuso. A arte da convivência está em caminhar sobre essa corda — nem tão rígido que se quebre, nem tão frouxo que se perca.


Tolerar não é suportar tudo. Tolerar é escolher o que vale a pena suportar — e lutar contra o que não vale. Tolerar é reconhecer que a diferença do outro não é uma ameaça à minha existência — e que a minha diferença não é uma ameaça à existência do outro. Tolerar é, no fundo, conviver — e a convivência é a arte mais difícil e mais necessária da vida humana.


Como escreveu Voltaire: "A tolerância é o apanágio da humanidade. Somos todos feitos de fraquezas e erros; perdoemo-nos mutuamente as nossas loucuras."


Mas como escreveu Popper: "A tolerância ilimitada deve levar ao desaparecimento da tolerância."

A sabedoria está em saber onde termina uma e começa a outra.


Mensagem Final do Dr. Adilson Reichert


Ao longo de décadas de clínica, testemunhei o sofrimento daqueles que toleraram demais — e daqueles que toleraram de menos. Os que toleraram demais chegaram ao consultório com o corpo doente, a alma exausta, a autoestima destruída. "Eu engoli tudo", diziam. "Eu fiz tudo por ele. E ele nunca fez nada por mim." Os que toleraram de menos chegaram com relacionamentos rompidos, amizades perdidas, solidão profunda. "Eu não aceito desaforo", diziam. "Eu não deixo ninguém me desrespeitar." E, no fundo, estavam sozinhos.


O que todos eles aprenderam — e o que a filosofia, a neurociência e a prática clínica nos ensinam — é que a tolerância sábia é aquela que reconhece o próprio limite. Não é a tolerância infinita dos mártires, nem a intolerância absoluta dos tiranos. É a tolerância consciente — que sabe o que tolerar, por que tolerar e até quando tolerar.


Como Neuropsicanalista, sei que a tolerância tem um custo neural — consome energia do córtex pré-frontal, exige inibição da amígdala, requer regulação emocional. E sei que esse custo é maior para quem já está exausto, sobrecarregado, ferido. A tolerância, portanto, não é infinita. Ela precisa ser cuidada — e, quando não há mais recursos, ela precisa ser substituída por limites.


Como Terapeuta Cognitivo-Comportamental, ofereço ferramentas para que meus pacientes possam identificar os padrões de abuso, nomear o que sentem, comunicar suas necessidades e estabelecer limites claros. A TCC ensina que tolerar não é engolir; é escolher — e a escolha exige consciência.


Como Educador Social, sonho com um mundo onde as pessoas aprendam, desde cedo, a arte da convivência — não a arte de suportar o outro, mas a arte de conviver com ele. Onde a tolerância seja mútua, não unilateral. Onde a diferença seja celebrada, não suportada. Onde a corda da convivência seja esticada — mas não quebrada.


Na NeuroPsiOnline, acreditamos que a mudança é possível. Não a mudança que elimina a diferença (isso seria ilusório), mas a que nos ensina a conviver com ela — sem nos anular, sem anular o outro.


Se você sente que tem tolerado demais — que o peso da convivência tem esmagado a sua alma — saiba que não precisa carregar esse peso sozinho.


A psicoterapia é o espaço onde os limites podem ser nomeados, onde o peso pode ser distribuído, onde a tolerância pode se tornar mútua — e não unilateral.

Um abraço,


Dr. Adilson Reichert

Neuropsicanalista Clínico, Terapeuta Cognitivo-Comportamental e Educador Social


NeuroPsiOnline. Onde a mudança acontece.


(CTA – Call to Action)

Você sente que tem tolerado demais? Que o peso da convivência tem esmagado a sua alma? Que você cede sempre, que você se adapta sempre, que você sofre sempre — e que, no fim, ninguém percebe o seu esforço?


A tolerância é uma virtude — mas não quando se torna prisão.


Na NeuroPsiOnline, oferecemos uma abordagem integrativa que une a profundidade da psicanálise, a precisão da Terapia Cognitivo-Comportamental e a sabedoria da filosofia prática para ajudá-lo a:

  • Distinguir entre a diferença legítima (que merece tolerância) e o abuso (que exige limite).

  • Nomear o que você sente, sem culpa e sem vergonha.

  • Estabelecer limites claros, sem agressividade e sem passividade.

  • Cultivar a tolerância mútua — aquela que preserva a relação sem destruir você.

  • Psicoterapia integrada para adultos (neuropsicanálise + TCC)

  • Terapia para casais — reconstruindo a confiança e a reciprocidade

  • Educação social para jovens e adolescentes — fortalecendo a identidade e a assertividade

  • Desenvolvimento pessoal — para quem busca autoconhecimento e transformação

  • Supervisão clínica — para profissionais que desejam aprimorar sua escuta e sua prática

  • Análise pessoal para psicólogos e psicanalistas em formação — o pilar fundamental do tripé de formação

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Se a tolerância tem sido sua prisão — a chave está mais perto do que você imagina.


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Referências

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

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HABERMAS, J. Teoria da Ação Comunicativa. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

HOOKS, B. Ensinando a Transgredir: A Educação como Prática da Liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.

KIERKEGAARD, S. O Desespero Humano. São Paulo: Editora 34, 2016.

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